segunda-feira, 23 de março de 2015

Critica: Vício Inerente



O diretor Paul Thomas Anderson se tornou notável na minha vida de cinéfilo quando assisti ao maravilhoso Embriagado de Amor, filme que me apresentou ao cineasta. Por mais que o filme tenha me feito rir, passei a maior parte do tempo com agonia, pesar e tensão enquanto acompanhava e torcia por Barry Egan (ainda o melhor papel da carreira de Adam Sandler).

E eis sua particularidade: O humor de Paul Thomas Anderson é extremamente singular, bem calculado e politicamente incorreto.

Assim, imaginem minha surpresa ao assistir Vício Inerente, seu mais novo filme que, ao contrário dos outros, é inteiro cheio de momentos engraçados, que me levaram à gargalhada. É, de fato, uma surpresa, visto que O Mestre, filme anterior de Paul Thomas Anderson, seja talvez seu mais intenso.

A questão é que mesmo sendo, de longe, o filme mais engraçado do cineasta, os diálogos intensos, agoniantes e pesados entre personagens que carregam dolorosas bagagens estão lá. E, talvez, seja só em um determinado momento (já avançado) do filme, que o espectador perceba que tudo o que fora tratado como comédia até então, em uma outra abordagem, seria extremamente chocante e incômodo.

Vício Inerente é um noir psicodélico, stoner, frenético e absolutamente bem realizado.



O filme se passa nos anos 70 e o protagonista é Larry Sportello, ou simplesmente "Doc" (Joaquin Phoenix), um detetive particular que investiga casos diversos, com uma particularidade: ele é viciado em todo tipo de droga imaginável, de maconha até gás de dentista. Aliás, não me lembro de nenhuma cena na qual Doc não esteja completamente maluco no filme todo.

Ainda amargurado pelo término do relacionamento com Shasta Fey (Katherine Waterston), ele recebe uma visita desta, que revela que está tendo um caso com o milionário Michael Z. Wolfmann (Eric Roberts), e que provavelmente estaria envolvida em uma intriga com Sloane (Serena Scott Thomas), a esposa do milionário, que quer interná-lo num hospital psiquiátrico e tomar seu dinheiro.

Algo que se agrava quando Wolfmann e Shasta Fey desaparecem. Assim, Doc começa a investigar o desaparecimento de sua ex, assim como outros casos que acabam se mostrando relacionados com sua busca maior.

É comum ficar um pouco perdido, já que Vício Inerente não teme em bombardear o espectador com informações, personagens e situações absurdas. Seus personagens são todos alucinados, seja pelas drogas, por inquietudes internas ou, em diversos casos, os dois.

O filme cria uma sátira absurdamente alucinante e over dos anos 70, na qual não se poupam cabelos estranhos, hippies e mulheres peladas em excesso (porém jamais a objetificar ou até mesmo erotizar). Além disso, o filme se torna diferente dos outros trabalhos de Paul Thomas Anderson ao focar bastante na comédia, seja em colocar os personagens em situações absurdas ou em simplesmente nos oferecer um duradouro plano no qual Doc (louco, como pode ser suposto) observa, indignado, o seu colega devorando uma banana no espeto; ou quando vemos, em câmera lenta, o personagem trombando com alguém na rua e caindo, enquanto a narração em off nos conta detalhes importantes da história.

Porém, como eu havia dito, Vício Inerente, apesar de MUITO engraçado, tem sua parcela de assuntos pesados, que se não tratados com a abordagem psicodélica escolhida pelo diretor, seria facilmente um filme de drama fortíssimo. Afinal, dentistas cocainômanos que drogam seus pacientes, mães viciadas em heroína e abuso policial são temas que poderiam facilmente levar ao choque caso não estivéssemos ocupados gargalhando.
Mas, lógico, o filme "abaixa a bola" em diversos momentos, e quando quer ser levado a sério, ele consegue. Os personagens, todos constantemente amargurados, eventualmente têm conversas inquietantes que em nada devem às tensas interações entre Freddie Quell e Lancaster Dodd em O Mestre.  Aliás, Vício Inerente conta com um monólogo dito por Shasta Fey que pode ser considerado facilmente um dos momentos mais memoráveis da filmografia do diretor.

E se o roteiro e a direção seguem uma abordagem adequada à história contada, o filme não seria tão eficiente caso as atuações não chegassem ao nível. Joaquin Phoenix, claro, está absolutamente perfeito como Doc, não apenas mostrando uma habilidade incrível para a comédia, como também evocando os sentimentos que o personagem enterra nas drogas com sutileza. Outro destaque é Josh Brolin, um policial durão que também tem seu lado frágil escondido atrás da habitual cara de mau do ator, mas que aqui protagoniza diversos momentos cômicos e trágicos.

Mas a atuação mais memorável é de Katherine Waterston, que protagoniza o monólogo que citei acima.  Pouco conhecida, a atriz surpreende por dar uma profundidade incalculável a Shasta Fey, personagem que passa a maior parte do tempo sumida. Vou evitar falar mais para não estragar a experiência.

Pecando apenas pelo excesso de informação e por acabar revelando-se um pouco cansativo em seu terceiro ato, Vício Inerente não decepciona nem aos fãs do incrível Paul Thomas Anderson, mas também não decepciona àqueles que procuram uma boa experiência cinematográfica.

Nota: 8/10