segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Critica: 12 Anos de Escravidão


Durante as coletivas de imprensa de Django Livre, os jornalistas enchiam de perguntas o diretor do longa, Quentin Tarantino, sobre o período que resolveu adaptar no longa: a escravidão americana. Detalhes sobre a época, a escolha de fazer um faroeste situado naquele ano, etc. Em determinado momento, alguém falou sobre a violência presente no filme. O diretor de Pulp Fiction respondeu que a violência do longa correspondia as pesquisas históricas, e que a produção não mostrou 10% da brutalidade do período: na realidade, era muito pior que o mostrado no filme.

Se Django Livre não é o filme definitivo sobre a escravidão (mostrando sem censura toda a violência presente), o posto cabe a 12 Anos de Escravidão. Filme de Steve Mcqueen que serve como documento histórico de um tema que por mais que tenha raízes antigas, continua presente na nossa sociedade. O diretor de Hunger e Shame não apenas traz a sua sensível direção para mostrar a história de Solomon Northup, como também consegue dar ao filme uma alma. Considerando que são inúmeros os filmes que possuem a escravidão como tema, vale notar que a grande maioria falha por um simples detalhe: não tocam o espectador. Na realidade, além de não fazer o espectador se importar com a história ainda o fazem achar que o tema é idiota e banal.

Felizmente, surge no início deste ano 12 Anos de Escravidão. Filme que tem como um dos maiores méritos passar ao espectador os sentimentos de agonia e de dor do protagonista, e por a platéia no meio das situações apresentadas. É interessante perceber desde o início do longa, que Solomon não é o típico protagonista de filmes de escravidão. Ele não é ingênuo e ignorante como o já mencionado Django do filme de Tarantino, por exemplo. Solomon é um homem culto que não consegue se conformar com a injustiça do mundo, e que não deixa se impor mesmo quando sua vida está sendo ameaçada. Veja por exemplo, a cena na qual discute com outros escravos as maneiras de sobreviver nas fazendas. Ao ouvi-las, Solomon replica: "Mas eu não quero sobreviver, quero viver".


Vale dizer que 12 Anos de Escravidão é um filme emocionalmente intenso, são raros os momentos em que o filme dá um momento de alívio tanto para o espectador quanto para Solomon. Note que o diretor faz questão de ressaltar a tensão por meio do design de som. Colocando sons de estalos de chicote em cenas onde os escravos estão descansando: mesmo numa aparente tranquilidade, o ódio pode aflorar de maneira inesperada.

Além da tensão, outra coisa que aflora em diversos momentos do filme é a agonia. Não me refiro as cenas de chicoteamento, mas as cenas nas quais o diretor deixa as cenas acontecerem sem cortes. De forma que o espectador se sente frustrado em ver o personagem x sofrendo e ao mesmo tempo não poder ajuda-lo. Tome por exemplo, a cena aonde um personagem é deixado pendurado pelo pescoço (a cena não tem cortes, e dura intermináveis 80 segundos). Vemos o personagem sofrendo, e pessoas passando ao fundo: ignorando o seu sofrimento.

Ao deixar o espectador numa posição semelhante a de um voyeur, Steve Mcqueen deixa bem clara a mensagem do filme: enquanto ignorarmos o preconceito em nossa volta, somos tão culpados pela segregação racial quanto os que provocam-a por meio da violência.
Não é a toa que em determinado momento, Solomon (uma interpretação emocionante de Chiwetel Ejiofor) quebra a quarta parede e encara a câmera. Fazendo com que dê a impressão que está olhando para nós.

Outro mérito do filme sem dúvida alguma, é a maneira com a qual Steve Mcqueen optou por adaptar a história real para o cinema. Em momento algum o filme soa metódico ou melodramático (coisa que Spielberg não conseguiu evitar em Cavalo de Guerra), ou longo demais. Vale a pena observar que para um filme do seu tema, 12 Anos de Escravidão é muito mais curto que seus antecessores. O diretor optou por tirar toda cena que não fizesse com que a narrativa caminhasse, o que é um grande acerto (apesar de em certos momentos acabar por tirar a dimensionalidade de alguns personagens, vide o interpretado por Brad Pitt, que quase soa como um deus ex machina do roteiro).

Além de fazer questão de se concentrar em cenas que fazem com que o espectador reflita sobre as questões escravistas, como por exemplo quando o amo da vez (Benedict Cumberbatch) de Solomon devolve a ele seu violino. Inicialmente o pobre homem se sente agradecido, mas depois percebe que receber de volta seu violino não foi um ato de bondade. O violino era seu antes, era uma obrigação recebe-lo de volta.



Além de todos essas qualidades, 12 Anos de Escravidão ainda conta com um vasto elenco recheado de excelentes interpretações. Contendo atores como Paul Giamatti, Brad Pitt, Benedict Cumberbatch, Michael Fassbender (assustador), Paul Dano, Michael K Williams além é claro dos estreantes: Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong'o.

Junto com Michael Fassbender, os dois protagonizam a cena mais emocionalmente intensa do longa. Um chicoteamento que Steve Mcqueen deixa a câmera filmar durante 5 minutos sem cortar. Além de extremamente angustiante (pela violência presente em tela, e pela impotência da nossa parte), a cena resume o filme.

Pode não ser o melhor filme lançado em 2013 (nos estados Unidos), ou ser o ganhador do Oscar 2014. Mas nada disso muda o fato de que 12 Anos de Escravidão é um filme poderoso que merece ser visto, e refletido após a sessão. São poucos os filmes que abordam o tema com tamanha maestria, e quando estes surgem não devem ser ignorados.

Nota: 9.0