domingo, 24 de julho de 2016

Crítica: A Lenda de Tarzan



O roteiro de "A Lenda de Tarzan" não é livre de arestas, mas inegavelmente confia muito mais no espectador do que a maioria dos blockbusters por um simples motivo: o longa não exibe uma introdução contando a história de Tarzan. Jamais explicando o motivo pelo qual o protagonista (Alexander Skarsgard) e sua esposa, Jane (Margot Robbie), deixaram a selva para retornar para a Inglaterra e por lá ficar ao longo de 8 anos. O roteiro tem plena consciência que o espectador conhece a história de Tarzan (nem que tenha sido pelo desenho da Disney, ou pela paródia "George-Rei da Floresta), e reconhece o status de ícone da cultura pop do personagem (que é quase o padrinho dos super-heróis, visto que sua origem vem de histórias pulp).

Esta ausência de didatismo e inserção de contexto é um dos trunfos do filme de David Yates (que comandou os últimos 4 filmes da saga Harry Potter), mas aí também que reside o seu maior problema. Pros que não sabem, o filme começa com o lorde John Clayton Greystoke III/Tarzan (Alexander Skarsdgard) residindo em sua propriedade na Inglaterra, tendo deixado a selva há 8 anos. Até que um jornalista americano (Samuel L Jackson), relata um convite feito pelo Rei da Bélgica e de seu comandante (Christoph Waltz) para que o filho favorito da Africa os acompanhem numa expedição pelo Congo. Mas chegando por lá, Tarzan verá que as intenções dos belgas são pouco nobres.

É preciso louvar a produção por investir tanto na ambientação, da Londres acinzentada de 1890 até o Congo pintado com cores fortes e acolhedoras, tudo contribuindo para que o espectador sinta-se presente dentro do ambiente no qual a trama decorre. Isso reflete-se até mesmo nos figurinos, perceba como o personagem título inicia o filme com roupas apertadas, longas e pesadas. E conforme o filme avança, suas vestes vão tornando-se cada vez mais soltas, leves e (afinal, se trata de Tarzan) mínimas.


Outro aspecto que merece atenção do espectador, são os efeitos especiais. É impressionante o grau de realismo de cada um dos animais, e a variedade de detalhes que retiram a descrença do espectador (a maneira com a qual o elefante reage a carinho, o olhar da leoa). Mas os destaques são sem dúvida alguma, os gorilas Mangani (que como Tarzan diz, são muito mais hostis que a maioria dos gorilas). Sem nada a dever aos macacos vistos na franquia recente "Planeta dos Macacos", jamais questionamos a presença dos animais em cena. Mesmo quando interagem com um grande número de humanos (o que geralmente escancara o cgi).

Assim como na franquia Harry Potter, o diretor David Yates investe em cenas de ação que começam pequenas até culminarem num clímax completamente despirocado. Assim, se no início as cenas constituem-se apenas de combates físicos entre Tarzan e soldados belgas, não é surpresa que ao final entre os (diversos) elementos presentes incluam-se também: gnus, gorilas, leões, elefantes, antílopes, etc. Nas mãos de um diretor menos experiente, esse tipo de cena perderia toda a imponência construída até então. Chegando a beirar a paródia (como visto em "Piratas do Caribe"). Além da ação ser bem construída, outro aspecto que afasta o filme da comicidade é o tom sério investido. O longa tem plena noção do absurdo de sua história (tendo este choque personificado no personagem de Samuel L Jackson, sempre sem palavras para os atos heróicos de Tarzan), mas sabe vender suas motivações de maneira convincente.

O ponto mais destoante do filme, infelizmente encontra-se nos personagens. Entendam: o elenco do filme é ótimo. Mas também, como reclamaria de um elenco composto de Alexander Skarsgard (que mesmo exibindo um físico impressionante, não protagoniza cenas ridículas que explorem seu físico no intuito de aumentar a audiência do filme, como quase todas as franquias adolescentes de hoje), Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L Jackson, Jim Sturgess? O problema é que o roteiro não tenta de maneira alguma desenvolver os personagens que apresenta. Tomando de exemplo o personagem de Christoph Waltz: é um militar que usa roupas impecavelmente limpas, que utiliza uma enforcadeira que lembra um rosário, e que quer completar sua missão pro rei da Bélgica. E é isso...
Não há qualquer tentativa de adicionar um passado ao personagem, motivações além da superfície. O personagem é aquilo que aparenta ser, e é isso aí. Até mesmo em "Besouro Verde" o personagem interpretado pelo austríaco exibia mais nuances.





Curiosamente, pensei que o filme não fosse abordar o protagonista dessa maneira unidimensional. Pois no começo da narrativa, o personagem se mostra relutante em demonstrar qualquer afeto pela selva ou pelas suas experiências vividas entre os animais (chegando a intervir quando alguém o chama de Tarzan: querem que passem o chamar de John Clayton III, seu nome de batismo). Pensei que o filme teria uma discussão, sobre Tarzan buscando entender qual o seu verdadeiro estado de natureza, com alguma espécie de conflito. Mas não, quando chega ao Congo ele abandona toda relutância pelas suas origens africanas e embarca de cabeça. Sério, roteiro?? O único personagem que exibe algo além, é o jornalista de Samuel L Jackson. Que mais pra frente, revela ter lutado na Guerra Civil americana, e que se arrependende de ter começado a exibir predileção por participar de combates armados (tendo participado no massacre de uma aldeia indígena).

Por mais que tenha suas limitações, "A Lenda de Tarzan" é um filme corajoso por trazer aos cinemas em pleno 2016 um herói clássico da literatura há muito esquecido (lembrem-se que a última tentativa de trazer um herói pulp pros cinemas, foi "John Carter" e deu no que deu), dentro de um gênero que também havia sido deixado de lado (tal como o gênero de filmes de pirata, as chamadas "jungle adventures" tiveram seu ápice nas décadas de 30, 40 e 50. Mas foram abandonadas no cinema do século xxi).

Exibindo boas cenas de ação, uma fotografia exemplar, efeitos especiais extremamente convincentes, um elenco competente (mas que poderia muito mais se o roteiro desenvolvesse seus personagens melhor), e um roteiro redondo, "A Lenda de Tarzan" cumpre seu objetivo de entregar uma aventura pulp. Mas que poderia ter investido mais nos seus personagens, e quem sabe ter se tornado memorável.

Nota: 7,0