sábado, 20 de dezembro de 2014

Crítica: O Hobbit-A Batalha dos Cinco Exércitos


Em certo momento de A Batalha dos Cinco Exércitos, é mostrada uma cena na qual Thorin (Richard Armitage) pergunta a Bilbo (Martin Freeman) o que este está escondendo em seu casaco (pensando se tratar da preciosa Arken Stone). Quando na realidade, é um tesouro muito mais modesto: uma avelã retirada do jardim de Beorn (Mikael Persbrant). O hobbit logo explica, que quando voltar pra casa irá plantar aquela avelã. Para no futuro se sentar em sua poltrona, e pensar na aventura que teve enquanto a árvore cresce.

Além desta ser a melhor cena de A Batalha dos Cinco Exércitos, esta mostra algo fundamental no universo de Tolkien: o desejo de voltar pra casa (retratado utopicamente pelo Condado, um lugar pequeno mas extremamente aconchegante, o lar que existe no âmago de cada ser). Que sempre foi a força que movia os personagens na trilogia O Senhor dos Aneis. O que tornava o fim da saga muito mais interessante, visto que quando os 4 hobbits voltavam pra casa percebiam que não eram mais os mesmos. Após a jornada, estavam diferentes. Assim como os que assistiam os filmes.

Portanto, é um tanto triste pensar no quão estéril é a trilogia O Hobbit. Belíssima? Sem dúvida. Com cenas de ação espetaculares? Claro. Com efeitos especiais magníficos capazes de dar vida a algumas das mais fantásticas criaturas em toda a história do cinema? Fuck yeah! Porém, o sentimento que mais surge ao começo dos créditos do fim da trilogia é o de saudade. Dos bons tempos nos quais O Retorno do Rei realmente emocionava os espectadores que o assistiam. Ao final de A Batalha dos Cinco Exércitos, mesmo sendo o último capítulo de um filme sobre a Terra Média (por enquanto) jamais sentimos emoção por isso. Simplesmente, um último capítulo que não entristece os que assistem por quererem mais.

Comparar O Senhor dos Aneis com O Hobbit é uma tarefa ingrata e injusta, por mais que as duas obras compartilhem o mesmo autor estas  possuem tons extremamente destoantes. Enquanto O Hobbit é um livro para crianças (portanto, uma vastidão de criaturas mágicas muito maior que em O Senhor dos Aneis são mostradas), a trilogia do Anel é uma obra muito mais adulta (urgência define). Porém, é impossível evitar a comparação quando vemos que as duas trilogias possuem o mesmo diretor. O neozelandês Peter Jackson. Que tornou a comparação mais justa, ao conferir um tom muito mais similar ao Senhor dos Aneis do que ao Hobbit.



Assim: tem-se um guerreiro nobre que tem sangue real mas que não quer assumir o trono (Thorin), um duelo de magos (Gandalf contra o Necromante), uma batalha espetacular no último capítulo (a batalha título), a aparição dos espectros do anel. Porém, todos estes elementos são muito menos explorados na trilogia O Hobbit. Talvez este seja o maior problema dos três longas: por mais que tenha-se dado um tempo muito maior para se explorar os personagens, estes jamais realmente são explorados a ponto de cativar a platéia.

Pior: ao invés de dar o devido aprofundamento de personagens aos que realmente são essenciais a narrativa, o roteiro dá voz a personagens que sequer estão no livro. Como é o caso do personagem Legolas (Orlando Bloom), que é o maior fan service de toda a trilogia. Estando presente em dois filmes, puramente porque faz sucesso entre o público (não, eu não odeio o personagem. Porém, cada peça em seu devido tabuleiro. Não dá pra jogar War com baralho de Uno).

Claro, dou o braço a torcer por algumas coisas. As batalhas são sensacionais, por mais que seja tudo feito em cgi (enquanto o Senhor dos Aneis era tudo no peito e na raça, quando o cgi era empregado mais por questão de dimensão) há uma beleza na coreografia mostrada que impressiona. Basta ver a maneira com a qual os elfos saltam a barricada de escudos dos anões, a fim de matar o 1o front de Goblins. Ou então, a maneira com a qual Dain (Billy Connoly, sensacional) derruba Orcs 3 vezes maiores que ele.



O maior destaque no entanto, é o elenco. Que realmente faz um trabalho extremamente digno, de Martin Freeman com seu Bilbo Baggins até a ponta de Christopher Lee com seu Saruman. Todos vestem o personagem de maneira única, e é lamentável que muitos não tenham sido dados o devido tempo de cena (roubado por Legolas, okay parei).

Falando em tempo de cena, o que dizer do personagem Alfrid. Que aparece como um ridículo alívio cômico e desaparece do nada? Após a 1a aparição do personagem no longa, pensamos que este terá alguma relevância ao final da trama. Porém, não. Ele só estava ali pra irritar mesmo, e pra se vestir de mulher como um membro do Monty Python. Ou então, do último diálogo entre Thranduill (Lee Pace) e Tauriel (Evangeline Lilly). Parece ser oriundo de uma novela (além de extremamente contraditório, visto que minutos atrás o elfo deixava claro que não aprovava o romance de Tauriel com Kili).

Deixando claro: não achei o filme ruim. Peter Jackson teria que se esforçar muito para faze-lo, visto que possui muito talento e possui uma equipe que torna seus filmes extremamente dignos. Porém, não consigo esconder minha decepção com A Batalha dos Cinco Exércitos. Filme que tentou a todo custo ser um novo O Retorno do Rei, mas que infelizmente falhou.

Nota: 7,0

Ps: buscarei a versão estendida, que possui 30 minutos de cenas adicionais. Ou seja, muita coisa essencial pra narrativa foi removida do final cut. Agora, como um cineasta não tem controle pra mostrar a história que quer contar nas telas eu não sei....