terça-feira, 6 de setembro de 2016

Crítica: Aquarius


No mínimo o filme brasileiro mais comentado do ano, "Aquarius" estréia em meio a inúmeros distúrbios políticos. O que poderia resultar num filme datado, como o caso do filme "Os Boina Verdes" (que apresentava uma versão americana da Guerra do Vietnã: motivos nobres, salvadores da pátria e inúmeras outras adições inverídicas). Tornando-se um filme feito para aquele momento e sem ir além da casca política, descartável se visto em outro período.

Felizmente, "Aquarius" é um filme que entrega muito além da sua repercussão. Um longa sensível, que fala sobre as pequenas coisas que aparentemente insignificantes, trazem um significado imenso. Um dos temas que foram abordados no filme anterior de Kleber Mendonça Filho, o excelente "O Som ao Redor". Ganhando mais espaço aqui, discutindo o tema a partir da figura de Clara, interpretada por Sônia Braga.

O filme fala sobre um período bastante específico na vida de Clara: ela é a única moradora do condomínio Aquarius, e está sendo pressionada a vender seu apartamento pela construtora que comprou o imóvel. Com isso, ela começa a refletir sobre os momentos que viveu naquele lugar e do que perderia em vendê-lo.


Inquestionavelmente o grande destaque do filme é a interpretação de Sônia Braga. A atriz não apenas faz uma interpretação extremamente competente (não estranharia uma indicação ao Oscar), mas ainda consegue realizar um feito pouco comum no meio: sua personagem parece alguém real. Uma pessoa que você encontra na igreja, que é prima de um conhecido, uma vizinha. Outro aspecto fascinante da personagem, é sua predileção pelo palpável. Como ela afirma no início, gosta de Mp3. Mas um vinil encontrado num sebo, com marcas de afeto de outra pessoa exibe muito mais valor.

Isso se reflete com relação ao apego de Clara pelo apartamento. O que muitas pessoas não percebem, é que apesar de sim, ser uma colecionadora de vinis, discos, fitas, quadros e livros, o que Clara realmente coleciona são momentos e memórias. E tendo como grande guardador, o seu apartamento. Como reforçado ao início, quando somos jogados numa comemoração em família de uma tia já falecida de Clara. O cômodo é o mesmo, as pessoas já se foram, mas as memórias vivem. Assim como Clara, o que torna cada vez mais explícita a relação de Clara com o apartamento: se mudar de lá, seria como jogar no lixo tudo o que já sentiu. Como ela diz: "Sou um navio dentro de uma garrafa".

O espectador ainda pode conferir inúmeros outros aspectos da vida de Clara, que jamais são de fato comentados pelos personagens, mas sugeridos de maneira discreta. É o caso do câncer que a personagem sobreviveu (repare como ela faz questão de deixar seus cabelos soltos, um contraste com seu cabelo curtinho na época de recuperação), a relação com os filhos (a dedicatória no livro), além da culpa por ter tanto e sua empregada tão pouco (o silêncio e o constrangimento quando a empregada menciona seu filho falecido num acidente, uma fatalidade real e séria, num momento no qual Clara e sua família reclamavam de uma adversidade trivial da vida como se fosse o fim do mundo).



Além do excelente estudo de personagem, "Aquarius" ainda exibe uma direção excepcional de Kleber Mendonça Filho. Sempre sabendo como ressaltar a atmosfera que a cena precisa. Basta comparar o calor e ternura na festa em família que abre o filme, com a tensão e o estranhamento presentes na cena dos confrontos de Clara com o engenheiro (repare como até mesmo a saída de cada um em seu respectivo carro, sugere que os dois irão colidir) e do pesadelo (herança direta dos curtas de terror do diretor influenciados por John Carpenter: "Vinil Verde" e "A Menina do Algodão").

Mesmo com tantos méritos, "Aquarius" ainda apresenta momentos irregulares. Apesar de serem reforços para fazer com que o espectador sinta a revolta de Clara, a cena da festa no andar de cima soa mais gratuita do que benéfica para a narrativa. Além é claro de certos personagens que surgem quase com "Deus Ex Machina" escritos nas suas testas (personagens que só servem para executar uma função narrativa, e somem. Falo claro, do dono do jornal e de sua cena do almoço).

Isso não diminui o impacto de "Aquarius", uma bela surpresa no cinema de 2016. Que cativa pela aparente simplicidade de seu roteiro, e marca pelos inúmeros subtextos implícitos na narrativa. Basta reparar em como o filme mostra (mas não fala, confiando na capacidade de percepção do espectador) a tristeza da empregada por conta da morte de seu filho. Não é explícito ou didático, mas o espectador sente. Só por fugir da obviedade e tocar em tantos temas fascinantes, "Aquarius" já merece ser conferido. E pra sorte do espectador, possui muito mais valor do que aparenta. Como um vinil encontrado num sebo.

Nota: 8,5
Ps: procure a trilha sonora no spotify