sábado, 3 de maio de 2014

Critica: O Espetacular Homem-Aranha 2



No 1o filme da franquia-reboot Homem-Aranha, a discussão era o quão válida tinha sido a decisão de reiniciar todo o arco de histórias de Peter Parker. Com O Espetacular Homem-Aranha 2, a discussão evolui: quanto um filme baseado em quadrinhos pode se afastar do seu material de origem, e quão pretensioso pode ser um filme de super heróis?

Analisemos os quadrinhos: Peter Parker é um adolescente que após ser picado por uma aranha radioativa (tudo que vem acompanhado com radiação fica muito mais legal), ganha super poderes. Nisso, ele resolve se transformar num super-herói para proteger os fracos e oprimidos. É só isso? Não. Vale dizer também que Peter Parker é um garoto inseguro, fraco, absurdamente inteligente (ele só estava no laboratório da aranha radioativa por ser um dos melhores alunos). Um "nerd" (sim, o significado da palavra passou de garoto inteligente a consumidor assíduo de cultura pop) com um coração cheio de bondade. 

Tal como a maioria dos personagens clássicos da Marvel (nisso incluem-se: Capitão América, Senhor Fantástico, Demolidor, Hulk), o Homem-Aranha é o clássico conto do garoto fraco que tem a chance de se destacar. Desde que utilize seus poderes para o bem, uma variação da jornada do herói de Joseph Campbell. E que é essencial na história de Peter Parker, e seu alter-ego o Homem-Aranha.

O 1o filme da franquia O Espetacular Homem-Aranha, já mostrou que tal face de Peter Parker não seria muito abordada. Além do herói alternar entre o engraçadinho atrapalhado nas falas (repare que Andrew Garfield sempre começa a gaguejar nas cenas românticas, querendo indicar de maneira medíocre a insegurança que personagem sente ao falar com Gwen Stacy) e o adolescente revoltado com o mundo, ainda por cima é o oposto do personagem nos quadrinhos. Enquanto o Peter Parker dos quadrinhos é o rapaz inteligente que era considerado esquisito (mais um fator para poucos descobrirem sua identidade, afinal a personalidade extrovertida do Cabeça de Teia jamais seria atribuída a Peter), no filme o adolescente é extremamente pop. Não tem absolutamente nada de inteligente, e quase pode ser considerado um hipster (no seu quarto podem ser observados: um poster de Blow Up, uma câmera vintage, um poster de Dogtown and Z Boys, e uma foto de Einstein pra dizer que o garoto é esperto).



Após assistir os dois filmes da franquia, percebe-se que a maior preocupação dos produtores e roteiristas não era realizar algo digno do material de origem, e sim reformular o herói para a geração dos Smartphones. Afinal, válido dizer que soa absurdo para os jovens do século 21 verem um adolescente sendo pago por tirar fotos, sendo que hoje em dia todos podem ser fotógrafos amadores com o Instagram.

Para não dizer que estou sendo chato com o longa e que só se veem problemas em tela: O Espetacular Homem-Aranha 2 é um filme visualmente impecável. Por mais que em muitos momentos seja perceptível a utilização de um boneco digital para a realização de cenas mais elásticas do herói, o filme tem ação impecavelmente fluida e bem construída. Do combate a Rhino (Paul Giamatti, se divertindo horrores atuando como um mafioso russo com o corpo coberto por tatuagens), ao 1o confronto com Electro (Jamie Foxx) o filme cria cenários de ação espetaculares. Esse último, a melhor cena do filme. Criando um cenário de confusão para o personagem de Electro, e tensão para os cidadãos nova iorquinos a cena se executa maravilhosamente (além da trilha sonora impecável que consegue ressaltar bem a confusão mental de Electro, inserindo uma batida eletro com sussurros que poderiam muito bem ser compreendidos como a mente esquizofrênica do vilão).

Claro que muito se deve pelos efeitos especiais, e pelo design de produção. Porém, isso não retira o crédito do filme. Como por exemplo a opção de vestir o herói com uma roupa idêntica aos quadrinhos. Ou seja: um collant colorido, com grandes olhos. O que muitos previam como um desastre visual em tela, vira ouro. Pois vale dizer, que O Espetacular Homem-Aranha 2 não é um filme sombrio.

Outro ponto positivo do filme é seu elenco. Por mais que Andrew Garfield tenha tiques de atuação profundamente irritantes (a técnica de ficar gago é utilizada por ele desde O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de 2009) este consegue apresentar um desempenho eficiente. Além de ter vantagem sobre o resto do elenco, por ter um físico muito similar ao Peter Parker das histórias em quadrinhos. Emma Stone mais uma vez entrega uma performance apaixonada a sua Gwen Stacy, conferindo a personagem um olhar diferente para o interesse amoroso do herói no cinema. Visto que sua personagem deseja seguir em frente, mesmo que seu namorado deseje prende-la (me esforço pra não fazer uma brincadeira com a palavra teia).




