domingo, 6 de agosto de 2017

Crítica: Dunkirk



Christopher Nolan é um diretor que sempre exibe ambição em seus projetos. Iniciando com "Amnésia" (um filme que conta uma narrativa ao contrário), passando pela trilogia "Batman" (abordando o Homem-Morcego com realismo), e culminando no cinema espetáculo de "A Origem" (que aborda a mente humana) e "Interestelar" (sua homenagem à sua maior influência, Kubrick e "2001: Uma Odisseia no Espaço"). Nessa tendência de buscar superar a escala do filme anterior, era nítido que em algum momento Nolan abordaria a Segunda Guerra Mundial.

O filme aborda a evacuação dos soldados britânicos de Dunkirk, mostrando três pontos de vista distintos: soldados que passam uma semana tentando ao menos sair da praia, o dia de um pai (Mark Rylance) e um filho que vão com uma embarcação pequena resgatar soldados da praia e uma hora de um piloto (Tom Hardy) que precisa abater os aviões que bombardeiam os navios de resgate e soldados britânicos. O filme investe numa narrativa não linear, fazendo com que (assim como em "A Origem") o clímax de cada uma das histórias culmine no mesmo instante.

Nolan nunca foi um diretor que escondia suas influências cinematográficas, no entanto "Dunkirk" é o filme nos quais elas mais transparecem ao espectador mais atentos. Alusões ao cinema de David Lean ("A Ponte do Rio Kwai"), Stanley Kubrick ("Glória Feita de Sangue"), Louis Malle ("Os Meninos"). No entanto, é visível que a maior delas é o filme de guerra intimista "Além da Linha Vermelha", de Terrence Malick. Um filme que apesar de ter um período histórico muito específico, é muito mais uma reflexão sobre a natureza de todas as guerras. Não tendo heróis, vilões ou covardes. Apenas vítimas de um monstro maior que todos eles.



Apostando num roteiro econômico nos diálogos, "Dunkirk" tem seus momentos mais brilhantes quando retrata a sobrevivência como uma linguagem silenciosa capaz unir pessoas pessoas que não falam o mesmo idioma (o momento no qual os dois soldados resolvem carregar uma maca, apenas para poderem se infiltrar no navio que voltará para Inglaterra). O problema, é que em certos momentos essa abordagem é quebrada por fins de didatismo (o personagem de Kenneth Brannagh que explica toda a natureza do conflito a um subalterno) e outros nos quais é subestimada a inteligência do espectador (o infame momento no qual um navio afunda, óleo se espalha no mar e um dos personagens grita "ÓLEO!! ESTÁ NA ÁGUA").

Outro problema presente em "Dunkirk", é a falta de conexão entre a audiência e os personagens. A proposta do filme certamente não permitia um aprofundamento maior nos personagens (todos os personagens tem apenas uma meta: sobreviver. Não há motivação maior que essa numa narrativa), no entanto o impacto de inúmeras cenas seria maior se um pouco mais houvesse sido investido no desenvolvimento dos personagens. Os únicos que possuem um arco, são o pai e filho que resolvem resgatar sobreviventes em sua pequena embarcação (o clássico tema do menino que se torna um homem).

O longa é uma aula de como construir tensão. Pois o que os espectadores e os personagens logo aprendem, é que na guerra todos são vítimas e não existe local sem perigo. Constantemente os personagens se veem fugindo de tiros e explosões, encontrando aparente refúgio em barcos de fuga (nos quais, enfermeiras, voluntários aguardam com chá e torradas e garantem que tudo ficará bem dali pra frente), apenas para se verem sendo atacados de novo e vendo seus salvadores morrendo.



Mais um aspecto digno de nota, é a trilha sonora de Hans Zimmer. O compositor realiza um dos seus melhores trabalhos, sua música é praticamente um personagem no filme. Utilizando os tiques de um relógio de bolso como um constante alerta de um vindouro ataque (não é a toa que no momento no qual os sobreviventes chegam na Inglaterra, o relógio jamais é ouvido novamente), fazendo com que a tensão seja respirada tanto pelos personagens quanto pelos espectadores.

É impossível negar, "Dunkirk" é um filme tecnicamente espetacular. Uma mistura de beleza (repare como Nolan permite um momento lúdico quase surreal: os avisos dos alemães caindo dos céus sobre os soldados britânicos), brutalidade e reflexão. Só uma pena que por conta da falta de desenvolvimento de personagens, por vezes parece que o espectador está num simulador de Segunda Guerra. E não conferindo uma narrativa sobre o conflito.

Nota: 8
Ps: com todo respeito, mas que palhaçada esse destaque que alguns estão dando à atuação de Harry Styles. Ele não atua mal, mas compara-lo com Heath Ledger e seu Coringa em "O Cavaleiro das Trevas", é uma blasfêmia.