terça-feira, 2 de junho de 2015

Crítica: O Que Fazemos nas Sombras


O terror e a comédia são gêneros que andam de mãos dadas, ambos provocam reações imediatas no espectador (o riso e o grito) e ambos devem gerar sensações que durem após a sessão (a felicidade, e o pavor). Assim, não demorou muito para que surgissem as comédias de horror. Filmes que misturavam os dois gêneros, de maneira que nenhum dos dois ficasse desfalcado. Era engraçado demais para ser um terror, e assustador demais para ser uma comédia. Existem inúmeros clássicos com esta proposta: Gremlins (de Joe Dante), Um Lobisomem Americano em Londres (de John Landis), A Noite dos Arrepios (de Fred Dekker).

O sub-gênero permaneceu apagado por certo tempo, até que em 2004 o diretor Edgar Wright (meu ídolo, sim) lançou uma comédia de horror tributo aos filmes de zumbis. O excelente Shaun of the Dead, que mesmo sendo lançado de maneira independente (é um filme britânico de zumbis, o que você queria?) conseguiu muito sucesso. E desde então, pouquíssimos filmes sequer chegaram a arranhar a superfície de ser a nova comédia de horror do século 21. Até que surge, O Que Fazemos nas Sombras. Longa-metragem que homenageia os filmes de vampiro, como Shaun of the Dead fez com os zumbis. E tão bom quanto.

Válido dizer que como o filme de Edgar Wright, O Que Fazemos nas Sombras é um filme pequeno. Lançado por neozelandeses, e distribuído de maneira pouco comercial (na realidade, não sei se será lançado comercialmente no Brasil. Foi lançado no Fantaspoa-festival de fantasia de Porto Alegre-mas acho que ficará por aí), a produção não tinha um vasto orçamento de milhões como dispõe tantos cineastas medíocres. O fator determinante aqui foi a originalidade, e a habilidade dos envolvidos.

Na trama, um grupo de pessoas começa a documentar em vídeo a vida de alguns vampiros. São estes Viago (Taika Waititi), Vladislav (Jemaine Clement), Deacon (Jonathan Brugh) e Petyr (Ben Franshaw). Quatro vampiros que tentam viver na Nova Zelândia, sem chamar a atenção. Além de tentar solucionar os problemas que surgem por serem vampiros ("Como vou conseguir verificar se estou arrumado pra night, se não consigo me olhar no espelho?" diz Deacon em certo momento),



O Que Fazemos nas Sombras é um mockumentary, ou seja: um documentário falso. Como os filmes de Sacha Baron Cohen (Borat e Brüno), ou então A Bruxa de Blair. Mas pode-se dizer que a maior influência do gênero certamente é This is Spinal Tap. Filme de Rob Reiner que mostrava um grupo de documentaristas, acompanhando uma banda de metal que não sabia conviver entre si.

A influência se torna mais clara, por conta dos arquétipos que são mostrados no filme. Como em This is Spinal Tap, temos o rebelde, o membro da família mais velho, o apaziguador de ânimos. Isso não é um demérito, válido dizer. Visto que os personagens de O Que Fazemos nas Sombras são muito bem desenvolvidos, e recheados de características fascinantes. Tome por exemplo, Vladislav. Um dos mais velhos do grupo, portanto extremamente aborrecido com sua vida. Tentando achar alguma diversão, em orgias com góticas ou em matar jovens fãs de Crepúsculo. Além de seu sotaque, vestes e cabelo remeterem imediatamente ao Drácula de Gary Oldman.

Dá pra ficar um dia inteiro contando as inúmeras referências ao cinema de vampiros, existentes em O Que Fazemos nas Sombras. Há um carinho e respeito da parte dos cineastas, que é pouco visto no cinema (que também havia em Shaun of The Dead, veja só). Como por exemplo, no vampiro Petyr. O mais animalesco, o mais velho e o mais assustador do grupo. Nada mais justo que seu visual remeta imediatamente ao mais animalesto, velho e assustador vampiro do cinema: o Nosferatu interpretado por Max Schreck.



Válido dizer, que não são só de referências que deixariam qualquer fã de terror feliz que se vale o filme. Este é verdadeiramente engraçado, lembrando em muito a série Flight of the Conchords. Série da Hbo co-criada pelos diretores do filme, que apostava num humor que apostava no nonsense do cotidiano. Portanto, a maior ironia do filme é o fato que a maneira com a qual os humanos levam suas vidas, os torna muito mais assustadores que o quarteto de vampiros protagonistas do filme.

Além das fantásticas gags que mostram como os vampiros aproveitam suas noites ao seu modo, como por exemplo: quando vão a uma balada. Basta lembrar que para entrarem em algum lugar, os vampiros precisam ser convidados. Mas como fazer um segurança convidar para sua casa noturna, um grupo de indivíduos tão esquisitos? Ou então: qual dos vampiros limpará a bagunça que toma a casa, após massacrar um grupo de pessoas? Além de quebrar alguns dos mitos que permeiam as histórias dos chupadores de sangue ("Acho que bebemos sangue de virgens porque soa cool", confessa Vladislav enquanto beberica um coquetel suspeito).

Se há um problema no filme, este é causado pelo seu formato de documentário. Em diversos momentos, a ação de documentar o cotidiano dos personagens não sobrevive à suspensão de descrença tornando-se assim inconsistente (não darei spoilers da cena em questão, mas garanto que vocês perceberão). Se um diretor aposta num formato para seu filme, este deve ser seguido até o final. E não abandonado quando for conveniente (um problema que também surgiu em Distrito 9).

Isso não prejudica a experiência de se assistir O Que Fazemos nas Sombras, talvez a comédia mais inteligente que sairá no ano de 2015 e um dos melhores exemplares da comédia de horror já surgidos. Uma pena que com a má vontade das distribuidoras, pouquíssimas pessoas poderão constatar isso.

Nota: 9,0