segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Critica: Trapaça (American Hustle)


Desde o início de Trapaça, o diretor David O Russel deixa bem clara a sua principal influência para o tom do longa metragem indicado a 10 Oscars: os filmes de Martin Scorsese. Assim, Trapaça possui uma trilha sonora inspirada, uma direção criativa (note como que a câmera filma a cena em que Bradley Cooper pega o telefone na cena em que é interrompido no meio do jantar em sua casa), atuações acima da média, muita gritaria, muitas discussões, muitos usos de "fucks", personagens com almas dissimuladas, múltiplas narrações em off. Além do filme entregar sutis referências a outras obras de Scorsese (o fato de Christian Bale engordar como Robert De niro  fez em Touro Indomável, não é mera coincidência).

Porém há algo extremamente destoante no tom Scorsesiano do filme, seria o visual dos anos 70? Não, os Bons Companheiros e Taxi Driver já mostraram a década antes. Seria o vasto elenco que conta inclusive com participações especiais? Não, nisso David O Russel também foi eficiente em reproduzir corretamente. Me refiro ao tom engraçadinho do filme, que faz com que em momento algum da narrativa o espectador consiga a levar a sério o suposto drama do longa. Enquanto as cenas dramáticas de Martin Scorsese sempre conseguiam calar o espectador e deixar a platéia tensa (veja a cena da discussão do casal em O Lobo de Wall Street, ou a cena em que Sharon Stone sequestra a filha em Cassino), aqui nunca conseguem convencer o espectador que algo realmente sério esteja acontecendo.

Em parte, isso se deve ao fato de Trapaça ser um filme sobre máscaras aonde todos os personagens criam uma versão falsa de si para se apresentar aos outros (não é a toa que o longa abra mostrando o personagem de Christian Bale tentando esconder a careca, colando pedaços de uma peruca na cabeça), sem hesitar em mentir até mesmo sobre sua nacionalidade. Assim, não é raro ao longo da projeção do filme ouvirmos os personagens contemplando de maneira utópica o real. Em um mundo de mentiras, ouvir um pouco de verdade com certeza soa como um nirvana. Assim, o filme é muito eficaz em ressaltar esse clima de falsidade nos figurinos, maquiagens e até atuações dos intérpretes. Note por exemplo, o uso de óculos escuros. Os personagens o utilizam a fim de enxergar uma versão mais colorida do mundo, algo mais falso e agradável aos olhos. Note que ao longo da narrativa, o personagem de Christian Bale (o maior trapaceiro de todos) usa óculos escuros o tempo todo (e quando a realidade enfim cai sobre ele, logo recebe um soco aonde as lentes dos óculos quebram).

O problema, é que mesmo empregando uma visão interessante sobre a forma com a qual os personagens encaram o mundo, o filme não consegue ser levado a sério pelo espectador. Mesmo nas cenas dramáticas que supostamente deviam prender o espectador pelas discussões sérias dos personagens, o espectador jamais consegue deixar de pensar que é um filme engraçadinho. Algo que também prejudicou o filme anterior do diretor, O Lado Bom da Vida. Veja por exemplo, a cena na qual a personagem de Amy Adams revela quem realmente é para um personagem x. Jamais sentimos a cena como deveria ser, jamais sentimos o choque do personagem enganado até então. A verdade é que o filme parece ter medo de ficar pesado, ou real demais (ironicamente).


Porém, isso não quer dizer que Trapaça seja um filme ruim. Muito pelo contrário, por mais que David O Russel oscile entre a comédia e o filme de golpe, a produção é muito competente. A começar pelo seu vasto elenco, que conta com atuações espetaculares de atores que já trabalharam com o diretor em produções anteriores. Vale dizer que o filme tem um destaque positivo, e um destaque negativo no elenco. 

Este último esta na atuação da queridinha Jennifer Lawrence (sim, se você é fã dela muito provavelmente vai ganhar ódio de mim pelo que escreverei agora.). Por mais que a atriz tente imprimir algumas particularidades a personagem (veja o jeito como permanece mexendo os olhos quando conversa com um mafioso em um restaurante a fim de ressaltar a fragilidade), esta nunca diz a que veio. Além de em muitos momentos soar extremamente caricatural, veja a cena na qual a personagem canta Live and Let Die por exemplo. Não parece que uma nota está fora do lugar? Pra uma atriz com tanto crédito em Hollywood, é estranho ver Jennifer Lawrence entregando uma atuação tão irregular (sim, fãs de Jennifer Lawrence, me crucifiquem) e ganhar uma indicação ao Oscar pela mesma. 

Já o grande destaque do elenco, sem dúvida nenhuma é Christian Bale. Interpretando uma figura real com características grotescas, o ator poderia muito bem soar artificial e não levar a sério seu personagem (veja por exemplo, Timoty Spall interpretando Winston Churchill em O Discurso do Rei, uma caricatura ruim e sem seriedade). Felizmente, ele optou pelo jeito difícil e vestiu o personagem como Robert De Niro o fez em Touro Indomável (também de Scorsese). Ganhando peso para o papel, e sem medo de tornar-se uma figura grotesca a fim de conseguir sentir o personagem. Além de conseguir fazer com que a platéia entenda o que se passa na cabeça do personagem, sem este dizer no que está pensando (outro ponto em comum com Robert De Niro). Um contraponto interessante com o último personagem que o ator interpretou num filme de David O Russel, o viciado em crack de O Vencedor (que o fez ganhar o Oscar de melhor ator coadjuvante). Um papel em que o ator fazia caras e bocas, de um personagem extremamente verborrágico. Por isso, vê-lo numa interpretação mais contida e sutil (mas não menos impactante) é muito bacana.



Outro ponto positivo da produção, sem dúvida alguma, é a reconstituição dos anos 70. Além de em muitos momentos parecer se passar no mesmo mundo de Cassino ou Os Bons Companheiros, o filme também tem muito em comum com Boogie Nights (filme de Paul Thomas Anderson, outro diretor que se influenciou em muito no cinema de Martin Scorsese). Afinal, os anos 70 foram uma época na qual as pessoas faziam questão de mostrar os seus atributos externos (nem que fosse pelas roupas espalhafatosas, ou pelos cortes de cabelos) . Mas que porém, jamais mostravam nada interno ou pessoal. Por isso, não é raro vermos cenas aonde os personagens aparecem mudando a natureza do cabelo a fim de parecer diferente (e jamais mostrando sua real identidade). Mais uma vez, a utopia do real sendo apresentada de maneira sutil.

Seria injusto falar de Trapaça sem mencionar sua espetacular trilha sonora, contando inúmeros clássicos dos anos 70. Incluindo músicas de Duke Ellington, Elton John, Mayssa Karaa, Paul Mccartney, David Bowie, Donna Summer, Tom Jones e muitos outros. Nesse ponto, David O Russel conseguiu reproduzir com perfeição um dos traços mais bacanas de Martin Scorsese, créditos a ele.

Em determinado momento do filme, surge uma cena que parece dialogar muito com essa reprodução das características cinematográficas de Martin Scorsese. O trapaceiro de Christian Bale mostra para o agente do Fbi interpretado por Bradley Cooper, um quadro presente numa famosa galeria. O detalhe é que a pintura é falsa, mas o nível de detalhes nesta é tão grande que ninguém questiona a autenticidade dela. Nisso o trapaceiro pergunta: "Agora ,quem é mais genial: o pintor, ou o falsificador que enganou a todos?". Não estou chamando David O Russel de falsificador, ele é um bom diretor. Mas devo dizer que após ver Trapaça, entre o artista original e o reprodutor fico com o artista original:

Nota:7.5