Do lado dos vilões, as atuações são igualmente eficientes. Jamie Foxx é um dos atores mais dedicados de sua geração (sim, eu defendo muito o ator desde o início de sua carreira). Conseguindo mergulhar no personagem de tal forma que o Electro pré acidente nada lembre o Electro pós acidente. É formidável observar como a atuação nada lembra um personagem anterior do ator (ouviu, Andre Garfield?). Nenhuma similaridade, exceto o padrão de excelência. O novato Dane Dehaan também é competente, e confere na medida certa a loucura e desespero ao personagem de Harry Osborn. Além de ter um método de atuação que lembra muito o jovem Di Caprio, utilizando diferentes tons de voz pra ressaltar a fragilidade do personagem ou a insanidade.

Agora chegou a hora de falar dos podres do filme, e acredite estes são muitos. A começar pela já citada personalidade de Peter Parker. De jovem brilhante e bondoso, a stalker (sim, ele persegue Gwen quando esta dá um fora) que pede ajuda pros outros em questões de ciência (a cena mais pro final na qual ele pede ajuda pra Gwen, chega a doer no coração de um fã dos quadrinhos). Além do desvirtuamento do conceito do herói. Note que quando o Homem-Aranha chega para lutar com um vilão, na área há uma grande que separa o palco de batalha da multidão. Esta serve porque todos os nova-iorquinos assistem aos atos do herói, como fãs assistem um show. 

Sério mesmo, roteiristas? Vocês querem dizer que ser um herói é como ser um rock-star? Por favor, assistam Homem de Aço.

Outro sério problema do filme é a falta de refinamento do roteiro. Sem brincadeira, em certos momentos parece que os roteiristas não revisaram a história, e deixaram de apagar passagens que fariam sentido no rascunho do roteiro anterior. Veja por exemplo a insistência de Peter Parker em dizer que Harry Osborn é seu melhor amigo. Até aí tudo bem (e é fiel aos quadrinhos), mas pera: Harry e Peter não se viam fazia 8 anos. Considerando que Peter tem 18 anos, a última vez que viu Harry foi quando tinha 10. Acho que até mesmo o Peter burro do filme sabe que o seu melhor amigo de infância que você mal se lembra, e não vê faz anos não é seu melhor amigo agora.

Claro, isso se explica porque havia outra versão do roteiro na qual Harry não tinha se afastado. E estava presente desde sempre na vida de Peter. Porém, alguém esqueceu do detalhe. Quer outro exemplo de passagens maravilhosas? Quando Gwen Stacy afirma para Peter que é a única que pode ajuda-lo a desligar o reator da cidade (por ser uma...estagiária de 17 anos?), e quando chega para desligar o dispositivo vemos que era apenas uma alavanca com letras grandes e vermelhas dizendo "Reset". 

O que dizer então do plano de Electro (Jamie Foxx)? Matar o Homem-Aranha e deixar Nova York....no escuro. Alguém por favor dê um prêmio para o vilão: Plano de antagonista menos ambicioso da história do cinema. Palmas para esse homem (me segurando pra não utilizar "chocante" no texto).

(após uma pesquisa rápida confirmo o que falei nas linhas acima: o filme de fato tinha diversas versões do roteiro, e o resultado final visto em tela é uma amalgama dos roteiros anteriores)





Mas nada irrita mais do que a falta de desenvolvimento de alguns personagens. Por mais que tenham bons atores interpretando-os, nenhum dos vilões faz muito sentido. Electro por exemplo, quer destruir o Homem-Aranha porque....bem. Ele não lembrou seu nome (justo). E o Duende Verde que aparece nos 15 minutos finais, e que se diz o pior inimigo de todos mas que jamais diz a que veio. Tudo extremamente mal elaborado, e extremamente: brochante (quem foi o idiota que aprovou o visual do Duende Verde?).

Além da insistência dos roteiristas em inserir na trama os pais de Peter Parker. Se no filme anterior os realizadores pareciam não saber ao certo como utilizar os personagens (visto que estes nunca foram relevantes no universo dos quadrinhos), aqui o roteiro tenta conferir toda uma importância na busca de Peter em descobrir quem é ele mesmo para depois aceitar que seus pais se foram. Nada que justifique iniciar o filme com uma cena de ação ridícula (e que não faz muita diferença na trama), para jogar mais perguntas no ar.

A verdade é que pros fãs de verdade, O Espetacular Homem-Aranha 2 é mais um prato do mesmo jantar ruim que foi o 1o filme. Exatamente o mesmo, para crianças o filme deve funcionar. Mas quem acompanha o personagem nos quadrinhos, ou que sabe analisar deve subir pelas paredes após a sessão do filme:

Nota: 6.0