domingo, 15 de fevereiro de 2015

Crítica: Cinquenta Tons de Cinza (ou: um tapinha não dói)

critica
Resenha do filme 50 Tons de Cinza

Vamos falar sobre sadomasoquismo?

50 Tons de Cinza estreou dia 12 de fevereiro, como quem se adianta ao Valentine's Day. Com ele vieram salas de cinema cheias de mulheres de meia idade e críticas nada construtivas. 

O filme de 50 Tons de Cinza conseguiu o impossível: fazer com que o livro pareça bom. Se havia algo de promissor na estória era a retratação sem tanto preconceito do mundo do sadomasoquismo. Era um livro sobre uma mulher que gostava de ser controlada, que gostava da mistura de dor com prazer e que concordava com aquilo. De outra forma isso é estupro. Era um livro sobre uma pessoa descobrindo o mundo do sexo. Claro que homens controlando mulheres não é meu assunto preferido, a não ser que seja para criticar. Mas era um livro, ficção má escrita, sobre sexo.

Creio que o sucesso dele se deu pelo erotismo, pelos milhares de orgasmos que aquela mulher tinha (digamos que muitas queriam ser ela). É um livro erótico. Fazer um filme de um livro erótico sem ser pornô é um desafio e tanto. Mentira, desafio é quando é possível.
50 tons de cinza

A tela mostrou uma Anastasia feminista, que não consegue parar de gemer, e um Sr. Grey que mais parece um cachorrinho doméstico: quem late não morde. A diretora conseguiu que uma estória sobre sadomasoquismo se transformasse num filme de romance água com açucar. Pode isso?
Agora, papo reto, aquele cara tem um quarto vermelho com todo aquele aparato só pra passar uma pena de pavão no pé da moça? Ele tem mil chicotes e 5 mil varas diferentes e resolve ficar dando tapinhas de leve. Todo aquele contrato, quartos separados e segredos pra uns tapas na bunda?
Pornografia para mulheres. O que isso deveria significar? Que mulheres se excitam com homens ricos? Ou que elas gostam de ser controladas? Ou que nada importa desde que o cara seja bonito? Que mulheres fazem sacrifícios enormes para ficar com os homens que querem?

A Anastasia do longa metragem vive se fazendo de difícil, mas olha, se a moça realmente não quisesse aquilo ela não iria gemer que nem uma ambulância, depois fica com frescura dizendo que não gostou. Óbvio que pensando em outra esfera, eu acho muito mais aceitável sadomasoquismo durante o sexo do que aquele absurdo de ele decidir o que ela come. Então que ela reclamasse disso, oras, é esse o problema. Porque do sexo ela gosta. Que eu saiba quem não gosta não goza.
O filme mudou completamente a perspectiva, fazendo com que ela  o controlasse. Reforçando o esteriótipo de que mulher tem controle sobre o homem negando ou dando sexo, e mantendo o status do homem como animal que não consegue se controlar. E olha, essa de moça esperando pelo homem da sua vida pra se entregar já tá batida, né?

O cachorrinho fica dando voltas ao redor do próprio rabo pra tentar mostrar o quanto é rico e perigoso. É uma criança obssessiva tentando chamar a atençao. Ele persegue, invade a privacidade, segue e monitora os passos de Anastasia. O homem é louco, isso é perseguição e não romance.

As vias de fato nunca acontecem, quando ele faz realmente alguma coisa, nem tanta assim, ela sai correndo e chorando. Meu bem, Ana, você entra num quarto vermelho cheio de plugs, cintos, mordaças e instrumentos de tortura e você acha que não vai ter dor? E o que ainda prende ela ao seu querido Christian? Nada, o único vínculo deles é o sadomasoquismo.

Mesmo as cenas de sexo, que talvez fossem o que salvaria o filme, não ficaram tão boas assim.
Até a fotografia do filme não estava legal, me deu vontade de ajustar a dioptria da minha câmera.
Não posso achar nem o livro nem o filme bons, mas o filme em especial me fez querer gritar com o mundo.

Mais uma vez eu perdi a fé na humanidade, a fé naquelas mulheres que assistiram ao filme cruzando as pernas. É sério, não tenho nada contra pornografia, mas façam alguma coisa de qualidade, por favor.
Esse tipo de sucesso educa as pessoas e daqui a pouco vai ter gente achando que tudo bem o cara pôr um gps no seu computador, é sinal de amor. Ou que comprar roupas e um carro é que é romântico. Mas que fetiches são condenáveis.
O que 50 Tons de Cinza podia trazer de bom era a abertura para conversar sobre sexo e fetiches fora do comum. O que aconteceu foi totalmente o contrário. Virou cor de rosa. Nicholas Sparks com algemas. 

Nota: 2,0


Crítica por Júlia Orige