segunda-feira, 26 de maio de 2014

Critica: X-Men Dias de um Futuro Esquecido



São raras franquias de super-heróis tão duradouras quanto a franquia X-Men. Que após realizar um 4o filme péssimo (o filme de origem de Wolverine) teve que se reinventar para que não sofresse um reboot (como foi o caso da franquia Homem-Aranha, que perdeu sua força após o fraco 3o filme). Essa reinvenção veio na forma de X-Men Primeira Classe, filme que explorava o começo da amizade/inimizade de Charles Xavier (James Mcavoy e Patrick Stewart) e Erik Lehnsheer (Michael Fassbender e Ian Mckellen). Era questão de tempo para que um filme unisse o passado e o futuro dos X-Men. Este vem aos cinemas com o nome de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido.

Para os que ficaram preocupados com o retorno de Bryan Singer ao posto de diretor: fiquem tranquilos. Singer não apenas retoma todo o clima de ficção científica que permeava os dois primeiros X-Men, como também abraça a essência de X-Men Primeira Classe: o filme de espionagem dos anos 60/70. Portanto, vale dizer que X-Men Dias de um Futuro Esquecido agrada ambos os públicos: os que preferiam os filmes do início dos anos 2000, quanto os fãs da reformulação de 2011. E para os que como eu, gostavam dos dois: esperem um deleite.

Baseado no clássico quadrinho de Chris Claremont, o filme lida com um tema muito interessante. Não, não estou falando da viagem no tempo (apesar de ser um adicional fantástico a trama). Não, também não me refiro ao futuro pós apocalíptico. Mas sim, a esperança. Por mais que seja um filme de super-heróis recheado de efeitos especiais e cenas de ação fantásticas, Dias de um Futuro Esquecido é um filme que fala sobre a luz no fim do túnel. Um tema que se pararmos pra pensar sempre esteve ligado aos X-Men, considerando que todos os jovens que vão para a Escola Xavier, buscam compreender seus poderes e conseguir encontrar maneiras de serem compreendidos pelo mundo.

Algo que já havia sido discutido em X-Men Primeira Classe, mas que aqui volta com força. Pelo fato de todos os mutantes estarem em busca desta. Isso que faz com que Xavier (e seus X-Men) e Magneto (e sua Irmandade) serem vistos como dois lados da mesma moeda. Porém, cada um utilizando-se de meios diferentes. Não é a toa que os dois sempre são comparados com Martin Luther King e Malcom X. Como não podia deixar se ser, o filme mostra que engana-se quem pensa que os fins justificam os meios. Visto que por conta de uma ação precipitada do passado, o futuro se tornou hostil e sombrio. Tanto para os humanos quanto pros mutantes.



Seguindo essa lógica de decisões que devem ser trabalhadas antes de aplicadas, vale dizer que o filme questiona o papel do líder. Engana-se quem pensou em Wolverine ou Ciclope. O verdadeiro líder dos X-Men sempre foi e sempre será, Charles Xavier. Uma figura que por mais presente que estivesse nos outros filmes (o telepata da as caras até mesmo nos dois filmes solo do Wolverine), não foi explorada como merecia. Um começo foi mostrado em X-Men Primeira Classe, com o personagem sendo mostrado como bon vivant. Aqui vemos uma face completamente diferente do que estávamos acostumados (em determinado momento, vemos ecos do The Dude de O Grande Lebowski): um homem que tem medo de ser o grande líder. Que sabe que deve cuidar dos jovens de sua escola, mas que não se sente forte suficiente para suportar suas dores.

É algo muito interessante de se observar, principalmente se considerarmos que X-Men Primeira Classe tinha como objeto de análise o rival/melhor amigo do Professor X, Magneto. Víamos toda a dificuldade do personagem em balancear sua raiva e tristeza, com seus poderes. Além dessa abordagem dos dois líderes criar uma sintonia muito interessante pra franquia (mais uma vez ressaltando a questão dos dois lados da mesma moeda, ou seja: não há um protagonista, ou um que está 100% correto) ainda determina o que X-Men Dias de um Futuro Esquecido quer realmente dizer: é preciso deixar de lado o passado, e pensar no futuro.

