segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Crítica: Animais Fantásticos e Onde Habitam




Lembro exatamente da sessão de "Harry Potter e as Relíquias da Morte-Parte 2". Não cheguei a ficar emocionado, porém não conseguia deixar de pensar que não haveria mais aquela constatação de  "ano que vem sai o próximo Harry Potter". Não sou um Potterhead, mas vi todos os filmes no cinema (eu tinha 6 anos quando vi "A Pedra Filosofal") assim a franquia tem seu devido lugar especial no meu coração.

Ao saber da notícia de que adaptariam "Animais Fantásticos e Onde Habitam", não cheguei a ficar empolgado. Por mais que não tenha lido o livro, sabia que se tratava de um mero catalogo de criaturas. E não uma história do mesmo universo que poderia ser adaptada para o cinema (caso de "O Hobbit" ou até mesmo "O Silmarilion", livros que se passam no mesmo universo de "O Senhor dos Anéis"). Posteriormente reconheço que desanimei, pois foi anunciado que seria o 1o de uma nova franquia de cinco filmes (ecos dos três filmes de "O Hobbit", que não são ruins mas enchem linguiça). Por isso, demorei um tanto pra assistir ao filme.

Pra quem ainda não assistiu, a trama acompanha o mago Newt Scamander (Eddie Redmayne) chegando aos Estados Unidos com propósitos misteriosos. Lá ele será os olhos da platéia, numa trama que envolve criaturas novas, a ascensão de um bruxo das trevas (não é o Voldemort) e o preconceito no país da liberdade. É uma trama que à primeira vista, parece bastante simples. Mas a verdade, é que "Animais Fantásticos e Onde Habitam" parece querer engatilhar tudo que desenvolverá nas sequências. E coloca inúmeras subtramas que não se desenvolvem da devida maneira.



É preciso dizer que mesmo David Yates sendo um diretor irregular, quando está em terreno conhecido (ele é o diretor que mais dirigiu filmes da saga) consegue fazer um ótimo trabalho. A abordagem dada para o mais novo filme passado no universo dos bruxos, não poderia ser mais exemplar. Assim como nos filmes que dirigiu de Harry Potter, ele filma os atores quase como se estivessem numa peça. Não só os ambientes evidenciam melhor isso, mas a própria maneira com a qual os atores entoam suas falas denotam essa perspectiva. Repare por exemplo, a presença de Colin Farrell na cena da reunião da Macusa. Ele não tem falas, porém a presença de seu personagem é sentida por todos (pela maneira com a qual se movimenta em cena, e como o diretor o deixa em evidência). Nada mais justo, afinal nomes como Michael Gambom/Richard Griffiths (Dumbledore), Alan Rickman (Snape), Maggie Smith (Minerva) e tantos outros atores de Harry Potter, são aclamados no teatro inglês.

Já que falei dos atores da franquia original, nada mais justo que tecer alguns comentários sobre os apresentados neste filme. Como falei, não sou Potterhead. Portanto, não conhecia nenhum dos personagens presentes na trama. Mas incrivelmente, isso não diminuiu em nada a experiência. Pois todos são muito bem desenvolvidos e carismáticos. A começar por Eddie Redmayne, ator que tenho rancor (por conta do Oscar de melhor ator que ele roubou do Michael Keaton) mas que aqui faz um papel de maneira competente. Repare como ele evita olhar para os rostos das pessoas enquanto fala algo, como se por conta de experiências anteriores já soubesse que um olhar de desgosto ou julgamento viria. Outro aspecto digno de nota, é observar como sua postura fica menos rígida quando está na presença de seus animais (fica claro que ele sente-se mais confortável entre animais irracionais do que entre humanos).

O resto do elenco é igualmente competente. Katherine Wasterson, Ezra Miller, Dan Fogler, Samantha Morton, todos fazem seus papéis muito bem e convencem com suas motivações. O grande destaque no entanto, é de Colin Farrel. O seu Percival Graves não possui uma cena chamativa ou exagerada (o que convenhamos, Ralph Fiennes tinha com seu Voldermort), porém todas as vezes que está em cena o espectador não consegue desviar os olhos da tela. Repare como seu olhar é o mesmo tanto para pedir para alguém se sentar, ou para condenar alguém a morte (mostrando que execuções são tão cotidianas, que não diferem de outra função burocrática de seu trabalho).



Todos os personagens exibem motivações bem desenvolvidas, porém há um grave problema em "Animais Fantásticos e Onde Habitam": subtramas demais. O filme não apenas mostra a jornada de Newt (Eddie Redmayne) atrás de seus animais, mas pelo menos mais 5 tramas diferentes. Há uma sobre humanos que querem saber a verdade sobre os bruxos (e mata-los, buscando inspiração na inquisição), há o Congresso Mágico dos Estados Unidos querendo prender Grindelwald (mago das trevas da vez, interpretado por Johnny Depp), há uma criatura nova que pode destruir a tudo e todos que pode estar presente dentro de uma criança bruxa não revelada, além de tudo que está em segundo plano (o preconceito de adentrar a América, os primeiros sinais da Grande Depressão, o controle do governo mágico com os não mágicos).

E convenhamos, qual a necessidade da reviravolta ao final? Além de demonstrar que aquele personagem é burro como uma porta, não tem qualquer importância para a narrativa. Eu não estou exagerando, se por um acaso cortassem essa cena ninguém sentiria falta. Eu entendo que estão pensando nas sequências, mas é preciso um certo tato em discernir o que é gordura narrativa.

E mesmo não gostando de admitir, os Potterheads sabem que todas essas tramas são desenvolvidas de maneira muito apressada. Se J.K Rowling (que assina o roteiro) teve 7 livros e 8 filmes pra desenvolver múltiplas tramas em Harry Potter, aqui ela tenta desenvolver tudo isso em apenas duas horas. É a velha regra do cinema: menos é mais. E infelizmente, o inverso também se aplica. Mais ao final, muitas das tramas que citei acima perdem toda e qualquer relevância. O que faz o espectador mais atento questionar a necessidade de se colocar neste filme (sabendo que mais QUATRO serão feitos).

Esse foi meu único problema com "Animais Fantásticos e Onde Habitam", que inegavelmente é grave mas que não compromete o resultado final do filme. Que exibe a excelência técnica da franquia Harry Potter (maquiagem, design de produção, direção de arte, figurino, efeitos especiais, tudo esplêndido), apresenta personagens incrivelmente carismáticos e ainda apresenta novas ideias a esse mundo tão mágico. Que poderia ter se contido e não atirar para todos os lados as ideias que hão de se desenvolver mais pra frente. Considerando o talento da roteirista/escritora, é impossível não se desapontar.

Nota: 7,5