quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Crítica: Jackie



Quando surgiram as primeiras imagens de divulgação de "Jackie", todos pensaram que se tratava de uma cinebiografia como tantas que tem surgido nos últimos anos. Afinal, só na categoria de cinebiografias de figuras femininas políticas, temos: "Evita", "A Rainha", "Elizabeth", "A Dama de Ferro", "Diana", "Grace de Mônaco". Cada uma com méritos próprios, mas sempre seguindo uma fórmula parecida, que "Jackie" parecia rumar.

No entanto, bastam os primeiros minutos de projeção para que o espectador perceba que "Jackie" é um filme diferente. Enfocando Natalie Portman, com uma expressão que poderia indicar tanto solidão quanto luto, fazendo-nos questionar se essa primeira aparição de Jacqueline Kennedy retrata a ex-primeira dama antes ou depois do assassinato de seu marido. Junte isso a incômoda trilha sonora de Mica Levi (que já havia participado de outro filme que fala como a sociedade impõe uma imagem às  mulheres, "Sob a Pele"), e desde já entendemos que o diretor Pablo Larrain deseja explorar muito mais do que o luto vivido pela personagem de Natalie Portman.

O filme acompanha os preparativos posteriores a morte de John  Kennedy, a partir do olhar de Jackie. E como a ex-primeira dama se portou mediante o turbilhão de informações, sentimentos e angústias que vivenciou. Tudo isso, a partir de uma conversa com um repórter (Billy Crudup) que faz uma matéria sobre ela.



Logo de cara digo que Natalie Portman domina o filme. Sua atuação não é tão chamativa quanto a apresentada em "Cisne Negro", porém é recheada de detalhes que tornam sua personagem uma figura mais complexa. Criando várias facetas da personagem: a primeira dama mulher perfeita e sinônimo de elegância, a mãe que precisa alegrar seus filhos num aniversário, a mulher amarga e fria um mês após a morte do marido. Cada uma mais contrastante que a outra, sempre ressaltando o constante incômodo que a protagonista vive em não poder (e não se permitir) ser ela mesma.

Não demora para o espectador entender, que a Jackie de Natalie Portman constantemente encontra-se representando um papel. Do discurso em espanhol que ela decora em frente ao espelho antes da visita ao Texas (onde Kennedy seria assassinado), até a maneira com a qual ela anuncia aos filhos a morte do marido, a protagonista sempre está representando um papel (reparem a maneira como ela se porta nos trechos em que é mostrado o tour televisivo pela casa branca. Falando de maneira pausada, com um inglês perfeitamente claro, com os braços imóveis). Porém, a representação mais crucial que Jackie assume é a da primeira dama que não deixará o legado do marido tornar-se obsoleto e esquecido. Pois isso implicaria em ser esquecida também (como ocorreu com Mary Todd, esposa do também assassinado presidente Lincoln).

A direção de Pablo Larrain evidencia o receio da protagonista sem apelar pra superexposição. Como na cena em que um grupo de empregados retira da casa branca os pertences dos Kennedy, enquanto Jackie permanece imóvel no centro da sala. Quase como se fosse uma mobília a mais a ser retirada e empacotada. Ou então, na maneira com a qual as pessoas passam a trata-la logo após Lyndon Johnson assumir como presidente.


O diretor também é competente em ressaltar o horror sentido por Jackie, não apenas pela cena que recria com detalhes o assassinato, mas numa cena incrivelmente intimista: quando após horas cuidando dos assuntos governamentais do falecimento de seu marido, Jackie chega em casa e enfim pode trocar suas roupas sujas de sangue (a beleza da atriz torna o contraste da violência presente em suas vestes ainda mais impactante). Removendo a persona de primeira dama, limpando o sangue de seu marido presente no seu corpo e enfim podendo descansar. Uma cena sem diálogos que praticamente grita o que a personagem está sentindo (vejam a expressão de horror que surge quando após passar um bom tempo se limpando, ela vê que ainda restava sangue em seu cabelo, escorrendo ao ligar o chuveiro).

Mesmo Natalie Portman sendo o grande destaque de "Jackie", é preciso cumprimentar a fotografia de Stephane Fontaine. Todas as vezes que são mostradas cenas que se passam antes do assassinato, a fotografia ganha tons alaranjados (o baile no qual Jackie e o presidente compartilham uma dança, os ensaios pelo tour televisionado), enquanto que posteriormente ao assassinato um filtro azul/acinzentado permeia os ambientes. Além disso, todo o desconforto do luto e da impossibilidade de poder agir sem protocolo, é ressaltada pela trilha sonora. Que faz com que o espectador aguarde a qualquer momento, que a persona presidencial da protagonista comece a rachar.

Não nego, "Jackie" é um filme que me surpreendeu muito. Além de um estudo de personagem fascinante, um drama com um tema de extrema relevância. Em como as mulheres constantemente precisam assumir diversos papéis para que sejam vistas como relevantes, e não como figuras frágeis. Algo que inicialmente, o espectador pensava de Jacqueline Kennedy. Mas que certamente terá mudado ao final da projeção.

Nota: 9