terça-feira, 7 de julho de 2015

Crítica: Jurassic World-O Mundo dos Dinossauros



Pouquíssimas franquias fizeram tanto dinheiro quanto Jurassic Park, que combinando aventura e efeitos especiais de ponta renderam muito dinheiro para a Universal Studios. Portanto, mesmo após três filmes (com exceção do 1o, todos esquecíveis) os produtores queriam mais. Assim, durante anos o roteiro para um vindouro 4o filme da saga era escrito. Válido dizer, que  processo de roteirização poderia render um filme. Pois foram tantas trocas de roteiristas, de diretores (inicialmente, Spielberg dirigiria. Até que desistiu, e voltou, pra desistir novamente), e inserções de última hora num período de 12 anos, que podemos considerar o lançamento deste 4o filme um milagre cinematográfico.

O filme fala sobre o famigerado, perigoso, inconsequente e divertido parque funcionando em pleno vapor. No tempo mostrado no longa, o parque já funciona faz tempo e é um resort cobiçado por famílias de todos os países, desbancando a Disney como destino de férias favorito de final de ano. Porém, a aventura e diversão serão interrompidas, quando um dinossauro predador geneticamente modificado para ser a mais fantástica máquina de matar foge de sua cela.

Uma trama simples, mas até aí nenhum problema. Existem milhares de filmes com um fiapo de história que são fantásticos (veja um dos mais famosos filmes de Spielberg por exemplo, Tubarão: "Uma cidade praieira tem a diversão interrompida quando um tubarão branco assassino começa uma jornada de sangue e medo"), até mesmo podendo fazer com que outros setores da produção invistam mais a fim de gerar um resultado inesquecível. Mas a dura verdade é que além de simples, a trama de Jurassic World é uma colcha de retalhos. Um roteiro recheado de boas ideias que nunca são plenamente desenvolvidas, e as poucas que começam a arriscar uma construção são esquecidas. Consequência direta da turbulenta história de bastidores para o desenvolvimento do roteiro, na certa idéias de vários rascunhos foram jogadas aqui.


Sim, eu comecei a crítica falando de imediato um problema do longa. Por que? Simples: para retomá-lo ao final da crítica. Assim, para os que adoraram o filme e que cogitam me matar após a leitura da crítica, um recado: não, não é um filme horrível. Essa é a maior dor que tive após a sessão: é um filme muito empolgante. Afinal, o que são dinossauros para nerds (se você pensou no Ross de Friends, fez bem)?

Além disso, o filme é muito bem dirigido. O diretor Colin Trevorrow filma as cenas de ação de maneira clara e limpa, de maneira que o espectador saiba o que está acontecendo em tela sem confusão. Além de filmar criativas e belas transições de certas cenas do filme (repare a cena que mostra um dos meninos olhando para a vista da ilha, de maneira que a câmera acompanha a sua visão até chegar numa outra locação na qual a cena seguinte acontecerá). Outro ponto positivo na direção do longa é o tom despretensioso com  que a trama é revestida. Basta ver o diálogo no qual um dos funcionários do parque diz para o outro "Sabe, eu preferia muito mais o 1o. Era mais clássico, os dinossauros eram mais legais. Não esses híbridos". Saber rir de si mesmo é muito positivo para um blockbuster (vide os filmes da Marvel).

Mesmo com o tom despretensioso, o filme não deixa de prestar tributo e reverenciar o filme original de 1993. Da maneira com a qual um personagem diz uma frase (em certo momento, o criador do parque repete uma frase dita por Jeff Goldblum no 1o filme, chegando a botar os óculos escuros característicos do personagem), à maneira com a qual a música tema surge nos primeiros minutos de duração. Tudo serve para resgatar o sentimento de nostalgia que os fãs do 1o Jurassic Park sentem, e devo dizer que funciona muito bem. Eu mesmo (que não sou fanático pela franquia) me senti empolgado na primeira metade do filme.

Já a segunda metade......



Como eu já afirmei no início da crítica, o maior problema de Jurassic World é seu roteiro. Que mistura uma série de ideias oriundas de antigos possíveis roteiros para o filme, de maneira que nenhuma delas chega a ser plenamente desenvolvida. Se o filme focasse apenas na trama principal (monstro invencível foge e gera terror no parque), esse problema não existiria. Mas além dessa trama  ser deixada de lado, outros focos narrativos são apresentados até o final do filme (e não estou exagerando: uma delas surge faltando 10 minutos de projeção). Além da criatura aterrorizante temos também: exército querendo usar os dinossauros no campo de batalha, laboratório de genética fazendo híbridos de dinossauros com animais e humanos, divórcio dos pais dos meninos protagonistas, entre outros que não revelarei pra poupa-los dos spoilers.

Mais problemática ainda é a suspensão de descrença do roteiro, visto que existem vários momentos do filme que parecem questionar a inteligência do espectador. Como quando alguns personagens caem num rio, e minutos após saírem resolvem acender uma tocha com os fósforos guardados no bolso do coadjuvante x. O que dizer então da mocinha que passa o filme inteiro correndo de salto alto num solo irregular de uma ilha selvagem?
Ou então, perceba como os poderes do monstro só são utilizados pelo mesmo quando é conveniente pro roteiro. Para descobrir onde estão escondidos e matar 8 personagens genéricos, tudo bem o monstro utilizar a sua visão térmica. Mas quando o casal mocinho do filme se esconde atrás de um carro, o dinossauro resolve utilizar somente o sentido da visão.

O que dizer então da unidimensionalidade dos personagens, visto que nenhum deles é plenamente apresentado como uma pessoa real ao longo da trama. A começar pelos meninos: um deles gosta de dinossauros, o outro é o adolescente comfortably numb que só quer saber das menininhas. Agora o dono do parque: é um milionário que queria fazer um parque divertido (até dou o braço a torcer, em certo momento o roteiro chega a fazer o personagem flertar com o milionário bondoso do 1o filme, que amava os animais. Mas isso é esquecido). Agora o casal protagonista: eles sairam uma vez, agora se odeiam. Ele é um militar, e ela é uma donzela burocrata que ao longo do filme vai perdendo as roupas (ela só não é pior que a personagem de Megan Fox em Transformers, porque em UMA cena ela faz algo de útil. O resto do filme, ela é só a donzela peixe fora d'água em perigo.

Jurassic World não é um filme ruim como parece. O elenco é convincente, o diretor é competente, a trilha sonora de Michael Giacchino é espetacular (conseguindo passar da emocionante  música tema, à trilha aterrorizante do ataque dos pterodátilos), a diversão permeia o filme todo (lembra do sadismo divertido que era ver as pessoas sendo devoradas em Jurassic Park? Jurassic World leva isso a outro nível). Porém, é impossível deixar de reparar que com um roteiro melhor revisado, a experiência de assistir ao filme seria inesquecível. Pois o filme apresentado aqui faz saltar aos olhos o fato que isto é apenas um produto descartável.

Nota: 6,5