sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Crítica: Star Trek Beyond


Após realizar dois filmes Trekkies e um convite para dirigir o novo Star Wars, J.J Abrams deixou o posto de direção do novo "Star Trek", ficando apenas como produtor. O novo capitão da franquia, foi o diretor dos mais recentes "Velozes e Furiosos", Justin Lin. Por mais audaciosa que tenha sido sua contratação (lembrando: o diretor do novo "Star Trek" também fez "Velozes e Furiosos". Impossível pensar em filmes mais opostos), após assistir ao mais novo filme da franquia fica muito clara a razão da contratação do diretor: sua paixão pelo material de origem. Pois se "Star Trek Beyond" não exibe um roteiro tão sofisticado e com tramas tão interessantes quanto os dois anteriores, é o mais fiel a série original clássica.

Na trama, o capitão Kirk (Chris Pine) está prestes a fazer aniversário e a alcançar a idade que seu pai (Chris Hemmsworth) morreu. Nesse clima de reflexão, a Enterprise é atacada por uma frota alienígena, liderada por Krall (Idris Elba).

Uma história simples, que parece ter saído de um episódio da série de 66. Pra alegria geral da nação nerd.





Apesar dos dois últimos filmes serem muito bons, uma coisa é verdade: a série de tv jamais seguiu a fórmula da caixa de mistério (que J.J Abrams sempre emprega em suas produções: na qual um mistério surge no início da história, e ao longo do tempo os heróis vão desvendando-a). Eram histórias simples, mas permeadas com temas muito a frente de seu tempo. Isso se refletia até mesmo na tripulação da Enterprise. Uma nave que para funcionar dependia do esforço conjunto de todos: brancos, asiáticos, negros, alienígenas, russos, americanos, escoceses. Lembrem-se que tudo isso, em plena guerra fria. Diferente da grande maioria dos sci fi, o universo de Star Trek exibia uma utopia. As missões da Enterprise e de seus tripulantes era justamente resolver o que ameaçava esse estado de paz.

Além de "Star Trek Beyond" preservar a discussão da união dos povos, ainda consegue evoluir o debate de temas que por conta época da série original não seriam possíveis de se discutir. É o caso da homossexualidade assumida de Sulu (John Cho). Além do roteiro deixar claro que todos respeitam o personagem (o que faz com que olhemos pra nossa realidade, e vermos que 2016 é meramente um número), ainda é metalinguístico por inserir no cânone do personagem a sexualidade do ator da série original, George Takei.

Não só de discussões profundas o filme se vale, exibindo todo o pacote de um blockbuster do verão americano. Excelentes efeitos especiais, uma impressionante diversidade de criaturas (com certeza virá uma indicação ao Oscar de maquiagem, repare quão diferente fica o resultado de uma criatura feita por motion capture e outra por próteses), além do design de produção sempre competente (cada uma das naves reflete o estado de espírito da tripulação que navega nela: compare a Enterprise com a nave dos vilões por exemplo).






Impossível deixar de elogiar o elenco, que não apenas exibe toda a excelência vista nos filmes anteriores. como também uma evolução no arco de seus personagens. O mais visível é Kirk (Chris Pine), que passando por uma crise de responsabilidade começa a questionar se conseguiria ser um "pai" decente para a tripulação (seguindo o exemplo de seu pai, que se sacrificou para que o filho nascesse).

A proximidade do roteiro escrito por Simon Pegg (que também interpreta Scotty) com a série clássica, não para apenas nos temas. O filme faz diversas homenagens a tripulação original da Enterprise. Claro que no ano de 2016, o filme ganha uma nova proporção. Não apenas por conta dos 50 anos da série original, mas por conta dos falecimentos de Leonard Nimoy (o Spock original) e de Anton Yelchin.

O único problema que enxergo no filme, é justamente na proximidade com que este tem com um episódio da série clássica. A impressão que fica é que mesmo com os dilemas apresentados pelos vilões (e sempre é bom ver Idris Elba atuando, mesmo que relegado a quilos de maquiagem), a aventura apresentada aqui é só mais uma. Não, "Star Trek Beyond" não é o fim de uma trilogia ou de um arco. Mais uma história de sobrevivência da tripulação da Enterprise, muito bem contada, espirituosa, e sem dúvida alguma leve. Mas, sem tanto brilho.

Nota: 8