quarta-feira, 5 de março de 2014

Critica: Robocop


Em 1987, chegava aos cinemas Robocop. Filme dirigido por Paul Verhoeven (que depois dirigiria outros filmes memoráveis, como Instinto Selvagem e O Vingador do Futuro), que mesmo se passando no futuro, satirizava a realidade dos anos 80 (assim, o filme o filme mostrava violência exagerada, comerciais de televisão absurdos, as grandes corporações tomando conta de tudo). Mas o tema de maior destaque no filme, sem dúvida alguma, era o sistema. No qual Alex Murphy (Peter Weller) era o símbolo do policial que ao mesmo que era oprimido pela violência dos crimes que combatia, também era oprimido pela própria polícia (não é a toa, que o policial é fuzilado no início do filme por bandidos, e mais para o final pelos colegas policiais). Além da clara metáfora de que a polícia transformava seus homens em máquinas, desumanizando-os.

Como tudo que foi rentável nos anos 80, Robocop ganhou um remake (curiosamente, é o segundo filme de Paul Verhoeven que ganha um remake. Todos lembram do remake de O Vingador do Futuro, infelizmente). Que chama atenção por ser conduzido por ninguém menos, que José Padilha. Diretor de Tropa de Elite 1 e 2, alguns dos filmes brasileiros mais populares do cinema. Algo que faz bastante sentido, considerando que ambos os Tropa de Elite possuem diversos elementos do 1o Robocop (o homem que para realizar atos extremos de violência, tem que perder sua humanidade por exemplo).

Por isso, é triste constatar que comparado com o filme original o novo Robocop empalidece muito. Enquanto o filme de Verhoeven tinha uma mensagem clara e direta, o filme de Padilha tem vários alvos para criticar. Porém, nenhum destes é aprofundado o suficiente.



Para os que leram até aqui dizendo "Não é um remake! É um filme totalmente diferente!", por favor baixem a bola. Um filme que tem o mesmo nome do filme original, a mesma linha narrativa, mesmos personagens é um remake. É inevitável que seja comparado com o original, ainda mais se o filme original for excelente como é o caso do 1o Robocop (perdão se estou falando tanto deste, revi-o em Blu Ray esses dias e caramba, que filmaço).

Só deixando claro que não considero o filme de Padilha ruim, ou uma bomba. Muito pelo contrário, creio que um diretor talentoso como Padilha jamais faria um filme realmente ruim. O brasileiro consegue criar um ritmo excelente pro filme, veja por exemplo que em momento algum o filme fica chato ou cansativo. Por mais que surjam (diversos) pontos narrativamente mal aprofundados, estes jamais soam forçados. Outro ponto positivo do longa, é o fato do diretor conseguir imprimir sua marca. Não estamos falando de um diretor contratado que segue as regras do estúdio, Padilha trouxe toda sua equipe brasileira para o filme. O que com certeza o torna um autor.

Porém, é impossível deixar de falar dos problemas do filme. E infelizmente, são vários. Mas o que mais me incomodou foi sem dúvida alguma, a inserção da esposa de Alex Murphy no filme. Enquanto no Robocop original a personagem tinha como função servir de ponte para o lado humano do Robocop (tanto que esta só aparece em lembranças) aqui é uma personagem que não é bem desenvolvida. Na verdade, o tempo todo a mulher apenas surge como a esposa desesperada que quer uma explicação. E só, jamais é aprofundado.

Isso não ocorre somente com a personagem, mas com a maioria das críticas que o filme faz. No longa há críticas a uso de drones, a forma desumana que a polícia trabalha, a corrupção, as grandes corporações, aos Estados Unidos, a tv sensacionalista, a sociedade de consumo, entre outros. Notaram que são muitos alvos para um filme só? Pois é, infelizmente poucos são bem explorados (o da tv sensacionalista então, deve ter apenas três cenas. É quase um crime desperdiçar Samuel L Jackson). Assim, o filme parece não ter exatamente uma mensagem. Só muita boa intenção.



Outro sério problema do filme, é o politicamente correto. Enquanto o Robocop original era um produto da Era Reagan (um tanto republicano, vale dizer), o remake é claramente influenciado pela Era Obama (a visão democrata). Por isso, não há 1% da violência do 1o filme, tudo é extremamente high tech e clean, o Robocop é super rápido (e salta como o Hulk), entre outros. O que prejudica diversas cenas que estavam boas e torna outras patéticas (não posso ter sido a única pessoa que achou patética a cena que Murphy dá choque no personagem de Jackie Earle Haley).

Se o filme fosse mais direto na sua mensagem, creio que eu iria gostar muito mais do filme. Admito, sou muito suspeito pra falar sobre. Sou muito fã do original, e ver um Robocop que atira cargas elétricas nos bandidos ao invés de balas certamente me incomodam um tanto. Mas claro, eu entendo a proposta do filme.
Que é apresentar Robocop para uma nova geração, e nesse ponto creio que eles conseguiram. Na minha sessão, haviam três garotos de no máximo 12 anos assistindo ao filme. E eles vibravam em cada cena de ação, ficavam impressionados na cena que mostra o Robocop sem a armadura (por mais clean e não gore que a cena seja, os meninos realmente falaram "wow"), quase jogavam pipoca na tela. E se pararmos pra pensar, foi bem por aí a reação das pessoas ao assistirem o filme original nos anos 80.

Por isso, não acho o remake um filme falho. Apenas um filme que não gosto, infelizmente. Porém ressalto: pra um filme sobre a máquina perfeita de combate ao crime, o longa mira em muitos alvos e acerta pouco.

Nota: 6.0