sexta-feira, 28 de julho de 2017

Crítica: Em Ritmo de Fuga (Baby Driver)



Diretor da trilogia do Cornetto ("Shaun of the Dead", "Hot Fuzz" e "The World's End") e de "Scott Pilgrim Contra o Mundo" (além de ter participado da concepção dos roteiros de "As Aventuras de Tintim" e "Homem-Formiga), Edgar Wright é um diretor assumidamente cinéfilo. Todos os seus filmes refletem suas influências cinematográficas, conseguindo ainda criar algo novo (seja no filme de zumbi, no filme policial ou até nos filmes de games). 

Seu mais novo filme, "Baby Driver" (vou ignorar o título "Em Ritmo de Fuga"), é a prova viva disso. Claramente influenciado por filmes como "The Driver" (clássico de Walter Hill de 78), "Drive" (o ótimo filme estrelado por Ryan Gosling) e "Fogo Contra Fogo" (o melhor filme de assalto já feito), o longa consegue ir além do mote do piloto de fuga que é o melhor no que faz e entrega uma trama recheada de surpresas. Sem falar na marca registrada do diretor, a mixagem de som e a edição que praticamente elevam o humor a uma nova categoria.

A trama companha um piloto chamado Baby (Ansel Elgort), que é piloto de fuga para um chefão do crime (Kevin Spacey) que organiza assaltos com diferentes equipes (Jamie Foxx, Jon Hamm, Eiza Gonzalez, Jon Bernthal). Baby sempre realiza suas fugas ouvindo músicas específicas no seu I-Pod (além das músicas ajudarem-no a realizar melhor suas fugas, também abafa o zunido que possui em sua audição, causado por um acidente na infância), e sempre consegue escapar da polícia. No entanto, tudo fica mais difícil quando se envolve com uma garçonete chamada Debora (Lily James).

Como vocês podem ter notado, a trama principal não tem nada de original. No entanto, o que o roteiro de Edgar Wright adiciona mesmo nessa trama já batida, é o envolvimento musical. Toda a trilha sonora do filme é ouvida pelo protagonista, todas as cenas de ação foram escritas ritmadas com as respectivas músicas (os atores revelaram em entrevistas, que o diretor enviou anexado ao roteiro uma playlist para ouvirem enquanto liam certas passagens). Além de adicionar ritmo ao filme (em momento algum o espectador fica entediado), confere um tom musical completamente inesperado. É como se o espectador assistisse um musical de ação.



Outro aspecto digno de nota do roteiro, são os diálogos. Edgar Wright sempre exibiu em seus projetos uma característica marcante nos roteiros do seu mentor (e amigo) Quentin Tarantino: diálogos engraçados e divertidos, que subitamente se tornam tensos. Constantemente o espectador se vê rindo bastante, e de repente toda a cena exibe um perigo latente para os personagens. Uma conversa trivial sobre como gasta-se dinheiro em coisas fúteis, pode subitamente transformar-se num tiroteio (e considerando que com exceção de Baby e Debora, todos os outros personagens são criminosos e assassinos armado, isso é algo preocupante).

Essa tensão não seria possível, se o roteiro não desenvolvesse bem seus personagens. Todos eles (seja o par principal ou os coadjuvantes) exibem características marcantes. Repare Buddy (Jon Hamm, o eterno protagonista da série Mad Men) e Darling (Eiza Gonzalez): é um casal criminoso que tem verdadeiro prazer em realizar suas atividades, são completamente apaixonados um pelo outro, são absolutamente tranquilos com as missões (e diferente de outros criminosos que participam dos assaltos, adoram Baby). No entanto, basta alguém ameaçar o status quo criado por eles (seja ofendendo um deles, arriscando a missão ao improvisar ou até mesmo querendo saber mais sobre seus respectivos passados), para dispararem balas. Outro coadjuvante interessante, é Bats (Jamie Foxx). Que desde sua primeira aparição em tela, aparenta ser alguém instável e perigoso. No entanto, o roteiro deixa muito claro ao espectador, que o personagem é tão ameaçador que quase chega a ser engraçado (repare a cena na qual ele puxa um revólver para executar uma garçonete que não o respondeu corretamente).

Claro que o verdadeiro destaque, é o protagonista título. Baby é um personagem complexo (apesar de não sermos apresentados todos os detalhes sobre seu acidente, compreendemos tudo que este implicou em sua vida), incrivelmente carismático (poucas vezes somos apresentados a um protagonista que na primeira cena em que surge, faz algo tão bobo e ao mesmo tempo tão próximo do espectador) e ao mesmo tempo tão discreto (Ansel Elgort consegue dizer muito falando pouco, apenas com olhares, expressões e gestos. Algo que só se ressalta ao ser mostrada sua relação com seu padrasto). 



No entanto, o grande destaque do filme são as cenas de ação (envolvendo carros ou não). Todas são coreografadas como uma dança, todas são elegantes, todas passam perigo e ainda são incrivelmente originais. Fazendo jus aos filmes que inspiraram as perseguições presentes aqui ("Viver e Morrer em L.A", "Bullit", "Operação França").

Outro aspecto muito legal do filme, é a musicalidade. A trilha sonora é espetacular (procure no Spotify), passando o sentimento perfeito que cada cena precisa. Seja o 1o assalto ao som de Belbottoms ou a música nostálgica cantada por Sky Ferreira. Além disso, o filme apresenta-se como um musical informal. Assim, os movimentos feitos pelos assaltantes ao entrarem no banco, o trajeto de Baby na 1a entrega de café, os tiros disparados, tudo parece incrivelmente coreografo como num grande musical. Além disso, os efeitos sonoros e os cortes da edição muitas vezes são um auxílio narrativo para humor ou tensão (repare como um personagem diz a Baby que ele irá subir na vida, e ao mesmo tempo ouvimos o som do elevador subindo).

Como você deve ter reparado, gostei muito de "Baby Driver". Por mais que eu já esperasse um bom filme por ser fã do diretor, não estava esperando ser tão surpreendido como fui. A grande verdade é que crítica alguma reflete a experiencia que é assistir a este filme (quantas vezes vemos um elenco tão bom auxiliado por uma direção e roteiro tão impecáveis?). Corra para o cinema com o melhor som possível e aproveite a experiência.

Nota: 10