terça-feira, 8 de julho de 2014

Critica: Transcendence


Um fracasso de bilheteria não indica que o filme em questão é necessariamente ruim, a prova disso são filmes como Scott Pilgrim, Blade Runner, Brazil e até mesmo Clube da Luta. Por conta disso, dei uma chance a Transcendence. Filme dirigido por Wally Pfister (diretor de fotografia dos filmes de Christopher Nolan), que possui um  elenco interessante (Johnny Depp e Rebecca Hall são apenas alguns dos nomes presentes) e que ainda pertence ao gênero de ficção científica.

Porém, em alguns casos é necessário prestar mais atenção: além de péssimos resultados nas bilheterias mundiais, o filme ainda recebeu críticas extremamente negativas. Este último fator, erroneamente ignorei. Eu gostaria de voltar no tempo: Transcendence não só é um filme mal feito, como também consegue ser absolutamente desinteressante. Em outras palavras: é um filme extremamente chato.

A trama até consegue animar um pouco: um gênio da computação (Johnny Depp) transfere sua consciência para uma inteligência artificial, após um atentado contra sua vida. Porém, o que sua esposa e seu melhor amigo (Rebecca Hall e Paul Bettany) aos poucos vão percebendo é que as intenções do cientista/máquina não são nada menos que nefastas.

Mas se prestarmos atenção, é apenas um recorte de conceitos de diversos outros filmes de ficção científica muito superiores.

Longas como O Passageiro do Futuro (todo o conceito da mente sem limites), Invasores de Corpos (a paranoia e a conspiração do 2o ato), A Origem (perceba como todos os personagens soam mais inteligentes do que realmente são). Apenas um adendo: nenhum destes conceitos é realmente bem desenvolvido. Não sei se é a falta de experiência do diretor (é o primeiro trabalho dele no posto, e convenhamos que ele era diretor de fotografia antes), ou a insegurança do terrível roteiro. Mas a história é de uma falta de originalidade que chega a espantar.




Outro sério problema na história é o mesmo que apareceu em longas como Prometheus (apesar deste ser o melhor filme do mundo, comparando com Transcendence): o roteiro não confia no seu público. Julgando a platéia retardada, as falas fazem questão de explicar em minúcias tudo. Sendo que não era necessárias as explicações. Isso é claro quando o roteiro não cria soluções patéticas para justificar certas ações (o que dizer do momento no qual um personagem diz "Arranjei uma maneira de voltar", mas esta nunca é revelada). Além do clássico problema do roteiro que julga ser mais inteligente que a platéia, portanto espere por muitas frases de efeito saindo da boca dos personagens.

Nem adianta reclamar da falta de desenvolvimento dos personagens, visto que eles nunca dizem a que vieram. Se os amigos próximos do personagem de Johnny Depp reparam o contraste do homem para sua forma máquina, o sentimento não é recíproco para com a platéia. Por uma simples razão: jamais temos a oportunidade de vermos as outras facetas das personalidades dos personagens. Isso infelizmente se aplica a todos os personagens em tela: Johnny Depp sempre surge falando pausadamente e sem ânimo (mais pelo fato de ultimamente o ator estar no piloto automático), Rebecca Hall desde o início é a mulher inconformada, Paul Bettany sempre é o amigo preocupado (apesar disso, é o melhor ator do filme) e Morgan Freeman parece repetir seu papel na trilogia Batman. No caso do personagem de Johnny Depp, isso é uma falha absurda. Jamais sentimos a mudança da personalidade deste, parecendo assim que o personagem sempre foi um babaca.

Jamais enxergamos a tridimensionalidade dos personagens, jamais sentimos simpatia por estes. Tudo por conta do péssimo e mal desenvolvido roteiro.

Porém, dou o braço a torcer: visualmente falando o filme é interessante. Não que seja um grande mérito (era o mínimo vide a antiga profissão do diretor), mas mesmo assim válido dizer que existem planos belíssimos envolvendo fenômenos naturais. Como por exemplo, o desabrochar de um girassol. Mas perceba que mesmo esses raros momentos são comprometidos pela falta de experiência do diretor: de tempos em tempos é empregado na tela um sem vergonha slow motion. Rendendo experiências divertidas numa sala de cinema (na minha sala a platéia riu no momento em que foi empregado o slow motion apenas pra mostrar: um caminhão passando por uma poça),







Okay, vocês já entenderam: detestei Transcendence. Por mais que haja toda uma série de questionamentos interessantes (a questão da natureza da consciência, por exemplo), o filme jamais dá espaço para o espectador refletir sobre estes. Preferindo gastar tempo em sequências de ação no mínimo duvidosas (o que é o clímax do filme? Alguém realmente achou aquilo empolgante?) e em plot twists estranhos (reparem como a importância da personagem de Kate Mara é reduzida ao longo do filme: de líder de grupo revolucionário, a figurante).

Uma série de adjetivos podem ser empregados para Transcendence: pretensioso (não, ele não é mais inteligente que um sci-fi de sessão da tarde: apenas finge ser inteligente), sem ritmo, desinteressante (aqui leia-se: chato). E o pior de tudo: mal feito. Com um elenco tão bom, e uma produção tão confiável (descobri que Christopher Nolan também produziu o filme) o mínimo que se esperava de Transcendence era o mínimo de desenvolvimento de roteiro. Um dos mais patéticos dos últimos anos.

Nota: 4,0