domingo, 9 de julho de 2017

Crítica: Homem-Aranha De Volta ao Lar


Após 5 produções, a Sony resolveu ceder os direitos do Homem-Aranha ao Marvel Studios, numa parceria na qual o cabeça de teia seria enfim integrado ao universo cinematográfico de personagens como Homem de Ferro e Capitão América. Desde o anúncio deste novo filme, foram prometidos: um protagonista que de fato está no colegial (assim, ele tem 15 anos e o ator tem idade próxima a isso), uma trama e lutas muito mais contidas (a megalomania dos 5 filmes anteriores seria deixada de lado) e um tom muito mais leve para as aventuras de Peter Parker (sem aquele peso presente nas encarnações do herói de Tobey Maguire e Andrew Garfield).

A história acompanha o jovem Peter Parker (Tom Holland), que sendo um jovem de 15 anos que ainda se encontra no colegial, mantém-se impressionado com sua  breve parceria com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr) em "Guerra Civil". Assim, ele constantemente se vê ambicionando missões maiores do que simplesmente retirar o gato da árvore ou ajudar senhoras a atravessar a rua. O que culmina com a aparição de um criminoso intitulado de Abutre (Michael Keaton).

Sinto em ser aquele que dará um banho de água fria, mas achei esse novo filme do Homem-Aranha muito bobinho. Sabe aquela história de muitas críticas iniciais que diziam "É O MELHOR FILME DO HOMEM-ARANHA JÁ FEITO"? Acho que todos elas foram escritas por pessoas antecipadas demais. Falarei mais disso abaixo.




Pra começar, beleza. Eu entendo que a proposta do filme era fazer uma trama mais adolescente, contida e por quê não, mais inocente. No entanto, ser adolescente não significa que a trama tenha que ser boba e tonta. Tomemos por exemplo o bully de Peter Parker, Flash Thompson. Toda vez que ele vai zoar e atormentar o jovem Peter Parker, ele se limita a proferir frases como "Haha, Pênis Parker", ou então a ficar bravo porque ele não soube responder a pergunta que Parker soube (basicamente, Flash quer ser o gênio que Peter é). Grande bully, hein (o coitado chega a ser dj)? Faz o velhinho do Up parecer ameaçador.

Ou então, beleza. Entendo que eles queiram dar destaque para personagens que virão ser desenvolvidos nos próximos filmes, mas toda vez que Michelle (Zendaya) faz um de seus comentários, ela não parece uma jovem inteligente com comentários sarcásticos e engraçados. Ela só parece chata mesmo. É triste dizer isso, mas não somente as piadas da personagem são ruins. Esse é o filme da Marvel no qual as piadas mais soam forçadas. E sim, nisso estou comparando com o péssimo "Homem de Ferro 3".

Sem querer dar spoilers, outro sério problema que enxergo no filme é o fato de todos os momentos no quais civis estão em perigo, terem sido causados pelo próprio Homem-Aranha. Por mais que o vilão seja uma ameaça com um certo grau de perigo, diretamente ele não chega a ameaçar pessoas em suas ações. Ele é um ladrão equipado com tecnologia de ponta. Já o protagonista, sempre quer resolver a situação do seu jeito (levando em conta que é um adolescente, ou seja: completamente desajeitado, faz tudo errado, não pensa duas vezes) e acaba estragando tudo (como na cena da balsa). Eu entendo a intenção dos roteiristas em dizer que ele ainda é um herói em treinamento, mas precisava usar isso em todas as cenas que o herói age?





Falando nelas, eu sinto desapontar mas este é o filme da franquia com menos cenas de ação inspiradas. Apesar do uniforme do Homem-Aranha ser belíssimo, e até mesmo os equipamentos do Abutre serem interessantes (distantes do visual dos quadrinhos, mas incrivelmente funcional), os confrontos entre os dois são no mínimo preguiçosos. Uma leve comparação pra vocês entenderem: "Esquadrão Suicida" é um filme com cenas de ação melhores e mais elaboradas (e sempre lembrando, que até nisso o filme da DC conseguiu falhar).

