domingo, 6 de abril de 2014

Critica: Noé


Filmes bíblicos sempre chamam atenção no cinema. Dos épicos produzidos por Cecil B. Demille como os 10 Mandamentos, a filmes que apostavam no "realismo" bíblico como A Paixão de Cristo (no qual os atores falam aramaico e onde Jesus não é um loiro de olhos azuis). Porém, existe outra categoria de filmes envolvendo a Bíblia que é no mínimo muito mais interessante do que os filmes citados a pouco: os filmes sobre religião e fé.

Filmes que questionam o papel da religião e seus dogmas, e que apesar de não questionarem a possibilidade do divino ainda assim alfinetam tudo que é no mínimo precipitado. Filmes como Dogma (que alguns julgam ser o mais inteligente filme de Kevin Smith), A Última Tentação de Cristo (melhor filme sobre fé já feito), O Evangelho Segundo São Mateus (um dos mais competentes filmes de Pasolini), A Vida de Brian (talvez o mais engraçado filme do Monty Python) e até mesmo A Árvore da Vida.

À primeira vista, o novo filme de Darren Aronofsky parecia seguir a tradição dessa categoria cinematográfica. Afinal, seu longa era baseado numa Hq francesa (que ajudou a produzir) que tomava diversas licenças artísticas com a Bíblia e que tinha diversos momentos de inspiração. Noé pode até ser um filme que ignora a Bíblia e segue seu próprio caminho, mas fica devendo nos momentos de inspiração. Pior, quando tenta realizar estes chove no molhado (tenho que evitar usar expressões como estas para este filme).

O filme narra a história de Noé (Russel Crowe), que em sonho recebe a missão divina de construir uma arca para salvar sua família e um par de cada espécie animal. Mas, Aronofsky não se limita apenas a contar a parábola da Bíblia mas adiciona também: anjos caídos, evolucionismo, debates éticos, flashbacks sobre o Éden e por aí vai. Além de referências as histórias de Abraão, Moisés, Jesus.



Não tenho problema com filmes que utilizem efeitos especiais, contanto que estes sirvam em favor da narrativa. E não é a 1a vez que Aronofsky utiliza cgi num filme seu (Cisne Negro é recheado de cgi, mas são tão bem colocados que a audiência não percebe). Mas é decepcionante constatar que um diretor de filmes intimistas como Pi ou Réquiem Para um Sonho se rende a artifícios Hollywoodianos de chamar o público para o cinema. Veja por exemplo, a clássica frase de Noé no trailer "Não estou sozinho". A primeira vista, quem assiste pensa que Noé esta se referindo a presença de Deus com ele, e toda a sua fé nos planos divinos. A surpresa quando assistimos o filme e percebemos que Noé se referia aos GIGANTES DE PEDRA que o ajudam a construir a arca, é iminente.

Mas aí vem as explicações que tentam justificar a presença de elementos como os Transformers divinos, "eles são anjos que vieram ajudar os expulsos do paraíso, Adão e Eva. Mas como castigo pela sua compaixão, o Criador tirou todo o seu brilho e os aprisionou numa forma de barro e pó".

(Irei repetir: gigantes de pedra.)

Ou então perceber a extinção iminente de toda uma espécie, quando uma pessoa na arca arranca a cabeça de um animal por estar com fome. Mas nenhum problema é tão grande (okay, talvez os Gigantes de Pedra) quanto a falta de desenvolvimento de alguns personagens. Mais especificamente dos filhos de Noé, que jamais dizem a que veio. Perceba que cada um deles tem uma única função na narrativa: Can é o filho revoltado, Set é o "esposo" da personagem de Emma Watson (sim, ele realmente se limita isso) e Jaffé...
Bem, o caçula se limita a cuidar dos pássaros para no decorrer da narrativa ter uma função.

Claro que a personagem de Emma Watson já é um pouco mais interessante (em parte pela popularidade da atriz, tenho certeza). Eliminando as outras esposas dos filhos de Noé, para concentrar o desenvolvimento em apenas uma mulher, a personagem rende momentos interessantes (apesar de ser um tanto óbvio o que irá acontecer com ela, uma mulher estéril num filme bíblico).

Mesmo com um elenco de coadjuvantes desequilibrado, Russel Crowe não compromete como protagonista. Demonstrando a perfeita definição de fé (um homem que adora a Deus, mas ao mesmo tempo teme os atos divinos), ao mesmo tempo que exibe um extremismo que pode defini-lo como o 1o fundamentalista da humanidade, Noé é um personagem fascinante.
Igualmente competente a atuação de Jennifer Connely, que já tendo atuado como esposa de Crowe anteriormente (no excelente Uma Mente Brilhante) exibe segurança interpretando a companheira do protagonista título. Já demonstrando uma característica da direção de atores de Aronofsky, visto que estes dão o máximo de si e não tem medo de soarem ridículos (a cena na qual repreende seu companheiro chorando é poderosa).



Um grande problema do filme é seu ritmo que em muitos momentos incomoda o espectador (e sua paciência). O que compromete muito a experiência como um todo. Todo o drama do "intruso" não adiciona nada à narrativa, e ainda por cima rende cenas no mínimo constrangedoras (todas as expressões de dor do personagem de Cam são no mínimo hilárias).

Claro que tecnicamente o filme é extremamente eficiente. Todo o design de produção é bem construído (repare a arca, que quase parece um monstro). Porém os dois grandes destaques técnicos são a trilha sonora, e a fotografia. A 1a composta pelo colaborador frequente de Aronofsky, Clint Mansell, consegue trabalhar bem com a percussão e gritos primais. Criando um paralelo interessante com a trilha sonora de Peter Gabriel para a Última Tentação de Cristo (que também trabalhava com música mais rústica).

Já a fotografia é a joia da coroa, visto que só se torna mais bela com o 3d. Veja por exemplo a cena na qual Noé acaba de acordar do sonho, e caminha para fora de sua cabana. Vemos apenas silhueta do personagem, contrastando com um céu vermelho-alaranjado. Quase como se aquilo tivesse ligação direta com pinturas rupestres.

Toda a questão do criacionismo e evolucionismo é debatida em diversos momentos da narrativa. Veja por exemplo a sequência na qual Noé já dentro da arca, conta aos filhos a história da criação. Além de belíssima, a sequência consegue mesclar bem as crenças. De maneira que não se ofenda a fé de ninguém.

Por mais que interessante, Noé é um filme falho. E que admito, não conseguiu me cativar. Em parte pelo seu incômodo ritmo, pela falta de coesão da narrativa em certos momentos. E é claro: pelos malditos Gigantes de Pedra. Esperava mais de você, Darren Aronofsky.

Nota: 5,0