Aqui isso ganha ares mais interessantes, se percebermos que essa abordagem se refere as narrativas futuras dos X-Men. Ao fim do longa, fica bastante claro que o filme só mostra as versões mais jovens de Charles e Erik para que a franquia acerte contas com o passado. Isso porque ao utilizar a viagem no tempo, o longa consegue remover muitas das pontas soltas dos outros filmes que não permitiam a série de ser encarada como uma única narrativa coesa. Portanto, agora que as arestas são apagadas tem-se todo um espaço para novas aventuras envolvendo o elenco de X-Men da série de 2000. Por isso, sim: esperem mais aventuras com Hugh Jackman, Halle Berry, Patrick Stewart, Ian Mckellen.

Válido dizer que o novo filme dos X-Men é tão competente quanto Primeira Classe. A começar pelo seu casting. Bryan Singer fez muito bem em reunir um elenco composto por atores excelentes (repare por exemplo as cenas entre Magneto e Xavier, tanto nas versões jovens quanto mais velhas: mesmo que suas falas fossem retiradas de um comercial de fraldas, ainda estaríamos observando o filme com total imersão na história tamanha a competência dos dois atores), e por trazer para o filme personagens dos primeiros filmes. Perceba como que Ellen Page (como Kitty Pride) e Shawn Ashmore (como Homem de Gelo) não precisam ter longos monólogos para marcar na tela. Ambos conhecem seus personagens faz muito tempo, ambos estudaram os personagens o suficiente para que possam repassar a essência as telas com excelência.

Claro que o maior exemplo desses exemplos é Hugh Jackman. O ator australiano nunca esteve tão a vontade com seu Wolverine/Logan, note por exemplo a cena na qual o personagem acende um charuto após um momento de tensão envolvendo Magneto. É muito interessante perceber o quanto Hugh Jackman domou o papel ao longo dos anos (14 anos interpretando-o, pra ser mais exato). Enquanto no 1o filme, o ator nunca se permitiria a fazer um improviso desses aqui Hugh Jackman já sabe muito bem como Wolverine agiria. Mostrando que não é preciso ser parecido com um personagem de quadrinhos para interpreta-lo: apenas capturar sua essência (ouviu, Andrew Garfield??).






Claro que X-Men Dias de um Futuro Esquecido não é bom apenas pelo seu elenco, também apresentando uma direção impecável. Perceba que a direção de Bryan Singer mostra apenas o importante, e evitando uma edição acelerada e cheia de cortes. A fim de que o espectador sinta a cena, aproveitando o desenvolvimento desta o máximo possível. Outro detalhe legal é o ritmo do longa, que jamais fica cansativo ou chato (coisa que o 2o ato de Godzilla fica devendo...). Isso porque não vemos aqui efeitos especiais tão exacerbados, portanto não existem cenas de ação mirabolantes como a cena do porta aviões em Avengers (eu ainda adoro o filme, não se preocupem).

Falando nas cenas de ação: no filme estas parecem realmente saídas de um quadrinhos dos mutantes. Veja as cenas passadas no futuro por exemplo. O jeito que os mutantes brigam contra os sentinelas é idêntico ao material de origem: a ação de cada um só existe para ajudar/impulsionar o outro. Por isso, tudo sai extremamente fluido, como se aqueles guerreiros lutassem juntos há muito tempo. Sem precisar sequer avisar de suas ações pro outro (um exemplo: Homem de Gelo vai ser esfaqueado, por isso Blink abre um portal fazendo com que a lâmina do agressor pare em outro lugar evitando o amigo de ser morto, enquanto que este pula no lado oposto do portal possibilitando um chute na cabeça do agressor).

Vale dizer porém, que X-Men Dias de um Futuro Esquecido não é perfeito. A explicação dada para o ressurgimento de Xavier (presente em X-Men 3) não é explorada o suficiente para soar válida, a maioria dos mutantes recém introduzidos é mal abordado (com exceção de Mercúrio, que rende a cena mais engraçada do filme) e a última cena do longa (literalmente, o último frame) rende um buraco na trama que faz com que o arco narrativo de um personagem não faça muito sentido. Eu ainda desconto alguns problemas comuns em filmes de super herói, como a heroína que luta de maneira absurdamente sexualizada (todas as lutas de Mística servem apenas para deixar os fãs onanistas felizes). Porém, acho que já deveríamos ter evoluído para acabar com tais problemas.

Nada disso pode tirar o mérito de X-Men Dias de um Futuro Esquecido. Filme que além de abrir todo um novo leque de aventuras para a franquia X-Men, ainda consegue fechar com chave de ouro as tramas passadas no passado. Fazendo com que este enfim pague suas contas com o futuro (eu sei, eu sei. Não deu pra evitar).

Nota: 8,0