domingo, 27 de março de 2016

Crítica: Batman vs Superman-A Origem da Justiça




Em 2013, foi anunciado que a continuação de "Homem de Aço" seria dirigida por Zack Snyder e teria como tema a batalha de Batman contra Superman. O que animou todos os fãs de quadrinhos, afinal fazia tempo que o confronto do cavaleiro das trevas e do homem de aço tentava ganhar vida no cinema. O que ninguém esperava era a escalação final para o papel de Batman: Ben Affleck. Ator e diretor, que anteriormente atuou no péssimo "Demolidor". Confesso, fui um dos fãs que chiou. Afinal, após uma trilogia exemplar dirigida por Christopher Nolan (tendo como ator protagonista, um profissional extremamente competente, Christian Bale), a escalação de Ben Affleck foi um verdadeiro banho de água fria.

Este ano, após 3 anos do anúncio fico feliz em dizer que (surpreendentemente) Ben Affleck não apenas é um Batman exemplar, como também fez a melhor encarnação do personagem na história do cinema. Sim, a crítica deste filme tão aguardado já começará com polêmica. No entanto, deixarei para desenvolver isso melhor mais pra frente.

O filme se passa 18 meses após os eventos narrados em "Homem de Aço", com Batman (Ben Affleck) cansado de tolerar e temendo a presença do semi-deus, Superman (Henry Cavill),iniciando um plano para sucumbir o semi-deus. Enquanto isso, Lex Luthor (Jesse Eisenberg) inicia um plano para acabar com os dois heróis.




Pra começar, afirmo que apesar de ser uma continuação direta de "O Homem de Aço", o filme se sustenta muito bem sozinho. Pois, é dedicado tempo de tela suficiente para definir ambas as personalidades dos protagonistas (nisso incluem-se delírios, sonhos). A começar, pelo Homem de Aço.

Alguns podem argumentar que Superman é menos desenvolvido no filme, mas a grande verdade é que existem uma série de cenas que definem os conflitos do personagem como o semi-deus que pode salvar a humanidade. Neste filme, é discutida a presença do Superman para o resolvimento de conflitos. O quanto de destruição é causada, e o quanto isso custa para os governos. Mas o mais importante: no meio de tantos conflitos no mundo, quem será escolhido por ele para ser salvo? Quem está mais em perigo? Não é a toa que o filme faz questão de mostrar uma cena, na qual o personagem salva uma criança no México, e após aterrissar é abordado de maneira quase messiânica por um grupo de pessoas vestidas de caveira (por conta do dia dos mortos). Ele pode ter salvado a criança, mas e as outros que encontravam-se em perigo no mundo?

Um contraponto muito interessante ao Batman, que aqui encontra-se na sua melhor encarnação cinematográfica. Pois tem como base mor, o consagrado quadrinho de Frank Miller, "O Cavaleiro das Trevas". Assim, vê-se em tela um Batman mais velho e amargurado. Que após 20 anos de combate ao crime, não liga mais pra regra de "não matar" (inclusive na imagem abaixo, o herói acabou de quebrar o pescoço de um soldado), seguindo a linha "os fins justificam os meios" até a última instância. Logo, o Batman de Ben Affleck é no mínimo o Homem Morcego mais violento e insano (repare os diálogos com Alfred) que o cinema já mostrou. Não é a toa que o confronto com o Superman é iminente. Pois, se o Homem de Aço é alguém interessado em ajudar todos, o Homem Morcego quer impor a ordem e a lei do jeito dele. Sendo também alguém que não se curva perante a ninguém. Portanto, o potencial de perigo representado por Superman ("e se ele se tornar um tirano?", "e se ele se cansar dos humanos") é suficiente para chamar a atenção do vigilante mascarado. E surpreendentemente, Ben Affleck conseguiu transpor essa faceta do personagem magnificamente. Reforçando com o olhar e com sua postura, a amargura e o stress no qual o personagem se encontra. Porém, diferente do Superman, não por conta da responsabilidade de seus atos, mas pela escuridão de sua alma.



