quinta-feira, 7 de abril de 2016

Crítica: Livrai-nos do Mal



O filme "Livrai-nos do Mal" tem todos os ingredientes de um bom terror: bons atores, trama que mistura religiosidade e cinismo em doses análogas, um diretor cujo talento já foi comprovado (Scott Derrickson, que fez o ótimo, "O Exorcismo de Emily Rose"). Além de iniciar com uma cena que desde já dá o tom pessimista que uma obra assim precisa: um policial retirando um bebê morto do lixo de uma sarjeta escuta. Ainda assim, "Livrai-Nos do Mal" é uma oportunidade desperdiçada. Filme que com roteiro disléxico, não sabe se está contando a história de um terror religioso ou um thriller policial sobrenatural.

Na trama, o sargento Sarchie (o esforçado Eric Bana) vê-se cada vez mais cansado e traumatizado de seus servições como policial da divisão de homicídios. Porém, ele e seu parceiro (interpretado pelo comediante, Joel Mchale) terão que investigar um caso bizarro envolvendo três homens que tiveram contato com uma força demoníaca enquanto serviam no Iraque.

A grande verdade é que não é possível dizer qual era a intenção do diretor Scott Derrickson, pois se em certos momentos o filme emula o thriller máximo sobre maldade humana"Seven", em outros parece querer ser um longa-metragem como "O Exorcista". Misturar gêneros não é sinônimo de falha, porém errar na construção de ambos é imperdoável.




Repare como o filme insere todos os clichês de filmes policiais, como o  oficial veterano que não aguenta mais ter a violência presente no seu cotidiano, o parceiro bem humorado deste que mergulha na adrenalina (inclusive, tendo isto explanado dolorosamente pelo roteiro num diálogo do próprio personagem, "Eu sou movido pela adrenalina"), a esposa que reclama que quando o marido volta do trabalho "não está presente". Além das fúteis tentativas de inserir uma crítica social relevante, como no momento no qual a esposa de um possível possuído diz que o marido "filmava a guerra" (quase é possível ouvir o diretor gritando: "Entenderam? A Guerra é o verdadeiro terror!"). Mais óbvio impossível.

Pior ainda é constatar que como  terror, "Livrai-nos do Mal" é idêntico a algumas dezenas de filmes (que conseguiram se sair melhor). Tal qual a lista de clichês de filmes policiais, a lista para se fazer um terror para impressionar impressionáveis está completa: jump scares de 10 em 10 minutos, baseados no súbito aumento do volume e na aparição rápida de de uma imagem? Check. Símbolos demoníacos/de religiosidade? Check. A inserção de um exorcismo que não leva a nada, atores competentes atuando como loucos (babando, revirando os olhos, se contorcendo), e mais jump scares desnecessários? Check, check, check.

Entendam, eu não tenho problema com filmes de terror com jump scares. Gosto muito de "Invocação do Mal" e "Sobrenatural", porém a grande diferença nestes dois com relação a "Livrai-nos do Mal" é simples: os sustos não são gratuitos. Por mais que em suma, constituam-se da inserção de um som alto num momento despreparado do espectador, estes carregam consigo uma série de elementos: atmosfera, maquiagem bem-feita, tensão bem construída, uma história assustadora. Em "Livrai-nos do Mal", nada disso está incluso. O máximo que tem, é uma tentativa fracassada de gerar medo a partir de uma pelúcia de coruja (não, eu não escrevi errado. É isso mesmo).



Outro problema já mencionado anteriomente, é a exposição desnecessária do roteiro. Se os exemplos que dei  não foram suficientes para que você se convença disso, repare a presença do padre (Edgar Ramirez, um bom ator que desperdiça seu talento em filmes medíocres). Desde o início estabelecido como uma versão de ação do Padre Karras de o Exorcista (a 1a cena na qual aparece, o personagem surge fazendo flexões, abdominais, levantando peso. Parece que o peso de ser um homem de fé não é tão pesado quanto o de seus halteres), jamais o roteiro vem a dizer a que ele veio. E pior: dono das piores falas presentes nos longos 118 minutos de duração. Veja por exemplo uma das primeiras cenas em que aparece, ao parar num bar após uma corrida. Sendo questionado por uma mulher com desejo, por quê ele bebe uma dose de uísque como se fosse remédio, o padre prontamente responde: "Para mim, é puro remédio". E sai correndo pela porta....

Existe algum background traumático para o padre que justifique o seu consumo de álcool com "tomar um remédio"? Não. A personagem feminina que o aborda no bar tem alguma outra função ou cena no filme, além de apenas fazer a pergunta e dizer "você fica gostoso suado"? Não.

Pra não dizer que o filme é um completo desperdício de tempo: o elenco é bastante competente. Seja Eric Bana com seu policial atormentado, até o trio possuído todos estão bem nos seus papéis. Uma pena que todos limitados por um roteiro tolo, que não sabe se decidir por um rumo certo e que ainda não adiciona nada de novo ao espectador. Francamente, Scott Derrickson. Depois de "O Exorcismo de Emily Rose", esperava mais de você....


Nota: 5,0