segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Crítica: O Lobo de Wall Street



Alguns críticos comentavam que Martin Scorsese havia mudado ao longo dos anos, preferindo deixar de lado tramas mais agressivas e sujas como Os Bons Companheiros e Cassino e mergulhar em filmes sobre a nostalgia de algumas décadas (O Aviador, A Invenção de Hugo Cabret). Para os que pensam assim, O Lobo de Wall Street funcionará como um tapa na cara. Pois nunca o diretor de sobrancelhas grossas havia feito um filme aonde o politicamente incorreto estivesse tão presente. Não se engane pelas imagens de divulgação e pelos trailers, o personagem Jordan Belfort (Leonardo Di Caprio) é tão dissimulado e tão magnificamente nojento quanto Henry Hill (interpretado por Ray Liotta em Os Bons Companheiros), ou Sam Rothstein (interpretado por Robert De Niro em Cassino).

De fato, O Lobo de Wall Street a primeira vista não parece um filme pelo qual Martin Scorsese se interessaria. Afinal, por que um dos maiores cineastas norte-americanos de todos os tempos se interessaria por um filme ao estilo de Wall Street? Essa pergunta se responde em menos de 5 minutos de filme, aonde o personagem Jordan Belfort (Leonardo Di Caprio) lista todas as coisas que possui e revela todas as drogas que toma no seu dia a dia. Mais um personagem com alma dissimuladamente violenta para a galeria de protagonistas com mal caráter da filmografia do diretor.

Ainda assim, muitos pensavam que o filme seria mais uma produção sobre números e dados. Como tantos outros filmes sobre o mercado financeiro. O que seria uma decepção, afinal se tem uma coisa que Martin Scorsese sempre se interessou em seus filmes eram os personagens. Mas não se engane, o longa segue a linha dos melhores filmes do diretor nos anos 90 (sua melhor fase em minha opinião).
Por isso, aguarde por: uma direção espetacular, uma trilha sonora inspirada (de Foo Fighters a The Lemonheads), atuações impecáveis, um roteiro que consegue mexer com as emoções do espectador e um protagonista que conversa com a platéia no melhor estilo Ferris Bueller.



Vale dizer que em O Lobo de Wall Street, Martin Scorsese utiliza todos as técnicas que aprendeu na faculdade de cinema para fazer com que o espectador sinta mais as cenas. Como por exemplo, em determinada cena, o protagonista está jantando em um caro restaurante e discutindo negócios. E em frente a ele, está um abajur dourado que tem exatamente a mesma função do abajur que aparecia nas mesas do restaurante de Os Bons Companheiros: ajudar a criar o clima da cena. Em Os Bons Companheiros, o abajur era vermelho para atenuar a violência presente nas conversas dos mafiosos. Aqui, o abajur é dourado a fim de ressaltar o quanto de dinheiro e o quanto de riqueza os personagens estão exibindo.

Ou então, o uso de cores para exemplificar uma determinada posição. No início do filme, o protagonista conhece um corretor do mercado financeiro (Matthew Mcgounaghey) que é tudo que ele sempre quis ser. Ele usa um terno listrado azul, que acaba virando símbolo de poder e comando. Toda vez que algum personagem toma o comando da situação (como quando um dos executivos de Jordan assume por um tempo a chefia), este aparece utilizando a mesma combinação azul listrada que o corretor financeiro do início do filme. E essa representação das cores fica mais interessante quando percebemos que não se aplica somente aos que trabalham na bolsa: em determinado momento, uma esposa de um personagem pede o divórcio (tomando as rédeas de sua vida). E ela está usando exatamente uma blusa azul listrada.

É chover no molhado dizer que Scorsese dirige de maneira maravilhosa, mas é impossível deixar de mencionar quando me deparo com detalhes como os que citei acima ou ao assistir cenas tão bem orquestradas. O que dizer dos travellings que mostram a vida no escritório de Belfort fazendo questão de mostrar cada um dos corretores falando exatamente o que o chefe os havia ensinado no início do filme? Foram os travellings de Os Bons Companheiros que inspiraram Paul Thomas Anderson em Boogie Nights, e tantos outros cineastas. Não duvido que no futuro O Lobo de Wall Street se una a galeria de filmes obrigatórios de Scorsese no quesito direção.



