quinta-feira, 3 de março de 2016

Crítica: O Regresso (The Revenant)


O cinema de Iñárritu é recheado de tragédias humanas, mas talvez a mais recorrente em sua filmografia seja a incomunicabilidade humana. Seja no seu primeiro filme "Amores Brutos" até o seu mais badalado, "Birdman", todos lidam com a ausência de diálogo entre pessoas. E como isso pode provocar consequências inalienáveis, como em "Babel". Onde o diretor insinua que a falta de diálogo entre pai e filha, indiretamente gera um incidente em outro continente. Em "O Regresso", isso é elevado até a décima potência. Visto que o diretor chega a incluir uma sequência inteira na qual a comunicação verbal é inexistente, forçando um homem a utilizar outras maneiras de dizer que não quer morrer em face de um agressor psicótico.

Escrevi um parágrafo inteiro para ressaltar a brutalidade de "O Regresso", uma experiência cinematográfica impressionante que conta a história mais antiga e clássica do cinema: o homem lutando para sobreviver contra a natureza, e contra ele mesmo. E praticamente gritando que será o animal mais forte. Pra quem não sabe, o longa acompanha a vida de Hugo Glass (Leonardo Di Caprio), que foi deixado para morrer após um confronto sangrento com um urso e depois inacreditávelmente voltou para a civilização.

Primeiramente, é necessário dizer que "O Regresso" é um filme sem um roteiro recheado de diálogos rápidos, monólogos, ou uma trama complexa e rocambolesca. Na verdade, se formos analisar mais a fundo o protagonista mal fala durante as duas horas e meia de filme. É uma história de sobrevivência bruta e sofrida. Isso não significa que não deva ser vista, "2001: Uma Odisseia no Espaço" quase não tem diálogos porém é uma das experiências audiovisuais mais impressionantes já criadas. Iñárritú não é Kubrick (apesar do seu insuportável ego almejar), mas sabe criar filmes impressionantes. Com "O Regresso", não foi diferente.



O diretor se reúne novamente com o diretor de fotografia de "Birdman", Emmanuel Lubezki (que ganhou seu 3o Oscar por "O Regresso"), e fez novamente um filme visualmente espetacular. Os dois optaram por rodar o filme utilizando apenas luzes naturais, assim só podiam gravar com os atores durante uma pequena parcela de tempo (as filmagens foram feitas no Canadá, o dia não dura tanto tempo). Isso já seria um desafio em um drama normal, a diferença é que "O Regresso" possui diversas cenas de ação. Nas quais a câmera não fica parada, acompanha múltiplos focos de batalha (a que inicia o filme, chega a ser arrebatadora), cai na neve com os personagens, recebe respingos de sangue, terra. Pensou na abertura de "o Resgate do Soldado Ryan"? Por aí. Por isso afirmo: assista o filme na maior tela possível.

O elenco do filme é surpreendentemente diverso, ao passo que tem-se tanto atores conhecidos pela sua imersão nos papéis quanto atores caracterizados pela comédia. Estou falando obviamente, do contraste entre Tom Hardy (o Bane de "O Cavaleiro das Trevas Ressurge") e Will Poulter (famoso pela infame comédia "Uma Família do Bagulho"). Apesar de Hardy não ser o foco do filme, acho válido falar sobre a sua atuação. O ator já havia demonstrado seu talento em filmes como "Bronson", "O Espião Que Sabia Demais", "Legend", e não precisava mais se provar. Porém, em "O Regresso" o  inglês fez seu melhor trabalho. Seu personagem é um homem violento, visivelmente traumatizado (a grande pergunta que vem ao longo do filme, é se sua sociopatia já existia antes do seu episódio com os índios), que personifica a sobrevivência. O que é um contraponto muito interessante ao personagem de Di Caprio, um homem que ganha alguns dos tiques do personagem de Hardy após sofrer todos os traumas. Dois lados da mesma moeda, outro tema clássico no cinema.




Chegou a hora de falar do grande Di Caprio, que nessa altura já ganhou o seu merecido Oscar de Melhor Ator (apesar de eu não saber responder se foi mesmo por "O Regresso" ou por "O Lobo de Wall Street" e "O Aviador"). A atuação de Di Caprio é interna, o seu personagem tem pouquíssimas falas e se comunica a maior parte do tempo com olhares e gestos. Isso não significa que grandes momentos não surjam em tela, como quando Glass come a carne recém abatida de um búfalo. Quase como se estivesse tornando-se o urso que o feriu no início do filme.

Essa crítica não estaria completa sem falar da cena do já citado urso, Mas o que dizer? Não bastasse ser assustadora, visceral e violenta, ainda é um primor técnico. Visto que o animal visto em tela é todo feito em cgi. Fazendo com que o tigre digital de "As Aventuras de Pi" pareça uma animação de flash. Em momento algum da cena (que é quase toda feita sem cortes) chegamos a imaginar que o animal não esteja ali. A presença do urso vista aqui é a mesma que o espectador sente dos animais vistos no documentário de Herzog, "O Homem Urso" (este sim, mostrava animais de carne e osso próximos de um ser humano). Gerando tensão e medo.

Por conta da impecável técnica cinematográfica, seu formidável elenco e a discussão do papel da sobrevivência pro homem, "O Regresso" é um filme que merece ser assistido. Confesso: prefiro muito mais as discussões propostas em "Birdman" (além do que, os momentos de delírio vistos aqui, soam mal encaixados). Ainda assim, em tempos nos quais filmes como "Pixels" são lançados e fazem sucesso de bilheteria, a história de Hugo Glass é muito bem-vinda. E pros que reclamam que diversos momentos, seria impossível do protagonista sobreviver encerro meu texto com a fala do diretor John Ford:

"Quando a lenda se torna fato, imprime-se a lenda".


Nota: 8,5