domingo, 6 de março de 2016

Crítica: A Bruxa (The VVitch)


Uma análise apressada do terror, pode fazer um espectador desatento pensar que o gênero se limita a assassinos com máscaras de hóquei, sustos causados por um súbito aumento do volume (o famoso jump scare, que erroneamente é dado como critério de quão assustador um filme é), e muito sangue. Entretanto, basta uma pesquisa mais aprofundada para ver que o terror se divide em várias seções. Basta comparar "O Albergue" com "Inverno de Sangue em Veneza". Este exemplo que dou, personifica a maior das lutas entre os ávidos espectadores do gênero: o explícito contra o sutil. Enquanto alguns preferem a visceralidade de "Jogos Mortais", outros preferem o horror interno de "O Iluminado".

Não arrisco dizer qual das vertentes é melhor, porém é fato que o horror que pode-se achar no âmago de cada ser é muito mais assustador do que todo o sangue derramado na franquia "Pânico". O diretor Robert Eggers sabe disso, e faz "A Bruxa" com toda sutileza e atmosfera que são característicos de obras-primas como "O Bebê de Rosemary" e "A Hora do Lobo". Fazendo mais do que tudo, um estudo sobre a maldade humana.

O filme conta a história de uma família fervorosamente religiosa, que por conta de sua extrema fé, é expulsa de uma aldeia da Nova-Inglaterra, buscando abrigo numa assustadora floresta, visando plantar milho para o inverno. Entretanto, não demora muito para que ocorrências assustadoras passem a acontecer cada vez mais perto de sua casa.



Primeiramente é necessário afirmar que esta é uma das estreias diretoriais mais interessantes do gênero, Robert Eggers comanda o filme como um veterano e assim como Mario Bava e William Friedkin, cria um cenário recheado de misticidade e fantasia, mas com um pé na realidade. Assim, a direção de arte, figurinos, fotografia  evocam a Nova Inglaterra de 1630. Na qual o trabalho duro e a castidade eram valorizados. A veracidade histórica encontra-se até nos diálogos, a produção fez um assíduo trabalho de pesquisa e utilizou falas e expressões encontradas em textos da época (inclusive, o título original é "The VVitch" e não "The Witch. Pois assim que era a grafia da época).

Se você quer assistir "A Bruxa" esperando um filme ao estilo de "Invocação do Mal" ou "Sobrenatural", aviso que irá se decepcionar. O filme não investe em sustos, e sim em atmosfera. O que não quer dizer que o espectador não sentirá medo ao longo da sessão. A grande verdade é que "A Bruxa" está mais interessado em seguir o caminho que Michael Haneke seguiu em "A Fita Branca": o surgimento do mal.

Não é a toa que a grande maioria dos espectadores da minha sessão saíram zoando, e xingando o filme. E se você que lê foi um deles, não te culpo. Porém peço que perceba que por mais que exista um elemento sobrenatural, o verdadeiro horror de "A Bruxa" é como que o fundamentalismo era capaz de fazer indivíduos cometerem atos desprezíveis em nome de uma causa religiosa. Além de em vários momentos o filme deixar bastante claro que aquilo é estúpido (note, como que em dado momento o patriarca da família afirma: "Eu não tenho pensamentos").





Perceba como que a família da história é o símbolo máximo do puritanismo e do fundamentalismo, isolados do mundo exterior, tomando ações moralmente questionáveis em "nome de Deus". E como que o diretor insere pequenos momentos que refletem as consequências desse isolamento fundamentalista (o irmão mais velho, entrando na pré adolescência e sem conhecer garotas da sua idade, sente desejo ao ver os contornos do corpo de sua irmã mais velha).

O parágrafo abaixo contém spoilers, portanto se você quiser ler basta sublinhar com o mouse para visualiza-lo. Mas se não quiser, basta ignorar este "espaço em branco"
O filme utiliza-se da metáfora do sobrenatural para refletir a agressividade com que a família trata Thomassin (Anya Taylor Joy), adolescente que é vista como uma fonte de pecado e com ambições fortes demais. Assim, não demora muito para que a chamem de bruxa. Pois era isso que acontecia no período, a mulher devia ser como a mãe de Thomassin, Kate (Kate Dickie). Pura, sem desejos, e totalmente devota a Deus e a família. Assim, após passar por toda humilhação e sofrimento, Thomassin não vê outra alternativa a não ser aceitar este rótulo e se tornar uma bruxa. A prova viva que o conceito de bruxa está atrelado a liberdade feminina, é dado no momento que Black Phillip/Satã tenta Thomassin com promessas de: roupas belas e confortáveis, viajar pelo mundo, luxúria. Não é isso que uma adolescente saudável deseja?

A grande verdade, é que "A Bruxa" é um belo retorno ao horror psicológico característico dos anos 60 e 70. Capaz de perturbar e assustar o espectador (rituais satânicos? Sacrifícios? Profanidades? Tudo isso, e muito mais), e com uma crítica social fortíssima. Não é para todos (ao final do filme, uma moça atrás de mim gritou "Sério que termina assim??"), mas para os fãs do cinema que gera medo no espectador e não sustos, o filme é um prato cheio. Fico feliz de dizer que pertenço ao segundo grupo.

Nota: 10