terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Critica: Ela


Spike Jonze é um diretor que gosta de abordar as diversas facetas humanas de maneira bastante peculiar. Do egoísmo da infância (em Onde Vivem Os Monstros), ao desejo de poder se tornar uma pessoa diferente (Quero Ser John Malkovich). As questões humanas que Ela aborda são mais simples, mas não menos fascinantes e ambiciosas. Por que amamos e nos sentimos amados? Seria o amor um sentimento real ou apenas ligações químicas criadas pelo nosso corpo e nossa mente? O que é um relacionamento?

Essas são algumas perguntas que Theodore (Joaquin Phoenix) se faz ao longo de Ela, quando se apaixona pelo seu sistema operacional, a cativante Samantha (voz de Scarlett Johansson). Algo que inicialmente o personagem aceita sem estranhar, mas que posteriormente começará a questionar a veracidade. O grande mérito do filme de Spike Jonze não é apresentar uma história extremamente original, ou obter grandes interpretações de seus atores. Por mais que o filme tenha os dois, o diferencial de Ela é fazer com que o espectador sinta os mesmos sentimentos que o protagonista sente ao longo da projeção. Assim, enquanto Theodore está absolutamente apaixonado por Samantha jamais estranhamos o fato desta não existir (não estando presente fisicamente). Mas a partir do momento em que Theodore começa a enxergar as bizarrices do relacionamento, com o espectador o sentimento é recíproco.

Vale dizer que o tema da solidão sempre esteve presente na obra do diretor. Veja por exemplo o Charlie Kauffman de Adaptação (que não consegue ter um relacionamento sério com ninguém por se achar repugnante), ou então o puppeter de Quero Ser John Malkovich (que simula relações amorosas com suas marionetes). O diferencial em Ela é que pela 1a vez na filmografia de Spike Jonze, a estranheza não é encarada como tal. E sim como algo ordinariamente normal. Assim, Ela segue a tradicional estrutura dos melhores romances do cinema mas com uma sensibilidade muito rara no cinema do gênero.



É impossível falar do filme sem mencionar os dois atores que encabeçam o elenco: Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson. O ator sempre conseguiu chamar atenção nos filmes que participa (chego a achar uma falta de consideração com seus colegas de cena), e aqui não é diferente. Desde os seus primeiros filmes (e incluo na gama de atuações memoráveis dele até mesmo o Commodus de Gladiador, me julguem) o ator já chamava atenção, e hoje sempre entrega se entrega de maneira até assustadora aos seus papéis (vide O Mestre). E aqui não é diferente, o seu Theodore consegue fazer com que o espectador sinta algo muito raro por um protagonista de uma produção do gênero. Não pena, muito menos admiração. Mas sim, compreensão. Além do ator exibir muito talento em passar mais de 70% do filme praticamente sozinho, sem tornar o filme chato.

O próprio Theodore é uma atração a parte, visto que é um protagonista que exibe características um tanto incomuns para um personagem de cinema do sexo masculino. Já que é extremamente sensível e comunicativo, algo que está se perdendo em protagonistas (além daquela regra ridícula que dita que se o personagem possui tais características, ele obrigatoriamente é homossexual).

Agora a alma do filme, a voz de Scarlett Johansson. Ao optar por escalar uma atriz conhecida pela beleza, e não mostra-la em momento algum do filme, o diretor tomou uma direção corajosa (com certeza a bilheteria de Ela seria muito maior se no poster aparecesse uma foto da atriz). Mas que se encaixa maravilhosamente no filme, visto que Scarlett não precisa se mostrar fisicamente para que sintamos a sua presença. Sua Samantha consegue alegrar, entristecer e deixar confuso tanto o protagonista do filme, quando o espectador. Culminando em cenas carregadas de ironia, como em determinado momento,que Theodore parece ter se perdido dela, como se Samantha tivesse sumido (relembrando que ela nunca esteve presente fisicamente).



As duas atuações não seriam possíveis sem o auxílio do roteiro escrito pelo diretor, que é extremamente eficaz em ressaltar a vida de Theodore antes e depois de conhecer Samantha, note por exemplo que Spike Jonze faz questão de adicionar uma cena no antes mostrando Theodore ligando para um bate-papo erótico. Outra ação aonde a pessoa não está presente fisicamente, aonde pode-se apenas ouvir a voz. Teoricamente, idêntico ao que Theodore tem com Samantha. Mas após ver as duas cenas, a diferença fica nítida. Além das diferentes iluminações de cenas (quando tem-se em tela os bons momentos, o filme parece ganhar um toque de sonho ao estilo de Terrence Malick, mas quando os maus momentos surgem, vira um filme intimista ao estilo de Michel Gondry).

Outro detalhe muito bem construído de Ela, é o mundo no qual se passa o filme. Nunca nos é revelado o ano em que os personagens estão, mas pelo design das cidades e pela tecnologia (perceba que o roteiro não tem aquela necessidade de situar o espectador, confiando que este tem inteligência suficiente) envolvida fica bastante claro que se passa numa espécie de futuro realista. Não vemos carros voadores, ou um cenário cyberpunk. Porém, a tecnologia está tão presente nas vidas das pessoas que o filme não deve em nada a outras produções com um futuro mais exacerbado (quem pensou em Blade Runner ou Minority Report, acertou). Note por exemplo, que desde o início do filme vemos pessoas andando na rua que estão falando sozinhas (como se também tivessem um relacionamento com seus sistemas operacionais).

Por fim, Ela não é um filme que se destaca apenas no cinema de Spike Jonze. Mas também, no cinema de relacionamentos, de ficção científica e dos feel good movies. Sim, existem feel good movies que são decentes. E felizmente, Ela entra na lista com louvor.

Nota: 10