sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Crítica: Boyhood- Da Infância à Juventude


"Deixe-me ir, eu não quero ser o seu herói. Eu não quero ser um grande homem"


A música Hero da banda Family of The Year, se encaixa como uma luva na trilha-sonora de Boyhood. E ao mesmo tempo, define bem a filmografia de Richard Linklater. Versátil diretor texano (que também dirigiu: Escola de Rock e a trilogia Antes do Amanhecer-Antes do Por do Sol-Antes da Meia Noite) que desde seus primeiros trabalhos (o bom Slacker, e o sensacional Dazed and Confused), exibe um estilo de cinema único. Com tramas simples, recheadas de bom humor, diálogos filósoficos e contando com altíssimos níveis de atuação e direção.

Boyhood é um filme que chegou aos cinemas impressionando (já é do conhecimento de todos que Linklater escalou o ator protagonista quando este tinha 6 anos, e filmou-o durante 12 anos de sua vida) mas que nada tem de pretensioso. Muito pelo contrário, Boyhood é um filme leve que por mais que em certos momentos torne-se muito americano (já falo disso) tem como tema principal os pequenos momentos.




Válido dizer logo de início que este não é um longa clichê sobre crianças, temi assistir a um filme que tivesse os clássicos pontos de roteiro sobre juventude. Mas felizmente, Boyhood desvia desses clichês com folga. Se em determinado momento achamos que o filme irá abordar que o protagonista sofria bullying no colégio por conta de um empurrão no banheiro, logo isso já é deixado de lado. Quando pensamos que o filme irá ter a clássica cena de queda nas drogas quando vemos um baseado em cena, isso já é passado.

O maior trunfo de Boyhood é mostrar que a vida é composta por pequenos momentos, que no futuro se mostrarão muito pequenos e insignificantes para o mundo. Mas que com certeza, definiram (e ainda definirão) o protagonista ao longo dos anos. Portanto, sim: Boyhood é um filme com que a platéia pode se identificar facilmente. Não, não estamos falando de um filme que investe em longas cenas melodramáticas, a fim de causar lágrimas fáceis. Certamente existem momentos tristes, mas estes são abordados da mesma maneira que os momentos felizes. Essa despretensão torna Boyhood filho legítimo de Linklater, com direito a ecos de Dazed and Confused (o que é curioso, afinal Boyhood começa em 2004 e Dazed and Confused é um filme assumidamente setentista) e Escola de Rock (a irmã mais velha parece ter saído da banda formada pelo personagem de Jack Black).

Outro mérito do longa-metragem, foi a opção de ter gravado durante 12 anos a vida do menino. É extremamente significativo ver alguém aos poucos envelhecendo tantos anos em tão poucos minutos, isso porque estou falando de um rosto desconhecido (o ator Ellar Coltrane não é famoso). Assim, é impactante ver um ator famoso como Ethan Hawke ganhar em questão de minutos rugas, e uma voz rouca claramente afetada pelo cigarro.


Não acho que Boyhood seja um filme para se falar do elenco, dada a proposta da trama. Porém, sim: todos estão muito bem. Ethan Hawke e Patrícia Arquette interpretam personagens incríveis, amadurecendo não apenas fisicamente, mas também internamente. Assim, não é surpresa ver como que em certo momento o pai interpretado por Ethan Hawke relembre uma fala que disse 3 anos antes e perceba quão imaturo era.

Igualmente fascinante de se acompanhar o crescimento é o ator Ellar Coltrane, que do começo até o fim se mostrou alguém extremamente confiante e tranquilo. Mesmo em momentos claramente tensos (o maior deles, o padrasto alcóolatra) o jovem jamais deixa se abalar. E é emocionante ver como que ao final do filme, o personagem consegue construir e seguir seu próprio caminho. Nada mais justo portanto, que o filme mostre apenas a perspectiva de seu personagem.



O único problema que consigo enxergar em Boyhood são as marcas americanas. Essas não prejudicam em nada o impacto do filme, e nem retiram o brilho deste. Claro, servem em alguns momentos como situadores do ano que está sendo mostrado (a Guerra do Iraque, a campanha de Obama). Mas é fato que um filme com âmbito de ser um conto universal sobre crescimento poderia ser menos restrito em termos narrativos. E investir mais em referências com caráter infanto-juvenil universais. Como quando é mostrado que tanto o menino quanto sua irmã eram fãs de Harry Potter, a ponto de irem no lançamento oficial do livro O Enigma do Príncipe. Funciona como situador de época, e mostra como que a cultura pop influencia a infância de muitos jovens.

E deixando claro: não tive problemas com as quase 3 horas de duração. Essas são conduzidas com leveza, e com o tempo necessário para se contar a história. De maneira que jamais torna-se cansativo assistir o desenrolar da história.

Boyhood é um filme único, trazendo na memória filmes que falavam tão bem da juventude/infância (me vem a cabeça o nome de Truffaut e seu Antoine Donel) mas que ainda não conseguiam transceder as barreiras do cinema e da realidade. Afinal, a conclusão final de Boyhood é similar ao discurso de Ferris Buller em Curtindo a Vida Adoidado: "a vida passa muito rápido, se você não parar e olhar ao redor pode perdê-la".

Nota: 10

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