Vale dizer que assim como os melhores trabalhos do diretor, O Lobo de Wall Street não foi feito para puritanos. Ao longo das três horas de duração vemos todos os possíveis consumos de drogas, sexo de todos os jeitos (sim, com nudez frontal masculina e feminina), e exatos 506 "fucks" (é o filme com maior número de "fucks" da história do cinema). Além da clássica edição de Telma Schoomaker (que esteve em todos os filmes do diretor), que em muitos momentos consegue deixar com que o espectador sinta como se tivesse cheirado uma carreira de cocaína com Jordan.

Assumidamente um filme sobre excessos, a produção acerta por fazer o mesmo que Trainspotting fez em 1996: mostrar sem julgar. Muitos estão dizendo que o filme celebra o estilo de vida de Jordan Belfort e de seus corretores, mas é justamente o contrário. É muito comum nesse tipo de filme mostrar um início recheado de grandeza e sucesso (fazendo com que o espectador inveje o protagonista, mesmo ele ganhando todas essas coisas de maneira no mínimo suspeita), e um final mostrando a queda e expondo tudo se desmoronando até a beira da miséria.

A clássica ascensão e queda. Porém, é interessante notar que O Lobo de Wall Street desde o início não nos faz invejar o estilo de vida de Jordan. Ao passo que o corretor senior diz que tem uma Ferrari branca, logo em seguida diz que é um viciado em drogas. Além de em diversos momentos o filme dar dicas de que aquilo é errado e que em algum momento irá acabar (no momento em que os corretores estão falando sobre anões que irão arremessar em alvos numa festa, eles discutem tudo que se pode fazer com eles legalmente falando, o que na verdade é uma metáfora para os jeitos que eles estão se aproveitando das pessoas para quem vendem ações).




Por mais que eu goste de falar da direção de Scorsese, não posso deixar de falar do elenco do filme. Que não deve em nada aos numerosos elencos de Os Bons Companheiros, Cassino e Touro Indomável. De atores que aparecem por muito tempo em tela (como é o caso do eterno Seth de Superbad, Jonah Hill), até os que aparecem apenas em alguns minutos (o caso do eterno Randy de My Name is Earl, Ethan Suplee ou então Matthew Mcgounaghey) todos conseguem desempenhar bem seus papéis.

Mas o grande destaque é Leonardo Di Caprio, ator subestimado que tem conseguido papéis cada vez mais interessantes e oferecendo interpretações cada vez melhores. Após relembrar as parcerias anteriores de Di Caprio e Scorsese (Gangues de Nova York, O Aviador, Os Infiltrados, Ilha do Medo) é impossível deixar de constatar: as melhores interpretações do ator vem quando ele trabalha com Scorsese. Seu Jordan Belfort é um homem dissimulado e sem escrúpulos que não consegue parar de viver no limite. Em relação a tudo em sua vida: sexo, drogas e principalmente dinheiro. Mesmo nas cenas em que achamos que o personagem começou a tomar as rédeas de sua vida, logo nos surpreendemos em ver que continua o mesmo (note como que para parecer inocente Di Caprio adota um tom de voz quase infantil, e quando está no escritório assume um tom de voz que quase lembra um latido de um vira-lata).

 Pecando apenas pelas poucas cenas com o agente do Fbi de Kyle Chandler (apesar de este protagonizar uma das melhores cenas do longa, quando tanto Jordan quanto o agente falam sobre os limites de suas vidas), O Lobo de Wall Street é um excelente filme. Mostrando que Martin Scorsese ainda é um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos, que não perdeu seu bom humor negro e que ainda tem coragem de mostrar sem pudor o seu tema favorito: a violência presente nos excessos do homem. Uma pena que talvez isso custe alguns Oscars para o filme, além de outra merecida estatueta de direção.

Nota:10