quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Critica - Ninfomaniaca: Volume 1


É difícil fazer uma crítica completa sobre Ninfomaníaca: Volume 1, afinal, trata-se não de um filme e sim de metade de um. Para que fosse distribuído, foi exigido que houvesse a divisão em duas partes (além de que fossem cortadas cenas com closes de genitálias - cuja falta não compromete o filme, pelo menos). Ao contrário de As Relíquias da Morte ou Amanhecer - cuja divisão era planejada e as primeiras partes, apesar de não finalizarem a história, completavam seus ciclos - o caso do mais novo filme de Lars Von Trier é mais delicado por ser uma divisão abrupta que dificulta a crítica. Enfim, vou fazer o que julgo possível.

Ninfomaníaca começa mostrando-nos a protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg) totalmente ferida e jogada no chão, e, nessas condições, é encontrada por Seligman (Stellan Skarsgard), que a oferece abrigo e é pra quem ela contará sua trajetória. E é sob tal pretexto que voltamos no tempo e acompanhamos Joe quando mais nova (interpretada por Stacy Martin) nessa história dividida em capítulos. Simples, não?
"I discovered my cunt at age 2". É assim que Joe começa, sem demora já estabelecendo o tom que será utilizado pela personagem e pela narrativa, já permitindo que o espectador ria um riso nervoso, desconfortável. E tal humor negro marca grande parte de Ninfomaníaca Vol. 1. Some esse humor negro desconfortável a muito sexo, arte, música, poesia, dor, angústia e metáforas com pescaria. Posso não ser o maior fã de Lars Von Trier, mas devo admitir que isso soa muito legal (e mostra-se tão legal quanto).


Jamais entediante e sempre oscilando a narrativa com algumas sequências energéticas, outras mais lentas, outras engraçadas, outras sufocantes, usando vários artifícios narrativos como split-screen, letreiros, números (e outras coisas) projetadas na tela, rewinds bruscos, preto-e-branco e outras coisas, Ninfomaníaca sempre surpreende e sempre renova-se. Outro ponto a se destacar são os ótimos diálogos que Von Trier cria - principalmente entre Joe e Seligman para introduzir os capítulos, que são suficientemente competentes para que quase não percebamos a fragilidade com a qual estes são "costurados". Tudo isso contribui para a criação de uma atmosfera muito singular, sensorial, unindo a imagem ao som de jeitos incríveis em certos momentos. É algo difícil de explicar e que deve ser sentido - então vá assistir assim que der.


Não posso deixar de falar também das ótimas performances. Gainsbourg e Martin conseguem alcançar um tom enigmático e apático, alternando entre ambos de forma quase imperceptível, com uma sutilidade que se contrapõe à falta de habilidade da personagem de usar eufemismos - como podemos perceber no modo com a qual ela começa a narrar sua história, citado acima - e até Christian Slater, um ator do qual desgosto tanto por suas atuações ruins quanto pelos péssimos filmes no qual atua (Alone in the Dark diz "olá!"), mostra-se incrivelmente competente aqui como o pai de Joe, mas é mesmo Uma Thurman quem rouba a cena em uma sequência divertidíssima e sufocante (não entrarei em detalhes).


É uma pena, porém, que o filme tenha sido dividido. Vol. 1 acaba com um final abrupto, sem nenhum cliffhanger (justamente por não ter sido planejado em duas partes) e que deixa um gosto ruim na boca. Eu poderia facilmente assistir ao corte original, porque achei Ninfomaníaca tão fascinante e constantemente surpreendente que poderia assistir a tudo facilmente em uma sentada. Julgando que só vai atrás de um filme de Lars Von Trier quem realmente quer, dividir e censurar é indefensável. Sem sua segunda metade, Ninfomaníaca soa vago com a catarse perdida e sua intensidade diluída. Bom...o negócio agora é esperar e ver como seguirá a fascinante história de Joe. 

Nota: Não consigo dar nota, tendo visto apenas metade. Apenas posso dizer: Vá assistir :D