domingo, 9 de agosto de 2015

Crítica: Quarteto Fantástico (2015)


Adaptar um quadrinho de super-herói pro cinema em geral é sinônimo de sucesso: o público médio gosta, os fãs gostam, bilheteria farta, continuações infinitas. Esse foi o caminho trilhado por franquias como Homem-Aranha, Batman, Superman, Vingadores. E até mesmo por personagens classe b, como: Homem de Ferro, Blade e Homem-Formiga.

Com o Quarteto Fantástico, não foi diferente. O Fab Four teve nada mais nada menos, que três adaptações. Uma primeira produzida por Roger Corman (que sequer foi lançada no cinema, direto pra home video), a segunda e mais famosa estrelada por Jessica Alba (que fez bastante dinheiro, porém parecendo  mais um sitcom ruim do que um filme de super-heróis) e esta terceira tentativa/reboot da franquia lançada no ano de 2015. 

E como se saiu essa nova adaptação? Não muito melhor que as outras. Visto que apresentando um roteiro cheio de furos, ritmo irregular, efeitos especiais pouco críveis e personagens unidimensionais, Quarteto Fantástico se apresenta como mais um dos filmes mais medíocres de super-heróis, ao lado de pérolas como Lanterna Verde, Elektra e Blade Trinity.

A trama é a mesma de sempre: o jovem Reed Richards (Miles Teller, o bateirista sociopata de Whiplash) é chamado para contribuir num projeto de interesse na Nasa, que busca criar o teletransporte interdimensional. Porém, numa tentativa frustrada de testar a máquina, ele e seus amigos (Kate Mara, Jammie Bell, Michael B Jordan),  terão que lidar com anomalias corporais/poderes.



Devo dizer que cometi um erro absurdo no início do texto: defini Quarteto Fantástico como "filme de super herói". Por mais que baseado num dos quadrinhos mais clássicos da Marvel, e por apresentar personagens que ganham super-poderes, este não é um filme de super heróis. O único momento que o longa resolve investir neste quesito, faltam (sem exagero) 10 minutos para o fim do filme. E os 90 minutos anteriores? São preenchidos com cenas de laboratório.

E antes que comecem a jogar pedras, não há problema algum em subverter gêneros. Desde que essa seja feita da maneira correta, e que mergulhem de cabeça na investida. O que não acontece aqui, pois mesmo as cenas nas quais os personagens estão fazendo ciência, são dotadas de problemas fantásticos.

O que dizer do acidente que dá poderes aos personagens? Nos quadrinhos, os personagens eram astronautas que viajavam numa missão estudada e planejada. Que se deparavam com algo inexplicável, que causa as fatalidades. Aqui, os personagens são apenas cientistas que criaram a máquina. Que após lamentarem numa noite de bebedeira não terem a chance de testar sua invenção, resolvem eles mesmos serem os astronautas. Não, eles não sabem pra ondes irão. Não, eles não sabem QUALQUER dado sobre as condições do planeta. Não, eles nunca fizeram QUALQUER teste para viajarem como astronautas. Como crer que "as mentes mais geniais do mundo" (como diz o mentor do time de cientistas, que com certeza deve revisar seu conceito de "genial") agiram de maneira não só inconsequente, mas também imbecil?

Daí pra frente o filme contempla o abismo, e praticamente se chuta pra dentro. O roteiro até tenta criar um arco narrativo interessante com Reed Richards, da culpa que sente por:

A) ter feito todos os seus amigos terem anomalias corporais irreversíveis após uma decisão idiota
B) por ter dado em cima da colega de laboratório
C) por ter fugido quando acorda e ver que está elástico

Se você escolheu A, é porque você é um ser dotado de um mínimo de coerência. O que não pode ser dito do roteirista do filme, que optou por C. Sim, em momento algum os personagens reclamam à Reed Richards que sua ideia de ir até o espaço sem nunca ter qualquer tipo de treinamento foi absurda, mas sim porque ele fugiu. 



Além de todas essas incoerências de roteiro, o filme ainda se sabota por inúmeras questões. Por que o Quarteto não precisa usar qualquer traje espacial que os proteja da atmosfera do planeta, quando viajam pro lugar insólito no 3o ato do filme? Não, em momento algum eles falam que "A atmosfera é compatível com a da Terra bla bla bla bla". Inclusive, quando viajam pra lá meia hora antes eles usam roupa pra se proteger do "ar perigoso". Bem conveniente!

Pra não dizer que não gostei de nada do filme, gostei do Coisa apresentado aqui. Achei o visual muito bem produzido, o trabalho de motion capture do ator Jamie Bell é extremamente competente, além do efeito sonoro utilizado em sua voz ter um detalhe bacana: sua voz parece sair como se o personagem estivesse soterrado. Porém, é interessante constatar que boa parte do orçamento deve ter sido investido no design da criatura. Visto que o resto de efeitos especiais presentes no filme, soam ridículos em tempos de Homem de Aço e Vingadores (vejam o Doutor Destino por exemplo, que parece mais o Dollyinho).

Muitos dos problemas de Quarteto Fantástico devem ser atribuídos à relação conturbada do diretor Josh Trank, com o estúdio Fox. Enquanto o diretor queria apostar em algo mais parecido com seu filme anterior (o ótimo Poder Sem Limites), o estúdio queria algo mais parecido com o Quarteto Fantástico anterior. Assim a falta de coesão entre os primeiros dois atos do filme, com o terceiro começa a se desvendar. Se fosse só a última parte do filme o grande problema de Quarteto Fantástico, eu não ligaria muito (isso aconteceu com Wolverine Imortal, e eu gosto do resultado). Porém, não é isso que ocorre aqui. Quarteto Fantástico é um filme medíocre que não sabe que rumo quer seguir para sua história e seus personagens, desperdiçando o talento do elenco e de seu diretor. E enterrando pra sempre as chances do quadrinho ter uma nova adaptação pro cinema.

Nota: 4,5