sexta-feira, 16 de maio de 2014

Critica: Godzilla


É impossível falar sobre cinema japonês e não citar Gojira, o monstro que começou como uma alegoria para a destruição atômica (visto que o filme original foi lançado aproximadamente 9 anos depois dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagazaki), continuou como uma criatura pouco sociável que saía na porrada com qualquer outro monstro que aparecesse em sua frente e que gradualmente foi se estabelecendo como uma espécie de "herói", "protegendo" os cidadãos japoneses de outras ameaças gigantes - com alguns reboots e tropeços ao longo de seu caminho que durou 28 longas-metragens de produção japonesa.

Assim, desde 1998, ano no qual foi lançado o péssimo Godzilla dirigido por Roland Emmerich (Independence Day, O Dia Depois de Amanhã, 2012 etc), era esperado que o monstro ganhasse uma produção hollywoodiana que fizesse jus à sua importância.

E, nisso, esse mais novo filme (o 30º que carrega o nome do monstro) acerta com precisão. Não é um filme perfeito (longe disso, aliás) e também não é completamente fiel às origens, mas não há dúvidas de que aquilo que vemos na tela é Gojira, não um derivado genérico como o de 1998.

Bem que o de 1998 nem aparece aqui.
No começo da projeção, vemos Joe Brody (Bryan Cranston), um engenheiro nuclear que mora no Japão junto com sua esposa Sandra (Juliette Binoche) e seu filho Ford (CJ Adams). Comprometido com seu trabalho mas nunca mostrando-se um pai ou um ser humano ruim, estabelecemos com facilidade uma simpatia com esse núcleo familiar, o que aumenta a intensidade da sequência de desastre que virá a seguir. E isso faz um enorme contraponto com o resto do filme. Saltando 15 anos no futuro, praticamente todos os outros personagens acabam se mostrando pouquíssimo interessantes, o que prejudica a narrativa. Além disso, o roteiro preguiçoso de Max Borenstein estabelece Ford Brody (agora vivido por Aaron Johnson) como âncora narrativa a um ponto que ultrapassa os limites, já que é difícil não perceber que a ação praticamente persegue o personagem. Se ele está no Japão, é lá que ocorre o desastre. Se ele está no Havaí, é lá que ocorre o desastre, e por aí vai.

Introduzindo um novo monstro para rivalizar com Gojira, a ameaça aqui são os MUTOs, duas criaturas (um macho e uma fêmea) semelhantes ao louva-a-deus (mas que não chegam a ser como Gigan, do bom filme Godzilla vs. Gigan de 1972) que alimentavam-se da radiação do centro da Terra e que foram atraídos à superfície pelas usinas nucleares e armas radioativas.

E se o design do inimigo aqui é muito mais contido e sério do que a massiva maioria dos vilões icônicos da franquia, eles pecam por parecerem pouco criativos e bem e parecidos com coisas que já vimos em outros filmes (me lembraram muito o monstro de Cloverfield, por exemplo).

Tudo isso resulta na introdução do monstro Gojira já em um primeiro momento como uma resposta da natureza frente à ameaça dos MUTOs, ou seja, em um símbolo da esperança e não da catástrofe.

Tomando um bom tempo antes de colocar Gojira no filme, o diretor Gareth Edwards acerta muitíssimo bem em colocar a ação e as destruições quase sempre do ponto de vista dos humanos, criando sequências realmente memoráveis e tensas, como a do trilho do trem. E se o filme de 1954 fazia isso muito bem apesar de suas limitações, isso já fora jogado fora no filme seguinte da franquia Gojira no Gyakushuu de 1955, que filmava os monstros em um plano normal em relação à grandeza e criava um distanciamento entre os personagens humanos e as criaturas (e isso prejudicava as sequências de porrada). Desde então, os filmes foram tornando-se mais sobre os monstros e menos sobre os humanos. Nisso, esse novo vai na direção contrária, cobrindo os monstros na névoa na maior parte da projeção.

E como construtor de hype, esse filme é mestre. Toda vez em que vai ocorrer um confronto entre os gigantes, o diretor nos distancia e nos impede de presenciar (chegando a, literalmente, fechar as portas na nossa cara em um momento), o que faz com que o espectador vá acumulando uma expectativa que só será extravasada no excelente clímax, que não se segura e manda logo um all-out attack empolgante e enorme em escala com várias cenas extremamente memoráveis e impactantes (e, apesar da ausência de fanservice no filme, que limita-se a diversos easter eggs espalhados pelos cenários, aqueles que assistiram e apreciam a franquia com certeza vão encontrar dificuldade em conter a empolgação em um momento específico).

E tudo isso seria ainda mais incrível se tivéssemos bons personagens. Se o protagonista é pouco eficiente para estabelecer uma conexão, menos ainda são os outros personagens, que representam verdadeiros desperdícios (as atrizes Elisabeth Olsen e Sally Hawkins principalmente, já que são muito boas e nada conseguem fazer com seus papeis superficiais). O mesmo vale pra Ken Watanabe, que acaba se tornando a fonte de informação do roteiro, preso a falas extremamente expositivas mesmo que ocasionalmente tenha a oportunidade de homenagear o filme original e de gritar o icônico "Gojira!". Sendo assim, os pontos altos de atuação e de personagem em Godzilla são Bryan Cranston e Juliette Binoche, por razões citadas no começo da crítica. O que é uma pena, visto que, se tivéssemos bons personagens, nossa preocupação para com eles potencializaria o peso da ação e criaria, assim, o filme de monstros perfeito

Não deixa de ser irritante o fato de que, para conferir essa sensação de urgência, o roteiro sempre coloque alguém em primeiro plano pra ser acompanhado pelo espectador - sendo normalmente crianças ou adultos acompanhados de crianças e, em um momento, um cachorro (patético, eu sei). Como se não bastasse que milhares de pessoas estão morrendo. Pelo menos nisso o diretor é hábil em mostras as consequências indiretas da destruição (congestionamentos nas estradas e crise nos hospitais) de forma crível.

Mesmo assim, ao final, o saldo é positivo. Memorável, grande em escala e eficiente em diversos momentos, suas virtudes compensam seu roteiro preguiçoso. Pelo menos para mim.

Nota: 7,5/10