segunda-feira, 10 de março de 2014

Critica: Walt nos Bastidores de Mary Poppins


Muitos filmes tem surgido mostrando os bastidores de célebres produções clássicas hollywoodianas, com a pretensão de ser a história definitiva sobre o por trás das câmeras. Todos nos lembramos do filme Hitchcock, que prometia expor o processo de produção do clássico filme de suspense, Psicose. Mas que na realidade, era só pretexto pra mostrar Anthony Hopkins fazendo uma caricatura engraçadinha do grande diretor, não chegando a arranhar a superfície da perturbada personalidade do verdadeiro Alfred Hitchcock. Além de insistir em diversas piadinhas infames, e algumas distorções históricas (a pior de todas, a que sugere que a cena clássica do esfaqueamento de Psicose, foi fruto de um momento de raiva do diretor, e não planejada plano-a-plano como na realidade).

Walt nos Bastidores de Mary Poppins, sem dúvida alguma é um filme engraçadinho. Ao longo das duas horas de produção, diversas piadinhas surgem em tela a fim de tornar o filme uma experiência agradável e fofa (não é a toa, que escolheram o simpático Tom Hanks para interpretar o personagem título). Mas ao menos, é um filme com bastante crédito histórico. Juntando isso com duas boas interpretações dos protagonistas, tornam Walt nos Bastidores de Mary Poppins uma agradável experiência. Apesar de em alguns momentos soar bonitinha, e previsível demais.

Pros não informados, o filme se trata sobre o processo de adaptação do livro Mary Poppins para as telas. Quando Walt Disney (Tom Hanks), passou 20 anos tentando convencer a autora do livro, P.L Travers (Emma Thompson) a vender os direitos do livro. Quando esta aceita uma chance de ver o que o criador do Mickey Mouse está preparando pra versão cinematográfica de seu livro, a autora começa a relembrar a infância com seu pai (Colin Farrel).





É interessante perceber que por se tratar de um longa da Disney, o filme tem muito material para mostrar a audiência comprovando a autenticidade dos fatos mostrados em tela (o mais divertido desses, as gravações que a autora exigia, fique até depois dos créditos). Por isso, por mais que certos trechos soem bonitinhos demais após uma pesquisa podemos perceber que não é uma mera enfeitada do roteiro: aquilo realmente aconteceu. E julgo ser um mérito um filme seguir com autenticidade a história real (não é, Hitchcock??).

Claro, existem fatos que o filme tenta contornar. Porém, jamais ignorando-os. Veja por exemplo, o personagem de Walt Disney. Toda vez que surge em cena, vemos o personagem tossindo. Uma referência sútil ao fato de que Disney fumava muito, e desde aquela época já estava começando a sentir as consequências do câncer que o mataria anos depois.

Ou então, as referências do longa a Mary Poppins. Por mais que a personagem seja citada de minuto a minuto, a produção presta algumas homenagens sutis ao musical de Robert Stevenson. Por exemplo: a trilha sonora que quando quer ajudar a construir um clima idílico, recorre ao clássico tema das chaminés do filme. É uma referência que espectadores desavisados (ou como é o caso de 70% da audiência das sessões do filme: não assistiram Mary Poppins) não iram pegar, mas que ajudam como link com a fantasia estrelada por Julie Andrews.

Claro que nem tudo é bem refinado como os exemplos que citei, muitas vezes surgem os malditos momentos "haha". Não sabe ao que me refiro? Todo filme blockbuster possui os momentos de piadinhas que não são realmente engraçadas, mas que servem para a audiência dar um risinho besta na sessão. Muitas comédias acreditam que ao se rechear os minutos de projeção com estes, podem ser considerados engraçados (o que não é verdade). E muitos filmes família, acabam aderindo a tal prática. Infelizmente, este filme é um deles (o que dizer da piada mais ao final da projeção, da aeromoça que se lembra da autora após um intervalo de três anos?).



Outro sério problema do filme é a inserção de cenas já apresentadas antes, a fim de ressaltar um sentimento no espectador (para criar o famoso link de uma cena para outra). Mais para o final do filme, quando a autora relembra seu pai ao assistir o filme pronto (vale dizer que o título original de Walt Nos Bastidores de Mary Poppins, é Saving Mr Banks) o diretor faz questão de alternar cenas de: P.L Travers assistindo ao filme, o filme, e cenas que assistimos 40 minutos antes de flashbacks de seu pai. Além da inserção deste último tratar o espectador como idiota (algo como "Vocês não tem capacidade mental de se lembrar disso, assim explicarei tudo para vocês. Minha mensagem é genial"), ainda consegue fazer com que o filme perca ritmo.

Apesar destes problemas, o filme não é ruim. Todo o respeito que a produção tem pelo musical original, merece aplausos. Além de ter muitos partes isoladas da produção que conseguem se destacar mais do que a direção do diretor John Lee Hancock (veja por exemplo a trilha sonora de Thomas Newman, em muitos momentos lembram os acordes de Estrada Para Perdição e Beleza Americana, mostrando que o compositor cria uma personalidade de autor em suas trilhas). Ou então, a fotografia do filme que em determinado momento paga tributo ao clássico de John Ford, Rastros de Ódio e a Dias de Paraíso, de Terrence Malick.

Porém, sem dúvida alguma, a melhor coisa do filme é seu elenco. Do otimista motorista interpretado por Paul Giamatti, até a P.L Travers de Emma Thompson, todos conseguem brilhar nos seus papéis. Chamo a atenção para Tom Hanks como Walt Disney, no 1o encontro do criador da Disney com P.L Travers. Aonde explica toda a sua devoção a Mary Poppins, e todo o carinho e cuidado com o qual irá transpor para as telas. Sem botar uma música edificante no fundo, ou uma fotografia mais escura. Apenas confiando na interpretação de Tom Hanks, em passar o respeito do personagem. Digno de aplausos.

No fim, por mais que não seja um marco no cinema como Mary Poppins foi para época, Walt nos Bastidores de Mary Poppins é um filme divertido que vale pelo tributo ao um dos mais importantes filmes live action da Disney.

Nota: 7.0