Deixando um pouco de lado a maneira com a qual o filme aborda os dois protagonistas, e falando sobre a produção em si. Não é novidade que Zack Snyder traz nas suas produções designers, diretores de arte extremamente competentes para criar o universo de seus filmes (mesmo no seu filme mais fraco, Sucker Punch, isso se destacava), e aqui não é diferente. A Metrópolis e a Gotham presentes aqui, são um misto de realidade com fantasia dos anos cinquenta. Então, se em alguns momentos os personagens surgem utilizando tecnologia de ponta, em outros elementos saudosistas (carros dos anos 50, figurinos, o Daily Planet) surgem em cena, remetendo diretamente aos quadrinhos clássicos dos personagens da Dc.

E como nos seus filmes anteriores, Zack Snyder filma a ação de maneira primorosa. Diferente de inúmeros diretores de ação (cof, cof, Michael Bay), os combates são filmados de forma que a platéia identifique tudo que está se passando (no caso das lutas envolvendo o Batman, os espectadores da minha sessão inclusive não conseguiram conter o choque, conforme os atos do homem-morcego tornavam-se mais violentos).

Outra influência da filmografia do diretor na produção, encontra-se na exacerbação do épico. Em todos os filmes de Snyder, o mito confunde-se com a realidade e é tratado com tributo (tanto em casos mais explícitos como "300", quanto de maneira mais sutil como em "Dawn of The Dead", que pagava tributo ao filme de George Romero de 78). Veja como que todos os heróis (mesmo Batman, que é humano) são vistos como deuses na Terra, e como que a solução final do problema mor é resolvida como o melhor dos mitos/tragédias gregos.

Porém, nem tudo é alegria. Apesar da presença da Mulher Maravilha junto aos dois heróis ser suficiente para arrepiar o mais incrédulo fã de quadrinhos, a personagem não é desenvolvida de maneira nenhuma. Ela é meramente um artifício do roteiro para ajudar na luta do final do filme. Outro sério problema do filme que também se encontrava em "Homem de Aço": Lois Lane. Não que Amy Adams atue mal, não que a personagem seja desinteressante, nada disso. O problema é o roteiro insistir em utiliza-la meramente como a donzela em perigo, e coloca-la em situações que não era necessária a presença dela (pense bem, por que ela estava presente na luta final?). E sim, eu sei que a personagem é utilizada assim nos quadrinhos (eu leio quadrinhos faz no mínimo, 15 anos). Porém, ao ser transposta para outra mídia, a personagem também tem que funcionar.





Agora comentando um pouco sobre a má aceitação do público: comparado com os filmes da Marvel, "Batman vs Superman" é um filme muito mais difícil (mais pesado, violento, profundo). Assim, salvo raríssimas exceções, o filme não agradará o público infantil-pré adolescente (já é difícil botar um adolescente na frente de uma tela de cinema por 1 hora e meia sem ele chiar, imagina por duas horas e meia num filme sem piadinhas). Então, não fico surpreso com a recepção do filme. Porém, pra quem vem com o argumento que o filme é ruim porque "tem 30% de aprovação no Rotten Tomatoes", uma lembrança: "Sharknado" tem 82% de aprovação no site e é o que é (outra coisa: vejam a nota de Batman vs Superman no Imdb, e vejam o contraste).

Eu reconheço: sou fã da Dc Comics. Ver o embate entre os dois maiores personagens da editora de quadrinhos, foi um sonho realizado. E podem dizer que minha visão sobre o produto final é um pouco contestativa, porém o que peço para que os leitores pesquisem ao ler uma crítica negativa do filme, se o autor teve visão positiva sobre "Os Vingadores". Não queria tornar isso uma briga, mas o que tenho visto nos últimos dias são críticos malhando certos aspectos presentes aqui, que também estão presentes nos filmes da Marvel Studios. Mas que no caso, foram exaltados. O que acho bastante injusto. Sendo fã da Marvel ou da Dc, seja coerente na construção de sua opinião (e pros que me chamarem de tendencioso, e hater da Marvel: dei notas positivas no blog para todos os filmes da Marvel, com exceção de "Homem de Ferro 3").

Deixando de lado a reação da internet, "Batman vs Superman-A Origem da Justiça" é um filme de super-heróis muito competente, desenvolvendo bem seus dois protagonistas num longa que não tem medo de não seguir a fórmula atual do gênero, investindo na concepção de ideias para os espectadores. Se o filme tivesse só isso de mérito, já valeria a pena comprar o ingresso. Mas felizmente, "Batman vs Superman" é muito mais do que isso.

Nota: 9,0