terça-feira, 24 de maio de 2016

Crítica: Capitão América- Guerra Civil





Seguindo o ambicioso projeto da Marvel Studios de lançar dois filmes por ano de seu universo cinematográfico, "Capitão América-Guerra Civil" apresenta todos os ingredientes que consolidaram a franquia cinematográfica: atores competentes, bons roteiros, boa ação, uma boa dose de humor para que os filmes não fiquem sérios demais. Essas palavras são a epítome do filme. Bem feito, mas igualmente estéril em termos de conteúdo.

A trama mostra Capitão América (Chris Evans), tendo que partir ao encontro de seu antigo parceiro, Bucky/Winter Soldier (Sebastian Stan), após este ser acusado de ser autor de um atentado terrorista. Enquanto o herói tenta entender a situação e proteger o amigo acusado, Homem de Ferro (Robert Downey Jr) se prontifica para agir em nome do governo e caçar Bucky. Logo, os heróis terão que se organizar e escolher seus lados, no eminente confronto entre Capitão América e Homem de Ferro.

Primeiramente, é preciso dizer que apesar do título e os trailers darem a entender que o filme seguirá a linha narrativa do quadrinho de origem, digo que não é bem isso que acontece. Existe o tratado de Sarkovia como na obra de Mark Millar, mas as motivações para sua criação são paradoxalmente opostas ás do hq (além do que, no filme deixam isso de lado lá pela metade da projeção). O que resta da obra original, é o confronto dos dois líderes dos Vingadores. Uma medida que a Marvel já havia realizado em "A Era de Ultron", na qual apenas o título da hq foi preservado.




Com relação a construção da ação, digo sem hesitar: os diretores Joe e Anthony Russo acertaram em cheio. Ver o time Capitão América (Capitão, Falcão, Feiticeira Escarlate, Homem-Formiga, Winter Soldier, Gavião Arqueiro) partir pra cima do time Homem de Ferro (Iron Man, Máquina de Combate, Visão, Pantera Negra , Homem Aranha, Viúva Negra) na cena do aeroporto, é absolutamente empolgante. Assim como em "Capitão América-Soldado Invernal", os diretores demonstram saber construir cenas de ação elaboradas e criativas, capazes de utilizar as habilidades de cada herói de maneira que nenhum fique sobrando. É como se pegassem as brigas que cada fã criava quando criança com seus bonecos (digo, action figures), e transpusesse para a tela. Absolutamente nostálgico, e empolgante.

Porém, devo dizer que se a ação funciona maravilhosamente bem na cena do aeroporto, esta falha miseravelmente em outras cenas em que é utilizada computação gráfica em abundância. Como fica bastante evidente na perseguição do túnel entre Capitão América, Winter Soldier e Pantera Negra. Os efeitos de computação gráfica são utilizados de maneira tão gratuita, que jamais realmente acreditamos que existem pessoas ou veículos em cena. Chegando a ser bastante vergonhoso (sério, prestem atenção na maneira com a qual o Pantera-ou melhor: boneco de cgi do Pantera-se movimenta), perdendo qualquer veracidade. Muito diferente das cenas de ação criadas efeitos práticos de "Mad Max-Estrada da Fúria" ou até  de "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge".

Outro sério problema do filme, encontra-se em seu vilão. O personagem de Daniel Bruhl (um ótimo ator, sem ter o que fazer em tela) é um vilão tão sem personalidade, e tão avulso, que por vezes me questionava se ele realmente estava querendo realizar aquelas ações. Além do que, o plano realizado por ele é ridiculamente mirabolante. Mas tudo bem, isso é um filme de quadrinhos e os vilões tem isso como mote. Mas o detalhe aqui, é que além de tudo o plano é recheado de buracos. Como certo momento, no qual o vilão atrai um herói x para uma base no outro lado do planeta para: mostrar-lhe um vídeo e despertar uma reação no herói. Será que ao invés de ter viajado pra casa do c****** e fazer o herói segui-lo, que tal procurar na internet uma plataforma na qual você possa postar vídeos, como o Youtube?! Isso é apenas a ponta do Iceberg, amigos (e pensar que reclamaram dos planos de Lex Luthor, em "Batman vs Superman").




Apesar disso tudo que falei, "Guerra Civil" é um bom filme. Os atores estão ótimos (Robert Downey Jr sai do piloto automático, e adiciona camadas em seu Tony Stark/Homem de Ferro), a ação é bem coreografada, a inserção do Homem-Aranha é fenomenal (não sei dizer ainda se Tom Holland é a melhor encarnação do personagem, mas perto da porcaria que foi "O Espetacular Homem-Aranha 2", é um colírio nos olhos ver uma transposição decente).

O que leva ao último problema que enxerguei no longa-metragem: diferente dos melhores filmes da Marvel ("Winter Soldier", "Homem de Ferro", "A Era de Ultron", "Os Vingadores") ao final  de "Guerra Civil" não há uma mudança significativa no universo dos heróis. Não há qualquer espécie de nova inserção (além de personagens novos), qualquer possível discussão ou ideia a ser explorada pelos espectadores. Um filme competente, mas absurdamente estéril em termos de conteúdo. Tanto para o espectador que espera ver algo a mais num filme de super-herói, quanto para o fã da Marvel que queria ver o que o novo longa teria a adicionar para o que já foi estabelecido. Absolutamente nada.

Ao meu ver, faltou culhão de se arriscar um pouco mais e fazer algo diferente. Deixar um pouco de lado a fórmula que tanto faz sucesso (até a publicação desta crítica, a soma das bilheterias de todos os filmes lançados até então fizeram 10 bilhões de dólares). Ao invés de optarem por algo novo, o Marvel Studios segue sua receita de sucesso. Que funciona, mas apresenta rachaduras. Tomara que o filme do Doutor Estranho seja diferente.

Nota: 7