quinta-feira, 10 de julho de 2014

Critica: O Grande Hotel Budapeste


São raros os diretores que conseguem imprimir seu estilo em tela, de maneira que basta mostrar um frame do filme para que a platéia já identifique o autor que o produziu. Wes Anderson é um desses autores, mostrando que mesmo com poucos filmes (desde sua estréia em 94, o diretor fez apenas 9 filmes) tem todo o talento necessário para que no futuro seja encarado como um dos melhores cineastas norte-americanos dos últimos anos. Com apenas um detalhe: ele já é visto desta forma.

Os filmes de Wes Anderson são conhecidos pelos seus travellings (que buscam mostrar o interior dos ambientes construídos pelos filmes: da mansão de Os Excêntricos Teenenbaums ao submarino de A Vida Marinha com Steve Zissou), personagens falando olhando para a câmera (visto que a maioria dos personagens do diretor são losers, o ato de falar diretamente para a câmera sugere que o personagem sabe que como os demais personagens da trama, nós também iremos julga-lo), um design de produção magnífico (poucos filmes trabalham paletas de cor tão bem quanto os da filmografia do diretor), e atuações memoráveis do elenco.

Outra característica dos filmes de Anderson, é o tom quase infantil que permeia todo o universo dos personagens. Parecendo que tudo se passa numa grande casa de bonecas (alguns até mesmo afirmam que a falta de emoção/seriedade de alguns atores em cena, se deve ao fato de todos serem instruídos a atuarem de fato como bonecos: que são "brincados" por Wes Anderson). O Grande Hotel Budapeste não é diferente, e abraça o tom fabulesco de maneira excepcional: se as ações dos personagens sugerem que tudo se passa num mundo adulto (temos no mesmo filme um homem que presta favores sexuais a idosas, e um assassino frio), ironicamente o universo destes confere uma atmosfera inofensiva e até mesmo inocente. Quase como se estivéssemos assistindo a um filme infantil. Não é a toa que como em Os Excêntricos Tenenbaums, a 1a cena do filme mostra uma pessoa abrindo um livro que contará toda a história do filme.





O filme conta a história de uma menina que está lendo um livro, sobre um escritor (Tom Wilkinson quando velho, Jude Law quando jovem) que conta a história de quando o dono do Hotel Budapeste (F Murray Abraham quando velho, Tony Revolori quando jovem) resolveu contar a história de quando ganhou o Hotel Budapeste e do seu período de Lobby Boy, com o chefe do Hotel (Ralph Fiennes). Sim, podemos perceber que há toda uma questão de narrativas múltiplas/metalinguagem permeando o filme.

Porém, engana-se quem pensa que isso torna o filme confuso. Wes Anderson faz questão de diferenciar cada uma das narrativas de maneira extremamente sutil: quando o filme está mostrando uma passagem dos anos 60 a câmera se ajusta ao cinemascope, no presente um enquadramento mais restrito (1:85:1) e nas sequências passadas nos anos 30 a câmera fixa-se em 1:33:1. Pra quem não compreende muito bem de enquadramentos, vale dizer que cada um desses enquadramentos é característico do cinema da época de cada cena do filme. E visto que o longa é uma grande homenagem ao ato de se contar uma história/um relato (ou até mesmo, declamar um poema: como faz o personagem de Ralph Fiennes), nada mais justo.

Além das paletas de cores mudarem totalmente conforme alternam-se as épocas (repare que as cenas dos dias atuais utilizam paletas mais frias, como se o mundo de hoje fosse sem graça e sem vida. Enquanto que o período mais colorido e vivo da narrativa, são os anos 30) os próprios atores mudam seu estilo de atuar com os personagens. Enquanto Ralph Fiennes exibe uma atuação que parece ter sido inspirada por um filme dos Irmãos Marx, Jude Law e Jason Schwartzman tem uma atuação mais contida (que de fato, mais lembra a atuação de um astro dos anos 60, como Cary Grant). Assim, é fascinante reparar que o filme entrega a cada uma das épocas seu devido espaço. De maneira que jamais sintamos falta de uma narrativa, ou que lamentemos o fato de outra começar.





É impossível falar do elenco sem despejar elogios, tal como um relógio cada peça é essencial para o funcionamento da narrativa. E todos saem-se maravilhosamente bem: de personagens que estão em grande parte da narrativa como o veterano Ralph Fiennes e seu parceiro de cena Tony Revolori, até pontas como as de Edward Norton (que junto com Fiennes, protagoniza a cena mais engraçada do longa na minha opinião) e de Willem Dafoe (sensacional como um assassino frio, uma variação curiosa do psicopata que marcou sua carreira no filme de David Lynch, Coração Selvagem).

Este último, é apenas um dos diversos atores que já haviam trabalhado com o diretor anteriormente e que retornam (reduzindo seus salários para que não se estourasse o orçamento do filme) para poder contar a história. Portanto, temos no mesmo elenco nomes conhecidos como: Adrien Brody, Tilda Swinton (maquiada como uma senhora de 84 anos), Owen Wilson, Jason Schwartzman, Bill Murray (ator/objeto de cena obrigatório nos filmes do diretor), Waris Ahluwalia. Além de atores veteranos como Harvey Keitel e F Murray Abraham (que andava sumido do cinema, válido dizer).

O Grande Hotel Budapeste pode até não ser o melhor filme de Wes Anderson (posto que dou ao já citado Tenenbaums), porém é seu filme mais apaixonado. Interessante perceber que paixão foi o grande motivador de seus últimos filmes (em O Fantástico Sr Raposo, paixão pela família e em Moonrise Kingdom, o 1o amor/o mais puro de todos). Mas a grande diferença em O Grande Hotel Budapeste, é que pela 1a vez o diretor faz uma explícita carta de amor ao cinema. Somando isso ao fato de que Wes Anderson é um dos melhores diretores/autores do cinema atual, torna obrigatória a conferida do filme na telona.

Nota: 10