domingo, 2 de abril de 2017

Crítica: A Vigilante do Amanhã- Ghost in the Shell



Não é de hoje que Hollywood tenta retirar lucros a partir da cultura pop oriental, desde versões norte-americanas de Godzilla até a abominável adaptação cinematográfica "Dragon Ball Evolution". Na grande maioria das vezes o resultado é sofrível. Pois além de retirarem a maioria dos elementos que tornavam o material original único, ainda tentavam tornar as histórias mais americanas (basta lembrar que na vindoura adaptação live-action de "Akira", Neo-Tokyo se chamará Neo-Manhataan, e transformarão Kaneda em Joe).

Ghost in the Shell é um dos mangás mais influentes de todos os tempos. Uma mistura de filosofia, os conceitos de Asimov, a influência noir sobre o Sci-Fi de "Blade Runner", além de uma visão incrivelmente particular de um futuro próximo. E desde a animação longa-metragem de 95, Hollywood tenta fazer uma adaptação live-action. No entanto, os roteiros de teste excluíam todos os questionamentos presentes na obra, pra simplesmente fazer uma história de uma gostosa que atira em todo mundo (pense em "Nikita" ou até na Alice de "Resident Evil"). Porém, em 2016 foi anunciado que a adaptação seria estrelada por Scarlett Johansson (o que gerou uma polêmica absurda, visto que ela é caucasiana) e que o roteiro manteria o espírito do original.

A história conta a história de Major (Scarlett Johansson), uma mulher que após um evento trágico teve apenas seu cérebro salvo. Assim, uma empresa de robótica chamada Hanka cria um corpo para que ela sirva aos interesses da Seção 9 (um departamento da polícia que cuida de terrorismo cibernético). No entanto, um hacker chamado Kuze (Michael Pitt) começa a assassinar cientistas da Hanka. Então, Major começará uma investigação que poderá culminar em descobertas sobre seu passado.



Eu fico feliz em dizer que "A Vigilante do Amanhã" é uma adaptação sucedida. Começando, por situar muito bem o universo do material original. Os enormes prédios acinzentados, a quantidade de elementos visuais que saltam das telas de outdoors (que remetem diretamente a "Blade Runner"), o design dos veículos (que seguem a lógica de Star Wars: são todos cobertos por arranhões, ferrugem, como se o futuro não fosse o paraíso que sempre presumimos ser), tudo incrivelmente fiel. Sem falar nas cenas que são reproduzidas frame a frame do desenho original: a construção de Major, a briga com o lixeiro, entre outras que não revelarei aqui.

Outro aspecto técnico digno de nota, é a trilha sonora de Clint Mansell. Que muito inteligente, optou por não fazer uma versão genérica da trilha do filme de 95. Mas sim, fazer sua própria versão. Que é mais equiparável ao que Vangelis fez com Blade Runner (eu não estou exagerando, observe os primeiros 5 minutos do filme).

No entanto, o grande destaque do filme é inserir muitos dos questionamentos presentes na obra original. A personagem de Major é muito bem interpretada por Scarlett Johansson, desde a maneira com a qual ela se movimenta (de uma maneira desajeitada e brusca, como se realmente não tivesse todo o controle e sensibilidade no seu corpo) até a maneira com a qual interage com os demais personagens (desde o princípio, fica muito claro que ela não consegue ter qualquer conexão emocional com outros seres). É quase o que Peter Weller fez com o Robocop original. E para minha surpresa, o filme faz uma leve homenagem a Major do longa de 95, que assume que este filme de 2017 é uma nova visão da personagem, mas ao mesmo tempo manteve o esqueleto da mesma. Portanto, mesmo com as mudanças de aparência, a essência da personagem mantém-se intacta.




Não só a Major de Scarlett Johansson foi fiel, mas até mesmo os personagens do elenco coadjuvante. Basta olhar Batou (Pilou Asbaek), um ciborgue que com medo de perder sua humanidade, agarra-se a pequenos elementos ordinariamente humanos (bebe cerveja constantemente, guarda ossos de carneiro para dar a cachorros abandonados na rua). Além de sua caracterização manter o espírito do original. Outro destaque na gama de personagens, é o vilão Kuze (Michael Pitt). Que além de possuir inúmeras camadas na sua personalidade (é quase como Magneto de "X-Men": suas ações são abomináveis, mas entendemos porque tomou tal partido), ainda exibe um design de produção interessante (como se fosse uma carcaça ambulante, e repare o tom de voz adotado por Michael Pitt, emulando Stephen Hawking).

Mesmo investindo muito em traduzir o espírito do original, "A Vigilante do Amanhã" tem certos vacilos. A começar por algo muito simples: a falta de violência. Tanto no filme de 95 quanto no mangá original, as ações dos agentes da Seção 9 sempre resultavam em carnificina. E isso era mostrado em detalhes, para que justamente o leitor/espectador questionasse a natureza bélica dos ciborgues/robôs. Nesta adaptação, inúmeros tiros são dados, vilões recebem golpes fortíssimos (lembrando, de robôs naturalmente mais fortes que humanos), e não há qualquer dano visto.

Outro sério problema, encontra-se em alguns dos diálogos. Com medo que o público médio não entenda parte das filosofias e questionamentos presentes na trama, muitas vezes frases como "Lembre-se, quando aceitamos nossas singularidades, elas se tornam virtudes" surgem, ao invés de simplesmente deixar que o silêncio e a contemplação digam tudo que precisa ser compreendido (além de que pelo amor de Deus: essa fala que dei de exemplo, caberia pra um personagem atormentado de Malhação, e não pra uma mulher que precisa recuperar sua humanidade).

Apesar de alguns problemas, "A Vigilante do Amanhã" é uma ótima adaptação. Respeitando o espírito da obra original, e fazendo mudanças no cânone que são extremamente pertinentes.

Nota: 8