quinta-feira, 2 de março de 2017

Crítica: Logan



Apesar do protagonista título de "Logan" ter associação direta com histórias em quadrinhos, o filme não poderia ser mais diferente das produções cinematográficas do gênero. Contando com um roteiro que exibe personagens decadentes e brutos, cenas de ação incrivelmente intensas, vilões que poderiam existir na vida real, o filme já seria diferenciado. Mas a verdadeira relíquia, encontra-se na figura de Logan. Interpretado há 17 anos por Hugh Jackman, que encarna o mutante pela última vez, no momento mais frágil do personagem.

A trama acompanha Logan/Wolverine (Hugh Jackman) no ano de 2029, cuidando do adoecido mentor Charles Xavier (Patrick Stewart). Enquanto faz bicos como motorista de limusine, o mutante depara-se com Laura/X-23 (Dafne Ken). Uma criança que possui os mesmos poderes que os seus, e que está fugindo de um bando de mercenários, liderados por Donald Pierce (Boyd Holbrook).

Como já mencionado, "Logan" não é um filme de super-heróis. Apesar de possuir personagens dos X-Men, que por sua vez possuem super-poderes, essas habilidades jamais são mostradas de maneira heroica. A começar pelo próprio Wolverine. Se nos outros filmes dos X-Men, suas ações eram mostradas como meras acrobacias que resultavam em pouco dano visível nos inimigos (o que parando pra pensar, é um pouco incoerente visto que o sujeito possui três lâminas em cada punho), aqui todo é estrago é mostrado de maneira gráfica.



O que traz outro grande mérito do filme: a violência presente nunca é mostrado de maneira estéril. Sempre que alguém é mutilado ou morto, o espectador sente por aquela pessoa (e sim, mesmo sendo vilões). As cenas de ação são filmadas para serem feias, e a violência presente nelas é sempre chocante (é bastante diferente do que vemos em "Deadpool", que apesar de mostrar muito sangue, jamais coloca peso nas mortes). Após um ataque, a câmera faz questão de mostrar as migalhas da violência: membros mutilados, pessoas agonizando, sangue sobre a poeira do deserto. Além da gritante verdade: tudo aquilo podia ser evitado. 

Levando assim a uma das discussões do filme: Logan/Wolverine é um herói? Mesmo se valendo de motivos nobres, é justificável matar alguém (e ainda de maneira tão brutal)? É uma discussão que apesar de não ser colocada em pauta explicitamente, está presente o tempo todo. Como quando ao acordar de um pesadelo, Logan ouve Laura afirmando: "Nos meus pesadelos, tem pessoas me machucando". Assim, respondendo a menina: "Nos meus, eu machuco pessoas". Duas frases incrivelmente simples, mas que exibem toda mensagem do filme: não importa a razão pela qual você está cometendo violência/sendo agressivo. Em pouco tempo, você se torna aquilo que queria combater. Não é a toa, que em certa passagem do filme, o vilão Donald Pierce sequestra um dos aliados de Logan e fala "Agora você terá a chance de trabalhar pros mocinhos". Mesmo sendo um mercenário, ele não se vê no lado errado.

Importante dizer, que "Logan" é um filme com personagens muito bem trabalhados. Como já mencionei, o vilão Donald Pierce é uma figura complexa. Apesar de fazer atos hediondos (lembrem-se, ele está caçando uma criança), ele ainda se vê como um "mocinho". E o fato de não possuir falas grandiloquentes, roupas extravagantes e coloridas, ou um plano de dominar o mundo (ele simplesmente quer ser pago), deixa claro ao espectador que ele não é uma figura exclusiva do cinema/quadrinhos. Poderia muito bem existir (e infelizmente, existe) na nossa realidade.

Mas o verdadeiro brilho está nos protagonistas do filme, que conta com a ilustre figura de Patrick Stewart interpretando (pela última vez, como afirmou em entrevistas recentes) Charles Xavier. Que com sua mente debilitada, exibe momentos incrivelmente frágeis (tanto nos momentos nos quais perde o controle dos seus poderes, quanto quando se recorda dos atos inomináveis que praticou), e momentos incrivelmente ternos (a maneira com a qual ele tenta conversar com Laura, apelando pra uma fala infantil. Um carinho que ele percebe que a menina nunca teve). Laura por sua vez, é uma personagem que apesar de falar pouco, diz muito em suas ações (reparem o breve momento, no qual em uma perseguição, Laura utiliza seu corpo como um escudo humano para proteger Xavier). Além de demonstrar uma determinação e cinismo, que deixam claro ao espectador que a menina não teve uma infância ordinária e saudável.



Mas o verdadeiro destaque, é personagem de Hugh Jackman. Que traça um retrato magnífico de Logan. Um homem repleto de cicatrizes físicas (reparem a respiração que Hugh Jackman colocou no personagem, e o seu andar) e psicológicas, que simplesmente não quer mais se afeiçoar a ninguém. Abraçando-se ao pouco que tem, e tentando não se meter em conflitos. Não é a toa que a figura de Laura é recebida com medo por ele: não só de se afeiçoar e perdê-la (como já ocorreu tantas vezes antes com outras figuras queridas), mas de se tornar um mau exemplo. Pois, a grande diferença deste Wolverine para o apresentado nos outros filmes, é maturidade. Ele sabe que é quase invencível, e que pode esquartejar qualquer inimigo. Porém, o Logan apresentado aqui sabe que isso tem um preço. De ser visto como um animal, até ele mesmo começar a acreditar nisso. Um breve reflexo disso: este é o único filme com o personagem que suas mãos ficam repletas de sangue, após simplesmente acionar as garras de adamantium. 

Além de apresentar um roteiro magnífico com personagens muito bem desenvolvidos, o filme ainda é entretenimento excepcional. Trazendo cenas de ação incrivelmente dirigidas e intensas, que diferente dos atuais filmes da Marvel e Dc, cansam e chocam o espectador. Contando também com uma trilha sonora adequada (que nada lembra um filme de super-heróis, e sim um road movie ou um western moderno como "Onde os Fracos Não Tem Vez"), efeitos visuais discretos mas eficientes e uma fotografia belíssima retratando regiões desérticas e desoladas. A única mazela do filme, encontra-se num certo vídeo encontrado pelos personagens. Mas, nada que de fato prejudique a mensagem do filme.

Ao apresentar um Wolverine que praticamente manca pelo peso das mortes que provocou, por mostrar esse retrato mais realista de um universo e personagens que conhecemos e amamos, por dar um final digno à trajetória de um dos personagens mais conhecidos da cultura pop, e além de tudo criar um filme de ação magnífico (duvido que 2017 terá cenas de ação tão impactantes e intensas quanto as presentes nesse filme), "Logan" é um filme que se destaca não só na franquia "X-Men" mas em todo gênero de super-heróis no cinema. A prova viva que mais interessante do que mostrar as habilidades de um herói, é mostrar o homem que vive dentro dele.

Nota: 9