quarta-feira, 22 de junho de 2016

Crítica: Invocação do Mal 2




Como todos os anos, o gênero cinematográfico do terror traz aos espectadores uma grande leva de exemplares. A grande maioria sofríveis, capazes de assustar mais pela sua mediocridade do que pela sua história. Este ano não foi diferente, afinal quem não se lembra do infame "Boneco do Mal" (que ainda tentava atrair os fãs da boneca Annabelle). Mas felizmente, 2016 brindou o espectador com dois exemplares que valem a pena ser mencionados. O excelente "A Bruxa", e "Invocação do Mal 2", continuação do filme de 2013 dirigida por James Wan (assim como no 1o filme). Longa-metragem que não tem a força de apavorar como o seu anterior, mas que exibe muita criatividade e sustos bem construídos.

A trama acompanha o casal Lorraine e Ed Warren (Vera Farmiga e Patrick Wilson), indo a Inglaterra investigar o caso sobrenatural de Enfield. No qual, a jovem Janet (Madison Wolfe) se vê atormentada por um espírito que em vida residia na sua casa. Porém, logo os demonólogos perceberão que há a influência de algo muito mais maligno na casa.

Importante ressaltar, que apesar de amplamente divulgado que como o 1o filme, "Invocação do Mal 2" é baseado em fatos reais, a licença poética foi bem maior. No caso real, houveram manifestações paranormais com relação a família. Porém, não se chegou a nenhuma conclusão. Inclusive, muitos especialistas afirmaram que a menina tinha dom de ventriloquismo. Enquanto outros, acreditam que a casa realmente foi afligida por um espírito vingativo que morava ali em vida.


Apesar das diversas liberdades tomadas pelo roteiro com o caso real, "Invocação do Mal 2" é um filme extremamente eficiente na sua proposta. A começar pela direção de arte, que ressalta toda atmosfera de incerteza e medo necessários para riscar a faísca de tensão que fará o espectador sentir-se apreensivo. Note como a casa da família Hodgson é recheada de vazamentos, mofo, rachaduras. Além de toda palheta de cores acinzentadas que compõe o ambiente, quase como se a residência respirasse luto. O que só ressalta toda a questão pessoal por trás dos indivíduos ali presentes, todos vítimas do abandono do patriarca da família. Deixando para o relento (e sem pegar a pensão), uma mãe solteira e seus quatro filhos, em plenos anos 70 (tal como a mãe de "O Exorcista", a mãe da família Hodgson também é vista com maus olhos por ser mãe solteira). 

Some isso ao sombrio período da Inglaterra comandada por Margaret Thatcher, e têm-se um ambiente familiar cheio de ecos, sofrimento e incertezas sobre o dia de amanhã. Um cenário perfeito para o aparecimento de uma assombração. O filme faz como os melhores do gênero: utiliza a assombração como metáfora social (note como a presença dos móveis do espírito, se devem por conta de uma atitude do ex marido).

James Wan entrega uma direção impecável (algo já comprovado em seus outros trabalhos do gênero, como os dois filmes "Sobrenatural" e o 1o "Jogos Mortais"), sempre aproveitando os ambientes escuros para insinuar o esconderijo de algo profano (nunca optando pelo mais óbvio). Além de dedicar todo o tempo necessário para alcançar o susto no espectador, sempre utilizando elementos que a 1a vista parecem tolos e infantis (meu favorito: a caixinha de música do Crooked Man).

Além de toda paciência para a concepção de tensão, o filme ainda cria espectros extremamente interessantes. Poucos filmes tem a capacidade de criar monstros que além de visualmente interessantes, exibem uma mitologia intrigante e amedrontadora. Mais escassos ainda, são os filmes que ao apresentar o monstro fazem com que a platéia sinta duas sensações antagônicas: não querer ver e temer o que está em tela, e ao mesmo temponão conseguir parar de olhar a criatura, tamanho fascínio e pavor sentidos. Em "Invocação do Mal 2" isto se torna ainda melhor, pois as criaturas nunca são mostradas de maneira gratuita. Assim, muito do pavor se deve por conta das insinuações visuais (a cena da sombra e da pintura da Freira Negra), e da imaginação do espectador.




O filme tem suas arestas, o principal deles se encontra no conflito final. Que realmente, é um tanto apressado e parece ter sido executado por conta da fórmula de filmes com temática similar (não, a cena não é mal executada. Porém após tanta criatividade mostrada em tela, ver uma cena que é similar a tantas que vemos em produções do gênero, decepciona um pouco). Porém é um problema menor, num filme recheado de sequências fantásticas.

Apesar de ter mencionado a cena da sombra da Freira Negra, as sequências que mais me transportaram pra uma atmosfera de medo são as que envolvem a família Hogdson. O ambiente doméstico (apesar de se passar nos anos 70, os quartos foram compostos de maneira que lembrem os de nossas próprias casas em pleno século 21), somados a maneira com a qual os vínculos familiares foram introduzidos, trazem a tensão a níveis extraordinários.

Não nego, gostei muito de "Invocação do Mal 2" (apesar de preferir o 1o). Um filme de terror composto de um elenco competente, uma direção primorosa (note como a câmera passeia pela casa, quase como um fantasma), sustos bem construídos, e criaturas fascinantes, merece ser visto no cinema. Como fã do terror, é maravilhoso ver como o gênero está sendo bem representado em 2016 (pode-se aliar o magnífico "A Bruxa"). E como espectador cinematográfico, gratificante estar numa sessão na qual as pessoas gritam de medo. Poder presenciar isso, é único.


Nota: 9,0