quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Crítica: O Jogo da Imitação


Filmes sobre mentes geniais são recorrentes, basta se observar a quantidade de exemplos que podem-se citar com o tema. Do magnífico Amadeus ao emocionante Uma Mente Brilhante. O Jogo da Imitação exibe atuações tão poderosas quanto as de Amadeus, e exibe um protagonista com  problemas psicológicos similares ao de Uma Mente Brilhante. Mas é fato que Alan Touring (Benedict Cumberbatch) foi considerado pelos demais um gênio muito mais modesto que Mozart e John Nash, isso não se deve pela seu intelecto (tão brilhante quanto a dos dois citados) mas por um fato simples: Touring era homossexual.

Não entendeu? Já explico. Na época, era proibido na Inglaterra ser atraído por indivíduos do mesmo sexo. Correndo risco de ser condenado a prisão, ou a castração Química. Por conta da sua orientação sexual, Alan Touring foi apagado da História. Mesmo tendo realizado ação chave pro fim da Segunda Guerra Mundial.

Esse é o plot de O Jogo da Imitação, filme que tem como maiores méritos o seu elenco e sua fantástica história. Mas que em termos de direção e roteiro, são mais do mesmo caminhão de cinebiografias medianas que surgem todos os anos.

Na trama, Alan Touring (Benedict Cumberbatch) é chamado pelo serviço secreto britânico para decodificar as mensagens criptografadas dos nazistas. Junto dele, todo um time de matemáticos e mentes brilhantes trabalham dia e noite em esforço inútil de desvendar os códigos (visto que toda noite, a máquina decodificadora muda sua "programação". Tornando todo trabalho anterior já feito pelos ingleses, inútil). Porém, Touring lança um projeto de construir uma máquina similar a dos nazistas.

critica oscar 2015



É chover no molhado elogiar Benedict Cumberbatch, porém mais uma vez o Sherlock da BBC conseguiu conferir uma atuação brilhante. Já digo que o restante do elenco também consegue segurar as pontas (destaque para Matthew Goode, o Ozymandias de Watchmen e o Charlie do subestimado Segredos de Sangue), porém Cumberbatch consegue chamar atenção pra si  até mesmo em uma cena  que seu personagem apenas está sentado trabalhando (é possível sentir toda a inquietação do personagem, sem que este diga uma palavra). Sem lembrar em nada a brutalidade e selvageria do seu Khan, ou a sociopatia de seu Sherlock Holmes. Seu Alan Touring é recheado de particularidades. Note por exemplo, a inocência com a qual o gênio responde as perguntas de interlocutores no início de sua vida, e a frieza e melancolia presentes nas respostas dadas no fim da mesma (mesmo homem, porém mais maduro).

Ou então, a maneira com a qual a respiração de Touring muda (ficando cada vez mais pesada) quando alguém age como se fosse destruir sua criação. O ápice da interpretação  chega no fim de sua vida, quando já abalado por conta da medicação imposta pelo tribunal britânico Alan não consegue mais fazer suas tão amadas cruzadinhas.

Infelizmente, é preciso dizer que a qualidade da atuação de seu ator protagonista não pode também ser dita da direção do longa. Creio que por conta de ser o 1o trabalho no cinema norte-americano do diretor norueguês Morten Tyldum (ou seja, a mão dos produtores pesa muito: na edição, ou até mesmo em revisões do roteiro), em muitos momentos parece estar-se vendo um telefilme do History Channel na tela do cinema. Uma direção sem marca nenhuma de autor, sem inventividade alguma. O clássico "apontar e filmar" que surge tão recorrente nos filmes de Oscar (sem citar nomes).

critica oscar 2015


Outro sério problema do filme (e uma tecla que mais uma vez vou bater numa crítica) é o roteiro tolo. Não pela história que está querendo contar (muito pelo contrário, esta tem toda força necessária pra sustentar o filme sozinha) mas pelos momentos em que tenta arrancar suspiros da platéia. Se em determinado momento alguém fala sobre "a força dentro das pessoas mais ordinárias", tenha certeza que essa fala será repetida mais 4 vezes. Tem algum eco no filme? Não. Apenas o roteiro não confia o suficiente no espectador para presumir que este irá se lembrar da frase, nos momentos que ela deve ser lembrada. Portanto, da-lhe repetições até que o próprio Alan Touring comece a pensar "Acho que combinaram de falar isso pra mim, não é possível. Até o carteiro me disse isso quando dei bom dia".

Mesmo assim, O Jogo da Imitação é um bom filme. Muito melhor do que a maioria dos filmes que surgem nessa temporada de Oscars (As Aventuras de Pi, to falando contigo), e contando com uma história e um ator protagonista que carregam  o longa nas costas.
Pena que o restante da produção seja tão estéril, mostrando-se tão inexpressivo quanto o cabelo do personagem de Mark Strong.

Nota: 7,5

Qual nota você daria para o filme?