terça-feira, 15 de abril de 2014

Crítica: O Enigma de Outro Mundo (The Thing)


O Enigma de Outro Mundo (1982) é um filme memorável. Dirigido por John Carpenter, o filme não apenas revolucionou o cinema de horror por apresentar uma trama que combinava suspense e tensão num ambiente desolado (Antártica), como também empregou efeitos especiais/maquiagem que se tornariam referência no cinema mundial dali pra frente. Um clássico instantâneo, que mesmo alcançando tal título não foi capaz de evitar pensamentos gananciosos de produtores hollywoodianos em fazer um remake ou um prequel do longa. O diretor Matthijs van Heijningen conseguiu realizar os dois, com o seu O Enigma de Outro Mundo (não foi erro de tradução, em inglês tem o mesmo nome do filme original: The Thing).

Remakes de filmes de terror oitentistas geram dois sentimentos que surgem mutuamente: Medo do filme original ser estragado, e ansiedade para ver a história tão querida transposta na tela com efeitos especiais de ponta. Com O Enigma de Outro Mundo, vale dizer que os envolvidos na produção não conseguiram nenhum dos dois. O diretor não conseguiria usurpar o legado do filme original, por ser fã deste. Percebe-se todo um carinho e cuidado com a produção em fazer algo jus ao filme de John Carpenter, e realmente dar a sensação de continuidade. Por isso, vale dizer que o filme não é um desastre.

Porém (e realmente atentem-se a essa palavra): se o remake não atrapalha o legado do filme original, com certeza não faz jus aos efeitos especiais/maquiagem deste. O filme tem um orçamento relativamente alto e poderia ter investido em efeitos especiais práticos e empregar levemente (apenas levemente) alguns contornos de Cgi (para apagar cabos, eliminar fumaça, etc). Porém, ao tentar tornar a criatura mais "assustadora" (enfase nas aspas na palavra) o filme torna o monstro muito menos chocante do que poderia ser.

Um exemplo de um filme que balanceou bem o cgi e os efeitos práticos, foi o recente remake de The Evil Dead. Que soube combinar bem as ferramentas de efeitos especiais práticos e o cgi, em favor do filme. De maneira que 95% do filme são trabalhos de próteses, lentes de contato, sangue falso, cabos. Enquanto que os 5% restante se referem a cgi, que serve para balancear o real. Ou seja: eliminar cabos que permitem os personagens de serem jogados, eliminar problemas da fotografia, etc. O que tornam os aspectos técnicos magnificamente eficientes. O que não é o caso deste O Enigma de Outro Mundo.




A história acompanha os eventos que antecedem o longa de 1982 (na realidade, o final do remake já é uma recriação do plano inicial do filme original). Mostrando tudo que aconteceu na base norueguesa antes do contato com "The Thing". Claro que não poderia acabar bem.

Um dos acertos da produção é rechear o seu elenco de atores de fato noruegueses, portanto não temos aqui o clássico caso de um ator americano simulando um sotaque (que na cabeça deste: se vem da Europa e não é britânico, é apenas uma variação do sotaque russo). Cada um dos atores representa de maneira competente seus personagens, nos fazendo não apenas crer nestes mas também temer por eles. Note que o filme faz questão de mostra-los em situações extremamente corriqueiras e próximas a nós (cantando uma canção de seu país, contando piadas, andando com o cachorro) para fazer nos sentir íntimos.
Por isso, não é surpresa sentirmos tensão e até medo quando se tem a ameaça da criatura ser um membro da equipe. A platéia sente-se como um deles: sem conseguir confiar em ninguém e surpreendendo-se cada vez que o monstro se revela (sempre destroçando o hospedeiro).

Válido dizer que a única atriz americana do filme, Mary Elizabeth Winstead (a eterna Ramona Flowers, de Scott Pilgrim), também não compromete. A doutora Kate não é a clássica mocinha burra que corre em direção ao monstro e que toma todas as atitudes idiotas de filmes de terror.

Outro ponto positivo são as inúmeras homenagens ao filme original. As vezes de maneira berrante (a forma com a qual a criatura se acopla a um dos personagens), e outras de maneira muito sútil (o machado que é posto na parede, para ser retirado no filme de 1982). Porém, nenhuma delas é tão digna e respeitosa quanto a decisão de incluir a música tema do filme original composta por Ennio Morricone, somente quando o trecho que recria o começo do longa de 1982 se inicia.
Quase como se os realizadores estivessem dizendo "Sabemos que nosso filme não chega aos pés do Enigma de Outro Mundo Original. Estamos apenas demonstrando nossa paixão". O que creio eu ser muito válido, visto que o clima e horror utilizados no remake são herdeiros do filme original.




Porém, o remake não é só alegria. Começando pelo maior dos problemas: os efeitos especiais nas criaturas. Tentando misturar animatronics com uma cobertura de cgi para gerar tentáculos/membranas o resultado ficou absurdamente artificial em alguns momentos, veja por exemplo o último momento que a criatura se mostra. Não dá pra acreditar que é real, quanto mais temer aquilo que chamam de "animatronic". Dou o braço a torcer, as vezes fica eficiente (a personagem que não sabia que abrigava a criatura por exemplo). Porém na grande maioria, parece que estamos assistindo a um longa dos anos 90 quando o cgi ainda era novidade.

Outro problema é a insistência do roteiro em abordar a nave alienígena. Enquanto no filme de 1982 havia-se apenas um vislumbre da nave, aqui existe toda uma sequência (ridiculamente mal feita) mostrando o interior do transporte alienígena.

Por mais que tenha muito respeito pelo filme original, O Enigma de Outro Mundo infelizmente se compromete muito. Os efeitos especiais mal utilizados tornam a experiência de assistir o filme muito menos intensa do que era prevista no roteiro. O que é um sério erro num filme de horror. Porém, o filme não estraga de maneira alguma o legado do Enigma de Outro Mundo Original. Na realidade, só faz com que a audiência só queira mais re- assistir ao longa. Qualquer produção que estimule as pessoas a assistirem a bons filmes de terror, merece o respeito de qualquer cinéfilo.

Nota: 7,0