quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Crítica: Águas Rasas (The Shallows)



O subgênero do terror "animais enfurecidos" não é novidade no cinema. Herdeiro direto dos filmes de monstro, os seus exemplares sempre são uma grande metáfora para a luta da força humana contra a força da natureza. Desse subgênero, nasceu outro: o filme de tubarão. Graças ao sucesso do filme de Spielberg de 75, dezenas de longas-metragem com os animais surgiram (chegando até na paródia, em "Sharknado").

Dirigido por Jaume Collet-Serra, "Águas Rasas" tem plena noção de quão desgastado está o subgênero a que pertence. Portanto, entrega uma série de diferenciais: uma protagonista verossímil, uma belíssima fotografia, um "monstro" convincente, e boas cenas de tensão (além de uma boa dose de gore). Apesar desses méritos, o filme não consegue escapar do predador máximo do cinema: a falta de polidez de roteiro.

Não que eu precise elaborar muito pra falar da trama (não é lá muito complexa), mas pra quem não sabe: Nancy (Blake Lively, fazendo o estereótipo que permeou sua carreira: a surfista californiana) vai surfar numa praia isolada no México, pois foi lá que sua falecida mãe surfou quando estava grávida de si. Portanto, a jovem resolve prestar uma homenagem nadando pelas águas daquele cenário paradisíaco. O que ela não contava, é que um tubarão branco fêmea estivesse rondando a área.




A produção tem um mérito inquestionável: todas as cenas de ataque do tubarão são irretocáveis. A abordagem do diretor espanhol em filmar a criatura como uma força da natureza (e sempre seguindo a abordagem de Spielberg em "Tubarão", influência de Hitchcock: jamais mostrar demais a criatura) cria tensão e nervosismo no espectador, além de deixa-lo ansioso pro próximo ataque. Além da opção de ter escolhido que a criatura fosse uma fêmea: não só as tubarões fêmeas são maiores (e mais agressivas, o que acaba por deixa-las com cicatrizes) que os machos, mas ainda traça um duelo interessante (quem é a verdadeira fêmea alfa daquele paraíso).

Outro aspecto positivo do filme, é não tornar a personagem de Blake Lively um objeto (você consegue se lembrar de algum filme com jovens se divertindo e algo dando errado, que mostrava personagens tridimensionais, e minimamente simpáticos?). Nas mãos de um diretor mais apelativo (cof, cof, Michael Bay), a abordagem seguida certamente abusaria de ângulos expositivos nas belas formas da atriz (algo que ocorreu recentemente com Margot Robbie, em "Esquadrão Suicida"). Tornando-a narrativamente, nada menos que mais comida pro tubarão. Felizmente, não é o que ocorre aqui. A personagem não só possui um background interessante, como também passa fácil no teste de bechdel (ela não depende de homem nenhum).

Infelizmente, se nesses aspectos o filme é recheado de méritos, por outros vê-se uma verdadeira bagunça. Por culpa de dois elementos: o roteiro e a direção.

Sim, eu elogiei a direção há pouco. Mas veja bem: apenas na abordagem do tubarão e de seus ataques. Pois no resto, o diretor parece ter optado por todas as técnicas de filmagem de clipes do Felipe Dylon. A comparação que faço não se deve apenas pelo cenário, mas também por um punhado de cenas. Repare o momento em que a protagonista surfa pela primeira vez, e a montagem com música que acompanha. É quase como se o espectador tivesse esbarrado no controle da televisão, e parado no multishow. Pior ainda constatar que em certo momento, o filme tenta emular uma espécie de "127 Horas". Lembrando que o diretor deste último, era Danny Boyle (cheio de talento, realizador de algumas obras-primas, como "Trainspotting"). E que o realizador de "Águas Rasas" não exibe 10% do talento do diretor irlandês.


E o roteiro não fica muito atrás, visto que utiliza TODOS os clichês do subgênero (cheguei a temer que o animal fosse explodir com um barril de gás como em "Tubarão"). Momento de dificuldade no qual a jovem vai ter que ir pra uma ilhota? Ferimento que faria ela morrer em minutos mas que ela sobrevive bravamente sem pegar uma infecção? Várias vítimas que tentam ajuda-la e são mortas no caminho, e a protagonista sequer tenta mudar sua abordagem após a morte do 1o que tentou ajuda-la? Tudo aqui, num belo sanduíche de clichês.

Mas nada é pior do que perceber que após construir uma personagem interessante, forte e com um background bacana, os seus conflitos internos (o trauma do falecimento de sua mãe, o abandôno da faculdade de medicina), nada disso retorna. Não há o fechamento de um arco, uma metáfora interessante, nada. Simplesmente, colocaram ali pra encher linguiça.

Apesar disso, "Águas Rasas" não é um filme sofrível. Dentro de um gênero recheado de filmes que de tão ruins, fazem o espectador querer ser uma das vítimas do tubarão, "Águas Rasas" é uma grata surpresa. Não que isso seja muita coisa.

Nota: 5