terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crítica: La La Land



No cinema dos anos 2000, todo musical chega com um certo grau de estranheza. A verdade, é que o gênero tão amado nos anos 40 e 50, é incrivelmente impopular entre os jovens da geração Y (algo que ocorreu também com o faroeste). Até há um grau de adoração por filmes "Moulin Rouge" ou "Across The Universe", mas muito mais pelo verniz pop em torno do que pela elaboração do musical. Ainda existem musicais de qualidade (como "Sweeney Todd", melhor filme de Tim Burton), e outros bem medíocres ("High's School Musical"). Mas nem de perto, tem-se o mesmo número de produções realizadas na época (pra se entender um pouco o que estou falando, eram realizados mais filmes musicais nos anos 40 e 50 do que hoje se fazem filmes de super-herói. É, pois é).

O filme "La La Land" se assume como uma homenagem aos musicais clássicos desde sua cena de abertura (que inclusive, se orgulha em ser apresentado em Cinema Scope, tal como os filmes que homenageia). Não tendo medo em ser excessiva, alegre e irritante. O que é mais curioso, é ver como o resto de "La La Land" é bem menos over do que esses primeiros 10 minutos.

A trama acompanha uma jovem aspirante a atriz (Emma Stone) e um pianista de jazz (Ryan Gosling), que ao mesmo tempo que se veem tentando enfrentar Los Angeles e alcançar seus sonhos, aos poucos vão se apaixonando. Reparem que não falei o nome dos personagens na minha breve sinopse: não precisa mesmo. Pois, por mais que o filme seja incrivelmente bem feito, conta um roteiro um tanto simplório.



Pra começar é preciso cumprimentar o diretor Damien Chazelle, que se em "Whiplash" já demonstrava um domínio absurdo sobre a câmera, aqui faz magia. Inúmeras são as cenas em que a câmera acompanha longas coreografias sem cortes, fazendo o espectador se questionar como que realizaram tamanha façanha (o meu momento favorito, quando emulando "Boogie Nights", a câmera acompanha uma festa e chega a entrar dentro da piscina). O jovem diretor também sabe distinguir entre os momentos despretensiosos e sonhadores (planos mais abertos), dos momentos com gravidade acentuada (planos fechados e intimistas). Inserindo também, diversos elementos que remetem aos grandes clássicos. Das referências mais óbvias ("Cantando na Chuva"), até as mais discretas ("Meias de Seda").

Além da direção impecável, "La La Land" também exibe uma fotografia exemplar. Tanto em momentos mais explícitos (a 1a cena de dança entre os protagonistas), quanto em momentos mais singelos (a saída da boate de jazz, quando o casal se despede e se olha despretensiosamente). Mas sem dúvida alguma, o grande destaque são os momentos nos quais o ambiente em torno dos personagens é tomado por trevas, e a luz parece emanar de seus corpos (como se naquele breve momento, se sentissem estrelas. Quando o personagem de Ryan Gosling improvisa no restaurante, e quando a personagem de Emma Stone faz seu último teste).

Há de se elogiar também, as atuações do casal protagonista. Sabemos muito pouco de suas vidas (basicamente o que falei na sinopse), mas a cada novo momento de felicidade ou frustração em suas vidas, a platéia compartilha o sentimento. Não é a toa que escalaram Emma Stone e Ryan Gosling. Ambos são atores incrivelmente talentosos (apesar de curiosamente, terem técnicas diferentes. Ryan é um ator mais intenso, que guarda as emoções. Já Emma, por conta de seu rosto expressivo, vai externando-as camada por camada) e igualmente carismáticos, além de terem uma química extraordinária.



Nem tudo são elogios. Apesar do roteiro economizar em diálogos expositivos, por vezes é básico demais. E até simplório. Se você já assistiu dois filmes de romance, irá adivinhar "La La Land" num piscar de olhos. Quando assistirem, reparem que é possível resumir a história em 2 minutos sem que seja perdido nenhum detalhe importante a trama. Esta inclusive, é tão dócil e sem conflitos maiores que até o personagem de John Legend (um personagem que tem um ponto de vista diferente do personagem Ryan Gosling sobre o papel da música, mas igualmente válida) começa a ganhar contornos de vilão (e novamente, ele não faz absolutamente nada de errado).

A maior surpresa que se tem, curiosamente, são nos números musicais. Assistindo ao 1o número musical do filme, imaginei que todos os outros fossem seguir aquela linha de musical alegre/colorido/expositivo. Mas a verdade, é que o restante dos números são muito mais tímidos e cativantes. Canções sobre os personagens e suas ambições, fazendo com que não soem gratuitos e sim, ajudando a construir os personagens narrativamente.

Confesso que não fui tomado de amores por "La La Land". Acho que é um filme muito bem feito, com um casal protagonista incrivelmente competente. Mas por conta da reação do Festival de Toronto, esperava que tivesse um roteiro um pouco melhor trabalhado. Mesmo assim, acho que o filme merece ser visto numa tela de cinema (poucas vezes o público terá a chance de ver um musical tão tecnicamente competente). E devo dizer, que um par de cenas me cativaram o suficiente pra justificar minha nota. O último teste feito por Emma Stone, e a última cena do filme. Não irei dar mais detalhes, pois a experiência deve ser preservada. Mas garanto a vocês que muitos filmes almejam criar momentos tão belos quanto essas duas cenas. Sejam eles musicais, ou não.

Nota: 8