segunda-feira, 25 de julho de 2016

Crítica: Batman-A Piada Mortal


Todo fã de quadrinhos sabe a importância da graphic novel protagonizada por Batman, A Piada Mortal. Escrita por Alan Moore, a história explora a relação de loucura entre Batman e Coringa. Sobre quão rotineiros e particulares são seus combates, quão próximos os dois são, e até onde chegarão desta forma. Tudo isso envolto numa trama chocante: o Coringa invade a casa do Comissário Gordon, e atira na sua filha, Barbara Gordon/Batgirl. Além aleija-la, o Palhaço do Crime a despe e tira fotos da sinistra cena, além de sequestrar o comissário. Assim, o Cavaleiro das Trevas terá que descobrir os propósitos de seu arquiinimigo.

Após anunciado que a história seria adaptada para uma animação lançada diretamente para home video (e com censura para 18 anos, ou seja: todo terror psicológico, violência e brutalidade do material original estariam presentes), os fãs urraram de alegria. O barulho foi tão grande, que a Warner resolveu fazer um evento especial: o filme seria exibido nas telas do cinema, exclusivamente no dia 25 de julho. Não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo (com a mesma restrição: apenas na noite do dia 25). No Brasil não foi diferente, as redes Cinemark também o exibirão (se sua cidade conta com um cinema da rede, tenha certeza que também terás chance de conferir a animação).

Após assistir a animação, pude tirar algumas conclusões. Como fã do personagem e da hq original, posso garantir que os fãs ficarão felizes em conferir o desenho. Mas também posso dizer que o roteiro tem suas arestas.



Se por um lado, a animação é bastante fiel aos quadrinhos, por outro toma inúmeras liberdades. Explico: cada página do quadrinho de Alan Moore e Brian Bolland está intacto no filme. O roteiro escrito por Brian Azzarello foi eficaz em fazer com que quem já tenha lido a obra, sinta-se relendo o quadrinho. Contando com um número abismal de elementos visuais da graphic novel: certos personagens que apareciam no canto da página (veja a discreta e elegante aparição de Duas Caras no asilo Arkham), o camarão que aparece numa janta na sequência de origem do Coringa, as transições de cena, entre tantos outros (esse é um daqueles filmes para se pausar e comparar com as páginas do quadrinho) tudo é respeitado de maneira belíssima.

Porém, o roteiro faz uma grande adição. Os primeiros vinte minutos de projeção inserem uma aventura da Batgirl, na qual a personagem persegue um sociopata que adquire uma obsessão por ela. A história em si não é ruim, e é interessante ver as novas relações que a inserção faz da maneira com a qual Batgirl e Batman colaboram um com o outro, e explorar em novos níveis a relação de mentor e aprendiz.

O problema é que estes vinte minutos, analisados com o resto da narrativa, parecem extremamente deslocados. Além de não adicionar nada a trama principal,  também não exibe conexão alguma com todo o mote do Coringa. Tudo bem, entendo que o filme queria dar mais espaço para a grande vítima da história. O que pode se tirar dali, é a discussão que Batgirl é uma heroína vivendo num mundo de homens (Batman a menospreza e dá ordens a ela, o sobrinho do mafioso se torna obcecado por ela, e até o capanga deste pede a uma prostituta para que use uma máscara parecida com a da heroína). O que até tem alguma relação com "A Piada Mortal", mas não a principal. É uma razão muito frágil para justificar a inserção, que ainda peca por conter uma narração em off da Batgirl que jamais retorna.



Apesar da aresta nos vinte primeiros minutos, ao retomar a narrativa dos quadrinhos o filme fará brilhar os olhos de todo fã do Batman. Todo o jogo psicológico, a demência do Coringa, e a velha constatação da relação entre os dois rivais (são dois lados da mesma moeda) estão presentes. Além de não economizar no sadismo, violência, loucura presentes na obra original. Não espere a abordagem dos desenhos "Liga da Justiça" (que são excelentes), os animadores incluíram sangue, sexo e delírios aos montes.

Se o resgate à graphic novel é o maior trunfo da animação, a cereja do bolo encontra-se nos dubladores de Batman e Coringa. Tendo começado a dublar os seus personagens em 92 (com a ótima série, "Batman: The Animated Series"), Kevin Conroy e Mark Hamill (o eterno Luke Skywalker) conhecem a fundo os dois. Não é como se estivéssemos ouvindo vozes de dubladores, mas sim as verdadeiras vozes dos personagens. Tanto das animações, quanto dos quadrinhos.

Confesso, gostei do resultado de "A Piada Mortal". Todos os elementos do quadrinho estão presentes, a rivalidade entre Batman e Coringa está transposta para a tela como em poucos filmes, a animação é rica em detalhes e não subestima seu público. Uma pena que tenham julgado necessária a inserção do prólogo, visto que analisando-se todo o filme, é gordura narrativa. O que não tira o mérito da animação, que felizmente apresentará a obra original pra uma nova série de leitores. O que convenhamos, é um grande mérito.

Nota: 8,0