sábado, 23 de maio de 2015

Crítica: Mad Max- Estrada da Fúria



Uma franquia como Mad Max (que fez MUITO sucesso nos anos 80) poderia ter sofrido muito nas mãos de produtores, que visando apenas o lucro comprariam os direitos da série, e contratariam um diretor de ação qualquer pra dirigir um novo capítulo. Até mesmo, realizando um remake ou um reboot. Felizmente, o diretor da trilogia original,George Miller, já estava pensando em dirigir um 4o filme há muito tempo. E além de ter um roteiro pronto, já havia garantido seu posto como diretor.

Após a sessão de Mad Max-Estrada da Fúria, o espectador tem que cair de joelhos e agradecer aos deuses do cinema. Pois só a mente insana e brilhante do diretor poderia trazer vida a um filme tão bem realizado, tão épico e tão louco (a palavra realmente é essa). Além de levar-se em conta que pouquíssimos longas de ação do século 21 conseguiram ser tão competentes quanto este, é muito válido dizer que o novo filme em nada deve à trilogia original.

Pra quem não sabe, a trilogia Mad Max é um caso a parte na história do cinema. Pois, apesar de todos serem dirigidos e roteirizados pelo mesmo artista, não poderiam ser mais diferentes. O 1o filme mostra um mundo em desordem, no qual um policial chamado Max (Mel Gibson) tem sua família assassinada por uma gangue de motoqueiros, e parte em vingança. Já no 2o, este mesmo mundo em desordem sofre um apocalipse. Assim, o mundo se torna um deserto e todos lutam por gasolina. Max vaga sozinho por esse mundo, após ter realizado sua vingança. E o 3o filme (que a maioria das pessoas considera o pior da franquia), mostra Max indo de encontro à uma cidade comandada por uma rainha (Tina Turner), e tendo no meio do caminho que salvar um grupo de crianças perdidas.

Enquanto os dois primeiros filmes são extremamente violentos (além de extremamente cartunistas e exagerados), o 3o longa tem um tom muito mais leve e até mesmo engraçado. Um reflexo dos filmes de maior bilheteria da época (Star Wars, Indiana Jones), que não combina com a proposta de Mad Max.

Três filmes muito diferentes entre si, assim nada mais justo que o 4o filme também seja independente de uma cronologia.




Definido por George Miller como uma revisitada aquele universo, Estrada da Fúria começa com o pé no acelerador. Mostrando Max (agora vivido por Tom Hardy) tendo que fugir de um grupo religioso, comandado por um monarca cruel chamado Immortan Joe (Hugh Keays Byrne, que viveu o vilão Toecutter, no 1o filme da franquia). Com o passar do tempo, Max percebe que não é o único que repudia o vilão, tendo auxílio de uma guerreira chamada Furiosa (Charlize Theron) para fugir.

É preciso dizer que Estrada da Fúria é um longa sensorial, portanto não atenha-se a roteiro. Este é um filme de ação no sentido mais literal da palavra (visto que o filme é literalmente, uma longa perseguição). Portanto, não espere que (como praticamente todos os filmes recentes do gênero) surja um plot twist ao final da projeção. Da fotografia grandiosa capaz de capturar a grandeza do deserto desolador, à trilha sonora surtada (que em alguns momentos mescla música tribal, com solos de guitarra que parecem ter vindo do inferno), tudo visa deixar o espectador como os personagens: completamente louco. Assim, não estranhe se ao final você sentir que recebeu uma injeção de adrenalina.

Para que esta crítica perca esse caráter de tributo à George Miller, irei analisar os aspectos técnicos que as críticas deste blog sempre abordam. A começar do elenco, que por mais reduzido que seja (são pouquíssimos os atores, se comparados ao time de dublês) cumpre muito bem seu papel. Como Tom Hardy, que assume o papel de Max de maneira completamente diferente a Mel Gibson. Seu Max é um personagem muito menos carismático que o visto na trilogia, mas ainda assim exibe uma característica até então não abordada. Aqui, Max é um homem que após ter perdido sua família, isolou-se da sociedade (não é a toa que em sua 1a aparição, possua barba e cabelo dignos de um eremita). Assim, as suas (poucas) falas soam muito mais como grunhidos de um animal. Isso apenas realça a hostilidade e a tensão de quando está em cena.

Ainda assim, não é Max o verdadeiro protaonista de Estrada da Fúria. E sim, Furiosa. Que interpretada Charlize Theron, lembra muito mais o Max dos filmes originais do que o novo Max. Muito mais carismática, ágil e complexa que o falso protagonista. A personagem pode muito bem entrar na galeria das grandes protagonistas femininas do cinema, ao lado da Ripley (Sigourney Weaver) de Alien, e a Noiva (Uma Thurman) de Kill Bill.




Outro aspecto fascinante do filme, é a utilização de efeitos práticos. Visto que George Miller detesta cgi, todas as cenas de capotagens, batidas, explosões foram realmente feitas na locação. O que atrasou o filme em anos (numa pesquisa rápida, achei uma notícia das filmagens postada em 2009). O que torna tudo mais brutal e menos artificial, portanto caso assista em 3d não estranhe se sua cabeça tentar desviar de alguns dos destroços de uma batida.

Mas a verdadeira cereja do bolo de Estrada da Fúria, encontra-se na mitologia do universo do filme. Se nos três primeiros filmes, havia uma insinuação de culto pela gasolina, aqui isso é elevado a enésima potência. A cidade que Immortan Joe comanda, tem uma religião que louva o rugido do motor, o cheiro de gasolina, e os calos na mão oriundos de muito tempo de pilotagem. Observe por exemplo, que o totem daquela sociedade é um volante (que eles seguram acima de suas cabeças, enquanto gritam "V8").  Além das misturas de diversas culturas e religiões, como por exemplo o nome dos guerreiros da guarda pessoal de Immortan Joe: kamacrazys. Ou então, o fato desses guerreiros terem o Valhala (o céu da cultura nórdica) prometido ao terem uma morte gloriosa.

Insano, excitante e ensurdecedor são as melhores palavras para descrever Mad Max-Estrada da Fúria. Filme que além de fazer jus à trilogia original, introduz novos tijolos à fantástica mitologia do ozploitation (nome usado pra definir filmes pós-apocalípticos passados na Austrália), apresentada ao mundo em 1979. O único demérito: não deveria ser V8 o que deveria ser cultuado no filme. E sim, o nome de George Miller. Que aos 76 anos, atropela o cinema de ação de diretores jovens como Michael Bay.

Nota: 10