No entanto, o filme não só possui erros. A começar pelo elenco, que é competente. Ainda não sei dizer se Tom Holland é o melhor Homem-Aranha, no entanto ele é o ator que encarna Peter Parker com mais naturalidade. Por uma simples diferença aos outros dois intérpretes anteriores do herói: ele é um jovem na faixa etária do personagem. A empolgação que ele transparece sempre parece genuína, e o misto de inocência só contribui para acreditarmos na figura do personagem (reparem como ele reage ao ver uma arma com um poder inacreditável: se esquecendo completamente que aquele vilão quer utilizar o poder desta para destruí-lo). Além disso, os momentos nos quais precisa demonstrar uma certa fragilidade (o momento dos escombros) convencem.

Os coadjuvantes também são interessantes. A química estabelecida entre Peter e Ned (Jacob Batalon) é sensacional, as participações especiais de Tony Stark (Robert Downey Jr) e Happy Hogan (Jon Favreau) são econômicas e divertidas. O mesmo não pode ser dito da participação da Tia May (Marisa Tomei). Sua personagem até transparece uma preocupação com seu sobrinho, mas o roteiro só a usa como "a tia gostosa". Percebam que todos os personagens masculinos que interagem com ela no filme, quando a veem parecem ativar um "modo pedreiro". Gente que dá comida de graça, gente que faz comentários sobre ela ser demais (até o melhor amigo de Peter que tem 15 anos). Cheguei a temer que em algum momento, um caminhão passasse ao lado dela e desse uma buzinada.


Mas de todos os nomes envolvidos, quem realmente se destaca é Michael Keaton. O ator consegue pegar um personagem que não possui longos monólogos ou que seja excêntrico (afinal, vilões de quadrinhos sempre acabam se restringindo a isso), e cria uma figura no mínimo realista. Toomes jamais se auto-intitula "abutre", não usa uniforme espalhafatoso para assaltar bancos ou ameaçar pessoas e inspirar medo. É simplesmente um traje com as ferramentas necessárias para transportar os materiais que ele precisa e garantir a segurança dos seus negócios. Além disso, o roteiro inúmeras vezes deixa claro que ele não quer dominar o mundo. Mas sim, conseguir o dinheiro necessário para sustentar os seus entes queridos (fazendo um paralelo interessante com Tony Stark, "Por que quando ele vende armas para assassinos, ninguém o confronta?"). Apesar disso, em todo momento no qual ameaça alguém o tom nas falas do ator sempre soa ameaçador e perigoso (sempre levando em conta, que ele foi o Batman e Beetlejuice). O que o difere do péssimo Barão Zemo (Daniel Brühl) de "Guerra Civil". Que no final das contas, era só um pobre coitado. O "Abutre" de Michael Keaton, é um vilão que não quer ser vilão. Mas que sendo necessário, o fará com toda violência possível (não é a toa, que muitos o estão comparando ao Tony Soprano interpretado por James Gandolfini, na sensacional série "Família Soprano").

Como vocês já devem ter percebido, eu não achei o novo Homem-Aranha um filme tão bacana assim. Não sei se por conta da expectativa da Marvel trazer para si seu filho favorito, ou se o fato de ser um filme do personagem sempre ser um filme evento (com efeitos especiais fantásticos, cenas de ação espetaculares, bom humor). Mas achei um filme muito bobinho e muito aquém da qualidade Marvel. Que por mais que não sejam meus filmes de super-heróis favoritos (prefiro o tom sério e "realista" da Dc), sempre conseguiam entregar um produto competente. No caso de "Homem-Aranha: De Volta ao Lar", o resultado foi um filme pelo menos esquecível.

Nota: 6,5

Ps: farei um comentário com spoilers referentes ao final do filme, se você quiser ler sublinhe abaixo:
Por que o Abutre não entrega a identidade do Homem-Aranha quando é preso? O cara destruiu sua vida, o fez ir pra cadeia, acabou com o sustento de sua família. MAS NÃO: vou guardar a identidade pra mim porque ele salvou minha vida. Que bullshit.