domingo, 6 de setembro de 2015

Crítica: O Agente da U.N.C.L.E


Filmes de espionagem são frequentes no cinema, todo ano surge pelo menos um exemplar do universo dos agentes com permissão para matar. O curioso, é como  2015 está recheado de filmes desse estilo. Kingsman, A Espiã Que Sabia de Menos, Missão Impossível 5, (sem falar do o ainda vindouro 007-Spectre) fizeram muito sucesso nas bilheterias globais. O Agente da U.N.C.L.E é um filme tão charmoso, divertido e inconsequente quanto os já citados. Porém, tem uma diferença primordial em relação aos demais: é um filme que se passa nos anos 60, no período da Guerra Fria.

Esse fato parece ter sido a principal causa da fraca bilheteria do longa-metragem nas bilheterias, mas ao mesmo tempo é seu maior mérito. Visto que como os melhores filmes de espião lançados na década de 60, O Agente da U.N.C.L.E é um filme muito bem feito. O único porém, é tom da direção de Guy Ritchie.

Na trama, um agente da Cia chamado Napoleon (Henry Cavill, o Superman), tem que se unir a um agente da Kgb chamado Illya (Armie Hammer, um dos cotados pra fazer o Batman) para que uma fórmula que pode dar origem a maior ogiva nuclear da história, não caia nas mãos de nazistas. Uma trama caricata, despretensiosa, que poderia muito bem ser o plot de um desenho da Hanna Barbera. Mas que resume bem as ações dos Estados Unidos e da União Soviética durante o período da Guerra Fria.



É interessante perceber que tudo no longa-metragem ressalta o lado cool do período, dos figurinos impecáveis à postura fria e profissional dos personagens, tudo evoca a impotência da época. Um momento que as duas nações se apontaram todas as armas possíveis uma pra outra, mas que aguardavam uma mísera ação do outro para disparar. Isso se vê claramente na relação de Solomon e Illya, espiões que devem trabalhar juntos para evitar um mal maior, mas que não hesitariam (e até adorariam) em descarregar uma pistola no peito do outro.

Outro mérito do longa-metragem, é não taxar nenhum dos dois lados da guerra. Ambos os personagens possuem o mesmo peso na narrativa, e tem o mesmo número de qualidades quanto de defeitos. Tudo isso fica evidenciado, quando um vilão começa um discurso sobre as cores das fotos do passado. Mostrando fotos da 2a Guerra Mundial (e afirmando ser um período preto e branco/o bem vs o mal), e contrastando com as fotos do período sessentista (fotos coloridas, ninguém é totalmente mal ou totalmente bom).

Uma pena que esses momentos acabam sendo deixados de lado pelo roteiro e direção de Guy Ritchie, diretor que sempre demonstrou ter mais interesse no estilo do que na alma de um filme. Isso funciona algumas vezes (em Snatch-Porcos e Diamantes, funciona maravilhosamente bem. Já em Sherlock Holmes, não). Porém, em filmes de espionagem é necessário que haja algum senso de gravidade. Pois o grande medo é que a ameaça se torne real. Algo que aqui jamais é sentido, por mais que os personagens principais sejam bem desenvolvidos (o que não se pode dizer dos vilões, maus por natureza).

Claro, é preciso dizer que o diretor inglês sabe criar um universo visualmente fascinante. A Roma de O Agente da U.N.C.L.E é tão rico quanto a Londres vitoriana de Sherlock Holmes, chega a lembrar a perspectiva que Fellini filmou da cidade italiana no clássico La Dolce Vitta. Isso só se acentua com a fotografia cristalina de John Mathieson (que nos momentos certos, emula filmagens da época), e com a excelente trilha sonora (recheada de pérolas musicais de artistas como Tom Zé, Sergio Pizzorno, e ainda flertando com as músicas Western Spaghetti de Ennio Morricone). Porém, as investidas em tornar o filme mais ágil e pop, por vezes soam incoerentes com a proposta da história (o que dizer dos momentos que o diretor optou por dividir a tela, e instituir um momento Onze Homens e um Segredo?).



Ainda assim, o Agente da U.N.C.L.E é um bom filme. Não há nada de absurdo ou verdadeiramente ruim no filme, a grande verdade é que olhando com mais cuidado podemos identificar  um grande filme ali. Seu elenco é eficiente, o roteiro é redondo (por mais que tenham as clássicas reviravoltas do gênero), o visual é impecável. Sem falar que muitos dos deméritos que outras críticas andam ressaltando, nada mais são do que elementos recorrentes em filmes de espionagem.

Porém uma coisa o filme falhou miseravelmente: é preciso que o espectador se importe com a situação apresentada. Por mais que tenha personagens carismáticos e inteligentes, uma ação elegante e um roteiro recheado de sequências deliciosas (atenção para o momento em que um personagem ignora a tensão ocorrendo logo atrás de si, para desfrutar um sanduíche e um bom vinho), a verdade é que nos importamos tanto com a trama deste filme quanto para a de um episódio de A Corrida Maluca. Talvez como desenho-animado, O Agente da U.N.C.L.E sairia-se melhor.

Nota: 8,0