sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Crítica: Demônio de Neon (The Neon Demon)


O diretor Nicolas Winding Refn é um fetichista. Não é preciso ser um especialista na carreira do dinarmaquês para perceber isso, basta assistir seus três últimos filmes: "Drive", "Only God Forgives" e "Bronson". Além de todos lidarem com temas parecidos (um que é recorrente por exemplo, a descoberta da própria natureza), ainda exibem traços autorais similares. Como por exemplo, a predileção estética. A grande diferença do diretor para outros, é a maneira com a qual ele sempre torna bela a violência em seus filmes. Chegando até cenas que beiram a barbárie, como em "Drive". Na qual o diretor filma em câmera lenta, uma mulher tendo sua cabeça estourada por um tiro de uma escopeta. A cena é bela? Grotesca? Politicamente incorreta? Machista? Todas as opções corretas.

Ao se analisar o mote de "The Neon Demon", não é preciso pensar muito para saber porque Nicolas escolheu esse para ser seu próximo projeto. Desde o início, "The Neon Demon" se assume como um filme sobre o fetiche no mundo da moda. E com uma conclusão particulamente chocante: quanto mais frágil, vulnerável e com perfil de vítima, mais bela a pessoa é.

A trama acompanha uma jovem chamada Jesse (Elle Fanning), que chega a Los Angeles para se tornar uma modelo. Ela não tem dificuldades para se estabeler em patamares cada vez mais altos da moda, sendo desejada e invejada por todos. O que ela não parece perceber é que desejo pode facilmente se transformar em cobiça e raiva.





Já adianto: não espere um roteiro convencional. Por mais que a sinopse que dei, faça o filme parecer similar a uma penca de longas que o espectador já assistiu, garanto: não é nada do que você está esperando. O mundo de "The Neon Demon" é muito mais sensorial, atmosférico e econômico em palavras do que 90% dos filmes atualmente em circulação. Por diversas vezes, as imagens dizem mais que mil palavras. E sempre com uma similaridade: o espectador jamais se sente confortável e seguro em conferir aqueles frames. Mas ao mesmo tempo, não consegue desviar os olhos na tela. Quase como um voyeur.

Claramente, Nicolas Winding Refn buscou inspiração em uma série de outros diretores que abordaram com precisão o fetiche no cinema. O mais evidente são as referências visuais dos cinemas de Brian De Palma ("Dublê de Corpo", "Vestida Para Matar"), Dario Argento ("Suspiria") e David Lynch ("Twin Peaks: Fire Walk With Me", "Veludo Azul"). Com cenários repletos de luzes caleidoscópicas quentes (mas ao mesmo tempo, com um tom mais sombrio), incessantes e desnorteantes luzes brancas piscando,

Se no visual as referências são claras, nos temas estas se tornam explícitas. O grande tema de "The Neon Demon" já foi abordado tanto pelos três diretores referência, até por Alfred Hitchcock: o que há na vítima que atrai num psicopata? Por diversas vezes, é mostrado que Jesse (Elle Fanning) não é apenas bela. Mas também uma figura frágil, virginal, e como ressalta o estilista da coleção (que quando vai tirar as medidas da modelo, parece que a qualquer segundo irá asfixia-la): intocada por lâminas (uma mera comparação com as modelos que já fizeram cirurgias plásticas, ou um desejo por corta-la?).



Assim, o diretor consegue unir as duas predileções de sua filmografia: quanto mais bela (o) você é, mais terá chance de sofrer violência. Claramente o filme flerta com o tema inúmeras vezes: na 1a cena (na qual, a jovem faz um ensaio na qual está coberta de sangue), na brincadeira numa fala a Jesse sobre o fotógrafo que irá fazer um ensaio com ela ("Did he shoot you?", traduzindo os dois sentidos na frase: ele atirou em você?/ele tirou fotos suas?).  Isso se torna ainda mais evidente, quando o espectador percebe que a maquiadora das modelos (Jena Malone, assustadora) também trabalha maquiando defuntos em um necrotério. Uma bela modelo, ou um cadáver: pra ela não há nenhuma diferença.

Se temática e visualmente o filme é espetacular, confesso que fiquei um pouco desapontado com o elenco. Cada um deles cumpre sua função na narrativa, mas desperdiçar um elenco tão talentoso soa pecaminoso. Além de Elle Fanning, o filme conta com Keanu Reeves, Jena Malone, Christina Hendricks (uma escalação que a 1a vista achei brilhante, visto que sua incrível personagem em "Mad Men" é uma mulher fetichizada por homens, entretando no filme é relegada a uma única cena).

Isso não diminuí o impacto de "The Neon Demon", filme que foi ovacionado e vaiado em Cannes, que certamente merece ambas as reações. Mesmo com seus problemas (e honestamente, ainda não sei como encarar os últimos cinco minutos do filme), é um filme diferenciado por propor uma temática diferente em tempos de filmes tão doces e politicamente corretos. Poder conferir um filme de um diretor talentoso, com uma boa dose de cinismo atualmente se mostra muito raro. Dizer então que gostou de um filme, e ao mesmo tempo se sentiu ultrajado por ele, mais ainda. Tornando o espectador numa das criaturas mais repugnantes de todas: um voyeur.

Nota: 8