sábado, 27 de agosto de 2016

Crítica: Café Society


É quase milagroso o fato de um cineasta conceituado como Woody Allen conseguir lançar um novo filme a cada ano, não apenas pelos habituais intensos ritmos de produção hollywoodianos (que cada vez mais, investem muito tempo em pós produções) mas por conta da idade avançada do diretor (quase impossível pensar num diretor com a metade da sua idade, que consiga realizar um novo longa por ano). Assim, se por um lado é sempre fascinante poder conferir um novo filme dele por ano, também é triste constatar que por vezes quantidade não indica qualidade.

É a impressão que fica ao final de "Café Society", filme que exibe uma verdadeira paixão pela nostalgia (como outros trabalhos de Allen, "A Era do Radio", "Meia Noite em Paris", "Magia ao Luar") e que parece tão focado em funcionar como uma máquina do tempo para os anos 30 (investindo pesado em design de produção, trilha sonora, fotografia), que deixa de lado marcas características de Allen, como o roteiro.

Assim, se por um lado o espectador assiste a uma das mais visualmente fascinantes obras do diretor, por outro, poucas vezes se viu um Woody Allen tão preguiçoso em desenvolver relações afetivas entre seus personagens. Aqui conta-se a história do jovem Bobby (Jesse Eisenberg, sendo o emulador de Allen da vez) que chega a Los Angeles nos anos 30. Lá, ele é recebido pelo seu tio (Steve Carell), um rico produtor de Hollywood, que lhe concede bicos para começar a vida na cidade. Bobby conhece e se encanta pela bela Vonnie (Kristen Stewart). O que ele não sabe, é que a moça é amante de seu tio.



Com um elenco tão bom, e uma trama tão característica do restante da filmografia do diretor, parecia impossível um fracasso do filme. Mas infelizmente é o que ocorre, como pode se ver no grande número de cenas dispensáveis para narrativa principal. Tome por exemplo, a cena na qual Bobby recebe uma prostituta no seu quarto de hotel. É uma cena Woody Allen, sem dúvida alguma (o humor, o desconforto diante da mecanização do romance, a dose de misoginia). Mas não tem qualquer função narrativa.

Pior ainda, é perceber a preguiça do diretor em realizar o que fazia de melhor: desenvolver personagens a partir de diálogos/conversas (algo que influenciou cineastas como Tarantino e até Richard Linklater). Ao invés de estabelecer diálogos nos quais fique claro pro espectador as motivações dos personagens, e que estes estão se conhecendo e se apaixonando, o diretor opta por uma (inconstante) narração com dizeres como "Então, personagens X e Y foram se conhecendo e por fim se apaixonaram". Não apenas pecando numa única cena, mas em TODA cena na qual um par de personagens passa por situação parecida. Isso é tão atípico do diretor, que se aplicado a sua obra-prima "Annie Hall", reduziria toda a história a meia dúzia de frases, afinal: é um filme sobre um casal se conhecendo e se apaixonando. É quase como se Allen achasse que mostrar esses detalhes fosse dispensável.

Outro sério problema do roteiro, encontra-se no grande número de tramas desnecessárias. Não me entendam mal: ri muito em todas as cenas do gângster interpretado por Corey Stoll. Porém, todo o arco do personagem não tem qualquer ligação ou relevância à desventura amorosa dos protagonistas. Ou então, a mistura de técnicas narrativas que geram uma verdadeira salada. Além da narração inconstante (provida pelo próprio Woody Allen), ainda há a utilização de uma (também desnecessária) trama de uma personagem que manda cartas para Bobby. Não há qualquer relevância pra trama, ou mesmo um arco. Simplesmente está ali. Sequer tendo um fechamento.



Apesar desses problemas, é inegável que "Café Society" exibe uma das fotografias mais primorosas da filmografia de Woody Allen. Além de estabelecer a diferença de tom entre Los Angeles e New York (a primeira sempre filmada com tons dourados, como se tudo ali reluzisse a ouro e a segunda filmada com cores frias, como se lá fosse um lugar mais real e menos utópico), a fotografia ainda contribui para a atmosfera de romance entre os personagens. Tome a cena do jantar na qual a luz do quarto de hotel é subitamente interrompida: o conjunto da luz de velas, com os espectros dos personagens, e o tom dourado da fotografia, tornam aquele talvez o ambiente mais romântico do cinema de 2016.

E é uma pena dizer que essa fotografia de Vittorio Storaro aliada a um roteiro melhor polido do diretor (se ao menos os problemas fossem apenas de gordura narrativa: além de tudo, os arcos dos personagens são absolutamente inconstantes), poderia render num dos melhores trabalhos do diretor. Mas infelizmente não é o que ocorre, gerando um filme que assemelha-se a uma vitrola vazia: certamente é bela, e tem potencial para criar os mais belos e profundos sentimentos. Mas pra isso, precisa-se inserir um disco, para obter música. E é isso que falta a "Café Society": alma.

Nota: 6