sábado, 17 de setembro de 2016

Crítica: Bruxa de Blair (2016)



Poucas vezes o cinema testemunhou um fenômeno tão influente quanto "A Bruxa de Blair". Filmado de maneira independente, o filme popularizou o gênero found footage (sem ele, não haveria "Atividade Paranormal", "O Último Exorcismo", "Jeruzalém"), conseguiu enganar grande parte dos espectadores de 1999 (muitos acreditaram que as filmagens eram verídicas) e ainda faturou muito dinheiro. Assim, não só uma penca de filmes tentaram seguir a fórmula de sucesso mas o próprio estúdio tentou lucrar mais com seu produto. Lançando posteriormente o enfadonho "Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras" (que sem exagero, é um dos piores filmes que vi na minha vida). Além de rechaçado pela crítica, os fãs não gostaram e o longa caiu no esquecimento. Como a mitologia da bruxa da cidade de Burkittsville.

Em julho 2016, uma produção originalmente divulgada como "The Woods" lançou seu primeiro trailer e surpreendeu a todos: era na realidade uma continuação/reboot da franquia da bruxa. Além da surpresa por trazer a tona o filme de 1999, a produção ainda acertou com o timing de divulgação: menos de dois meses antes de sua estréia. Surpreendendo e gerando muita curiosidade nos espectadores. Por mais que não tenha a efervescência do boca-a-boca do filme original, este novo exemplar conseguiu gerar barulho.

A trama não é lá muito original. O irmão caçula de Heather (a documentarista do original que desapareceu) encontra uma evidência que pode indicar que ela está viva, assim ele convoca três amigos e mais dois conhecedores da região para entrar na floresta e quem sabe encontrar pistas sobre o paradeiro da desaparecida. Não vai demorar para que eles percebam que foi uma péssima ideia.



Como vocês podem ver, não é como se a história exalasse novidade. Por mais que se trate de uma continuação, segue a linha de filmes como "Star Wars VII-O Despertar da Força" e "Jurassic World": a história anterior não é ignorada, mas tematicamente os elementos narrativos são os mesmos (dizer que é uma espécie de remake não é errado). O que gera o principal problema do filme para quem é fã do longa original: por mais que insira novos elementos à mitologia da bruxa, que tenha muito mais orçamento, até com atores mais carismáticos, é o mesmo filme com esteróides. O que suscita a eterna pergunta que acompanha os blockbuters mais recentes: é realmente necessário?

Outro sério problema encontra-se em certas decisões feitas pelos personagens. Não, não é nada estúpido como os atos dos personagens de "Prometheus". Mas ainda assim, quase faz o espectador gritar: por quê?? Basta observar a cena na qual uma certa personagem muito ferida e doente resolve SUBIR NUMA ÁRVORE para pegar um drone. Detalhe: há pouco ela estava fugindo de alguma coisa, mas parece que ela tem memória de cachorro.

Apesar desses problemas, é preciso dizer que "Bruxa de Blair" é um longa eficiente. A começar pelo elenco: apesar de por vezes os personagens agirem como se tivessem cérebros de hamsters, seus atores são extremamente competentes e carismáticos. O espectador compreende as motivações deles , sem que o filme dê espaço para diálogos expositórios e estúpidos (note por exemplo como o filme diz que certo personagem é um canalha: pela decoração de sua casa e pela música que ouve no carro, além de ser uma bela alfinetada aos fãs neuróticos do filme original).



E por mais que utilize (por vezes de maneira gratuita) os famigerados jump scares, o filme consegue assustar. É notável como que a insinuação de uma imagem consegue gerar muito mais medo no espectador, do que se o mesmo tivesse visto-a por inteiro e com plena definição (uma regra que é usada faz tempo no cinema, basta ver "Tubarão"). Além de trazer a cabeça obras marcantes do terror (mais especificamente, H.P Lovecraft. Que escrevia sobre criaturas com formas indizíveis e que levavam a loucura quem as visse), também consegue gerar mais perguntas do que respostas. O que para um filme que insere novos elementos na mitologia é um grande mérito.

Como já disse há pouco, o roteiro exibe certas arestas. Como é o caso da falta de utilidade da tecnologia empregada pelos personagens na sua busca pela floresta. Com exceção das câmeras Go Pro, todos os outros equipamentos são descartados sem contribuir para o suspense e o horror. Basta pensar nas possibilidades de uma cena de terror que uma câmera noturna e um drone poderiam oferecer. Mas infelizmente, parece que os envolvidos com a história (o diretor Adam Wingard e o roteirista Simon Barret, dupla que trabalhou junto em "Você é o Próximo") não exergaram o potencial.

O novo "Bruxa de Blair" cria atmosfera de tensão, tem bons sustos e bons atores, insere fascinantes elementos novos a mitologia da franquia (veja por exemplo a regra falada ao final do filme). Mas não consegue fazer escapar o pensamento que surge na cabeça do espectador: já vi esse filme. E era muito mais elegante, com um roteiro mais polido e menos apelativo.

Nota: 7,5