sexta-feira, 24 de março de 2017

Crítica: Fragmentado (Split)



O diretor M. Night Shyamalan é um figura curiosa. Começou lançando filmes muito aclamados, porém vinha fazendo uma bomba atrás da outra. É quase impossível pensar que a mesma mente que concebeu "Corpo Fechado" (que é inclusive, um dos filmes favoritos de Quentin Tarantino), também fez "Fim dos Tempos" (um filme no qual um cara discute com uma samambaia, e no qual pessoas fogem do vento). 

No entanto, após "A Visita" (que não é uma maravilha, mas tem bons momentos), parece que Shyamalan percebeu os erros de sua escolhas narrativas. E podendo enfim, se libertar dessa maldição de filmes ruins com "Fragmentado". Suspense que não apenas exibe um protagonista fascinante, como ainda demonstra o talento do diretor. Além de estabelecer possibilidades interessantes para uma continuação.

O filme acompanha Kevin, (James McAvoy), que numa tarde sequestra três adolescentes. Enquanto, pensam em como escapar do seu cativeiro, as jovens percebem que seu sequestrador possui múltiplas personalidades. Sendo mais preciso, 24 personalidades.

Esse é o fiapo de história que indicarei aqui, pois a graça de "Fragmentado" é justamente ir descobrindo a verdadeira intenção do filme.




Interessante ver como que Shyamalan continua exibindo seus traços característicos: os enquadramentos nos quais coloca o rosto do ator no centro, a falta de foco nos ambientes atrás dos personagens (o que por si só, já cria uma atmosfera alta de suspense, pois deformar o cenário, subjetivamente retira a zona de conforto do espectador). Mas curiosamente, estes toque autorais nunca se encaixaram tão bem em sua filmografia quanto em "Fragmentado". Pois, é como se constantemente a câmera estivesse fazendo o mesmo que nós espectadores: atentamente buscando sinais no rosto de Kevin, para saber quem está nas rédeas de seu corpo. 

Isso só se contribui com o design de produção, já que 80% do filme se passa dentro do cativeiro criado por Kevin. Um ambiente de poucas cores, poucos objetos de cena (no entanto, mesmo os poucos presentes em cena já revelam certos detalhes sobre o personagem), e uma luz amarela constante. Assim, o espectador não tem distrações visuais, e só consegue focar no rosto do antagonista do filme.

Que por si só, é uma figura fascinante. Isso se deve não apenas pelo roteiro de Shyamalan (que ao final do filme, expõe mais da cabeça do personagem), mas pela atuação de James McAvoy. Um ator muito talentoso, que nunca havia recebido um papel no qual pudesse explorar tanto. Sua atuação não impressiona apenas pelas diferenças entre cada personalidade (compare como seus braços ficam com Dennis e Hedgwig), mas quando de fato vemos a lenta transição de uma personalidade pra outra (pequenos sinais já indicando a troca, seja uma levantada de sobrancelha ou a maneira como os lábios se cerram). Se um ator menos versátil tivesse pegado o papel, o resultado em tela seria incrivelmente pavoroso. Mas com McAvoy, mesmo nos momentos mais exagerados e grotescos das personalidades, sua atuação jamais perde verossimilhança. 


O resto do elenco é igualmente competente, tendo como outro destaque a atriz Anya Taylor-Joy. Que já havia chamado atenção no excelente "A Bruxa", e aqui faz um papel mais discreto. De uma jovem que compartilha uma característica com Kevin (não direi qual é, por motivos óbvios), e que utiliza isso em seu favor pra interagir com as 24 personalidades. E retomando a tradição da filmografia do diretor, ela é como uma personagem de um conto dos Irmãos Grimm. Uma jovem que passa por uma situação extrema, vivendo stress e tensão não condizentes com sua faixa etária. Dando a denotação de que por mais racionais que sejamos, vivemos numa selva e somos animais (não é a toa, que o diretor constantemente enfoca leões e tigres ao longo do filme. Além de flashbacks sobre o ato de caçar).

Mesmo com muitos méritos, "Fragmentado" ainda exibe uma parcela de mazelas. A personagem da Dra. Fletcher (Betty Buckley) é uma mera muleta narrativa, servindo para fornecer informações sobre o personagem e só. Além de muitas vezes, o filme parece indicar que se passou muito tempo desde o sequestro das meninas, e no entanto estas não demonstram ter qualquer sinal de tempo, seja em suas vestes, ou até no stress que estariam vivendo por estarem há semanas presas. 

Apesar disso, "Fragmentado" é um ótimo suspense. Que além de contar uma história fascinante, ainda nos surpreende com um plot twist em seus dois minutos finais, que além de garantir uma continuação ainda nos confirma: Kevin e sua Horda são apenas o começo.

Nota: 8