terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Critica: Uma Aventura LEGO


Phil Lord e Christopher Miller, pra mim, estão aos poucos se estabelecendo como verdadeiros gênios. Poucos conseguem estabelecer sátiras bem-construídas com personagens relevantes, apelo visual e muita cultura pop com tamanha eficiência e criatividade como esses dois. Depois dos excelentes Tá Chovendo Hambúrguer e Anjos da Lei, Uma Aventura LEGO é o terceiro longa-metragem deles e posso dizer que não fica atrás, mostrando-se uma animação criativa e absurdamente moderna, ainda destacando-se por algo sobre o qual falarei mais adiante.

O filme começa com uma batalha entre o mago Vitruvius e o vilão Presidente Negócios. Ao mostrar-se em extrema desvantagem, o primeiro estabelece a profecia de que um escolhido - alguém notável, digno, importante e talentoso - encontrará a peça sagrada que colocará fim em sua tirania. Então, somos introduzidos a Emmet, um operário de construção genérico que vai na onda do senso comum e das instruções pré-estabelecidas, vivendo com uma empolgação absurda sua vida normal sob a visão de que "Tudo é incrível". Porém, em um dia menos comum, Emmet encontra-se com a peça sagrada da profecia e acaba caindo na mira do presidente, que pretende acionar uma arma de destruição em massa nos próximos dois dias. O protagonista deve então levar a peça sagrada para desativar a arma com ajuda do mago, de Megaestilo - uma mulher rebelde e determinada, Batman entre diversos outros personagens.


A partir desse enredo aparentemente simples, Uma Aventura LEGO desenvolve-se de maneira extremamente imprevisível e surpreendente. Chegando a oferecer comentários sociais extremamente válidos e chocantes para quem se dispor a pensar sobre eles (acredito inclusive que os teóricos da Escola de Frankfurt ficariam orgulhosos), principalmente em relação à Indústria Cultural e à tirania mascarada de democracia, existe um momento impecável na qual o protagonista assiste a uma propaganda política e ouve algo que não o agrada, e assim que se coloca a questionar, entra na TV um seriado chamado "Cadê Minha Calça", que o faz rir e esquecer de sua reflexão. Eis um dos motivos desse filme se destacar.

Misturando animação stop-motion em peças de LEGO (imagina só o trabalho que deu!) com animação em computação gráfica, o filme é visualmente deslumbrante e MUITO colorido - lembrando muito Anjos da Lei em alguns momentos-chave. E é impressionante a atenção aos detalhes dos realizadores, que aqui nos oferecem uma direção de arte assustadoramente complexa. Desde as explosões feitas inteiramente com peças de LEGO aos cenários riquíssimos, passando pelo desgaste do plástico de um personagem, só pecando ocasionalmente por encher em excesso os olhos e tornar difícil acompanhar o que acontece. Mas é então que entra a questão de ser um filme moderno pra uma audiência que crescentemente lida com diversas coisas ao mesmo tempo, principalmente as gerações mais novas que assimilam cada vez mais em menos tempo - algo que reflete também em sua narrativa frenética.


Aliás, devo dizer que nem tudo no filme é incrível. Enquanto Uma Aventura LEGO se sobressai pela questão da crítica social e por outro motivo que citarei ao final, é difícil não se aborrecer às vezes com a quantidade de referências por minuto, nem um pouco sutis e apenas um pequeno número delas realmente contribui com a narrativa. É referência aos personagens da DC Comics, a Harry Potter, Senhor dos Anéis, Star Wars, Tartatugas Ninja, LEGO NinjaGo e infinitas outras que realmente prejudicam a narrativa.


Porém, no saldo final, The LEGO Movie fica na memória - e me peguei pensando no filme diversas vezes ao logo do dia-a-dia. Tomando um rumo completamente imprevisível (não me atrevo a dar spoilers) e revelando-se, além de tudo, emocionante ao transmitir uma mensagem digna de destaque relacionada à criatividade e ao enquadramento que muitas crianças sofrem na sociedade. Todos nascemos artistas, todos fomos criativos um dia, e isso vai se perdendo graças à constante pressão social de manter os pés no chão, tirar boas notas, focar em detrimento a "viajar na maionese", mas ainda assim, todos somos únicos, todos somos "mestres construtores" e nenhum de nós, incluindo Emmet, é genérico. E é esse o outro motivo que faz com que esse filme se sobressaia. Depois do desfecho abrupto (e genial), The LEGO Movie prevalece tocando o coração e conduzindo à reflexão. E isso, pelo menos pra mim, ajuda a perdoar alguns defeitos.

Nota: 8,5/10