sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Critica: A Vida Secreta de Walter Mitty


É uma pena que muitos roteiristas pensem que o público, que irá assistir ao filme baseado no seu roteiro, é burro, e insistam em colocar diálogos que escancaram o óbvio nas cenas. Apenas para que o espectador "entenda" a mensagem destas e compreenda o filme. Além de ser uma ação internamente pretensiosa (algo no estilo "Meu roteiro é tão genial que as pessoas não irão compreende-lo se eu não explicar em minúcias, pobres almas sem senso de absorção"), acaba atrapalhando muitas experiências cinematográficas.

Apenas alguns filmes que sofrem do mal do roteirista explicador: Prometheus, As Aventuras de Pi, Tron O Legado, Os Descendentes. E o exemplo mais recente, A Vida Secreta de Walter Mitty. Filme dirigido e protagonizado pelo líder do Frat Pack, Ben Stiller. Comediante que já fez excelentes trabalhos na direção (Trovão Tropical é uma das melhores comédias dos últimos 10 anos, além de uma das melhores sátiras já feitas sobre Hollywood), e também trabalhos extremamente ruins (The Cable Guy é um filme tão ruim, que chega a ser assustador). A Vida Secreta de Walter Mitty fica no meio do caminho, visto que é um filme belíssimo mas que quase compromete tudo com a previsibilidade do roteiro. E a já comentada insistência do roteirista, mas falarei disso mais tarde.

O filme é baseado num filme dos anos 40 de mesmo nome, e conta a história de Walter Mitty (Ben Stiller). Sonhador que trabalha na sessão de negativos da Revista Life, e que não viveu muito. Um dia, ao receber os últimos negativos de fotos do fotógrafo Sean (Sean Penn), percebe que o negativo 25 (que continha a foto que o fotógrafo descreveu como "a quintessência da vida/Life", e que seria a capa da revista) está faltando. Por isso, Walter sairá atrás do fotógrafo para relatar-lhe o ocorrido.



Antes de mais nada, vale dizer que Ben Stiller é um diretor competente. Aproveitando os espaços que o filme mostra para ressaltar um aspecto da personalidade do personagem, como por exemplo o próprio prédio da Life. Aonde gigantescas capas da revista estampadas com ícones de gerações (John Lennon, John Kennedy, Bob Dylan, e uma das referências do personagem: Peter Sellers), contrastam com aquele pequeno homem que passa correndo ao lado.

Ou então, o contraste de Walter quando estava na cidade (extremamente tímido e com medo de se impor), com o Walter quando este vai a Islândia (o personagem perde todo medo de se impor, e parece realmente estar feliz, pois está se encontrando). Além das já clássicas mudanças de figurino que ressaltam a mudança do personagem. Enquanto Walter usa roupas com cores como bege e branco no início do filme, no final este usa roupas de cores azul e vermelho.

Ainda assim, o grande destaque do filme não é a direção de Ben Stiller. E sim, a fotografia de Stuart Dryburgh. Fotógrafo inglês que conseguiu tornar A Vida Secreta de Walter Mitty um dos filmes mais belíssimos (em termos visuais, deixando bem claro) dos últimos 5 anos. Para ser bem sincero, de filmes recentes me recordo apenas de um resultado mais magnífico em A Árvore da Vida (o que convenhamos, é um belo referencial). Filmando tanto a Nova York lotada de gente, quanto a quase desértica Groelândia tudo fica extraordinariamente poético. Chegando ao ápice da beleza, quando Walter joga futebol no Himalaia. A tonalidade alaranjada escura do céu, combinada com o visível frio do lugar tornam a cena memorável.

Porém, é necessário falar: o que o filme tem de belo, tem também de previsibilidade. Em muitos momentos um espectador médio de cinema irá adivinhar exatamente o que irá acontecer na cena a seguir. Pois como os trailers não escondem, A Vida Secreta de Walter Mitty entra na longa lista de feel good movies. Recheado de frases como "acredite em você mesmo", "Você é capaz", "aproveite sua vida" Walter Mitty tem poucos momentos em que não soa como um Deja Vu (eu não tenho nenhum problema com feel good movies, contanto que sejam feitos direito e respeitando a inteligência do espectador. Por exemplo, Sociedade dos Poetas Mortos). Tamanha a quantidade de filmes que já assistimos com a mesma mensagem.

Outro sério problema do filme é a insistência do roteiro em explicar as mensagens, julgando serem difíceis demais para a platéia entender sozinha. Por exemplo, quando um personagem mostra um mapa com anotações de fotografia. Sabemos que aquilo pertence a Sean, o fotógrafo que Walter está procurando. O que indica que ele está na pista certa. Mas se você não concluiu isso, não se preocupe. O diálogo que vem logo em seguida expõe tudo ("Veja, é um mapa do Sean, o fotógrafo. Estou no caminho certo!"). Apenas para dar um exemplo.





Claro que o roteiro não é de todo mal, afinal ideias muito simples e sutis dizem muito mais do que aparentam. O próprio fato do personagem trabalhar na revista Life, ou então trabalhar na sessão de negativos já diz muito sobre a ambição do roteiro. E funciona perfeitamente, porém a melhor das ideias certamente é descrever o negativo 25 como a quintessência da Life (em outras palavras, o sentido da vida de Walter). Por isso, é um momento fascinante quando Walter encontra o tal negativo ele não resolver ver este: ele já sabe o sentido da sua vida, não precisa de alguém dizendo para ele.

Um belo filme de fantasia dramática (os trechos aonde Walter sonha acordado são ótimos, destaque para o que o personagem parece estar dentro de um filme da série Bourne), com diversas cenas marcantes (o quase videoclipe de Space Oddity é magnífico, deixaria David Bowie com um sorriso no rosto) que poderia ter alcançado muito mais se o roteiro confiasse mais no espectador. Isso não diminui o impacto do filme, uma prova de que Ben Stiller além de ser um ótimo comediante é também um diretor muito eficiente.

Espero que assim como Walter Mitty, Stiller possa conseguir alcançar voo próprio no futuro.

Nota:7.0