quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Crítica: Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância


Riggan Thompson (Michael Keaton) se depara com a mais desafiadora crítica de Nova York, que prontamente revela que não importa qual peça o ator/diretor apresentará no dia seguinte: irá massacra-la sem piedade. Nisso, Riggan começa um discurso sobre a arte. Sobre como muitos podem passar na frente desta, e não enxergar nada. Pessoas como aquela crítica, que jamais conseguirão ter um vislumbre de criatividade. E que só conseguirão enquadrar em rótulos a vida, a beleza e a inventividade (afinal, não são essas características da arte?).

Apesar deste ser um dos raros momentos que Riggan não esteja exibindo seu (infladíssimo) ego, ou se portando como uma criança mimada a cena revela muito da verdadeira natureza de Birdman. Não apenas uma comédia que tira sarro de seus atores (já é do conhecimento de todos que como o ator Michael Keaton, Riggan perdeu sucesso após estrelar os primeiros filmes de uma série cinematográfica baseada em um personagem de quadrinhos: na ficção Birdman, na vida real Batman), um retrato do conturbado mundo do entretenimento ou uma viagem na mente conturbada de um artista. Mas sim, um filme sobre a natureza da arte.

Na história escrita pelo diretor Alejandro Iñárritu, Riggan (Michael Keaton) é um ator que busca novos tempos de glória. Assim, começa a produção de uma peça que promete traze-lo novamente para os holofotes de Hollywood ("Scorsese está na platéia, sondando atores pra seu novo filme" diz o seu empresário). Porém, para isso precisará amenizar uma série de "problemas". Como o novo ator escalado que é brilhante mas difícil de trabalhar (Edward Norton), a sua filha recém saída da reabilitação (Emma Stone) e a voz de Birdman que discute constantemente com ele.
birdman

Um aspecto digno nota para começar-se a falar de Birdman, é a direção do filme. O diretor Alejandro Iñárritu e o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, pensaram o longa como se este fosse um único e longo plano-sequência. Portanto, apesar de Birdman não ser realmente um filme conduzido por um único plano-sequência (algo que só pode ser dito do filme A Arca Russa, de Sokurov) em momento algum questionamos a existência de cortes. Pois, o filme foi pensado em ter cortes tão sutis que é quase impossível descobrir onde realmente houve um. Quase como um truque de ilusão, o corte surge mas jamais o visualizamos. Em alguns momentos, fica claro onde optaram por faze-lo (veja por exemplo o 1o de todo o filme, quando Riggan joga um vaso na parede), mas em outros nos resta apenas pensar: como? Resultando em um trabalho magnífico e único. Portanto, não dúvido (e nem questiono) que o Oscar de melhor fotografia seja dado a Lubezki novamente (ele ganhou ano passado por outros planos sequências, em outro filme dirigido por um mexicano: Gravidade).

Ainda que fosse impecável apenas na fotografia e direção, assistir a Birdman já valeria a pena. Mas felizmente, o filme é muito mais do que técnica. Conseguindo gerar riso, tristeza, compaixão e tensão. Não apenas por conta de seu magnífico roteiro (repare como que todo personagem tem sua razão de existir: do próprio Riggan, até a mulher que aplica a bombinha de sangue falso na hora da peça), mas também pelo sensacional elenco.

Impossível destacar apenas um ator: Edward Norton mais uma vez consegue ser genial e fazer rir (melhor: consegue rir de si mesmo, visto que como seu personagem é alguém difícil de se lidar em um set), veja como que este protagoniza a cena mais hilária de todo o filme. Emma Stone surpreende com um papel dramático extremamente complexo (repare como que a tatuagem da personagem, dialoga com toda sua história), que culmina no seu monólogo no qual diz ao pai tudo que sempre sentiu.



Mas quem vai levar todos os prêmios a que for indicado, e que surpreende (apesar de todos saberem quão excelente são suas atuações) é Michael Keaton. Mesmo já tendo uma galeria de personagens interpretados fascinantes (em Beetlejuice, Batman, na minissérie A Companhia), o protagonista de Birdman será visto no futuro como um marco na carreira do ator. Riggan é um dos personagens mais complexos e interessantes de todo cinema de 2014. Um ator alçado a fama como Ícaro (não é a toa que a fantasia do super-herói que o personagem interpretou tem longas asas), e que teve queda tão rápida quanto o voo. Um personagem extremamente egocêntrico, capaz de repreender a filha recém saída de uma clínica de reabilitação ao encontrar um baseado porque se encontrado por outra pessoa, poderia arruinar a sua carreira como ator e diretor.

Não nego, adorei Birdman. Raras vezes são mostradas obras do audiovisual sobre mentes insanas (os delírios do protagonista são sensacionais), e mais raras ainda os exemplares da lista que são realmente bons filmes. Entre os mais recentes, cito Cisne Negro e Sinedoque Nova York. Fico feliz em dizer que Birdman entra facilmente na lista, que como a obra pesadelo de Aronofsky e o teatro megalomaníaco de Kaufman, fala maravilhosamente sobre a natureza da arte. Insana, facilmente corrompivél mas sempre bela.

Nota: 10

Ps. (não leia caso não tenha visto o filme, spoilers vindo): o final de Birdman tem gerado muita discussão, portanto oferecerei minha interpretação deste. Penso que ao final,  Riggan alcança a redenção. O personagem passa o filme todo tentando se reinventar como ator, mas ao fim percebe que deve se reinventar como pessoa. Portanto, quando atira em seu próprio rosto simbolicamente está se tornando um novo homem. Perceba como o roteiro faz questão de falar que o tiro o desfigurou (o fez tornar outra pessoa), e como que as ataduras em seu rosto lembram a máscara de Birdman (uma dica de que a qualquer momento, aquele ser nojento pode voltar). Mas nada mais importa, enfim Riggan pode alçar voo. Para sua alegria, e de sua filha (Emma Stone). Portanto, nada mais justo que o último plano do filme seja um incluindo um olhar fascinado de Emma Stone (aproveitando seus enormes olhos azuis)

Se já viu o filme, diga-me: qual sua interpretação?